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O quarto voto

· Carola Susani descreve a santa do mês, Paola Frassinetti ·

Paola Frassinetti nasceu no dia 3 de Março de 1809, em Génova (Itália), no bairro de Portoria. Como escreve Rosa Rosetto, naquela época Portoria era praticamente um campo aberto, com pequenas vivendas e algumas casas de camponeses. O seu pai, Giovanni Battista, possuía uma loja de tecidos. A sua mãe, Angela Viale, tinha dado à luz dez filhos, dos quais só cinco sobreviveram.

Aquando do falecimento da sua mãe, Paola – única filha entre quatro filhos – tinha nove anos. Sem dúvida, foi precisamente Angela quem fez da religiosidade o clima do seu lar, o pão quotidiano dos seus filhos. Giuseppe, Francesco e Paola, que eram os filhos mais velhos, recolheram o testemunho directamente das suas mãos, e os outros dos irmãos: os quatro filhos tornaram-se sacerdotes e Paola fundou uma congregação.

Enquanto Angela ainda vivia, Paola passava o seu tempo com ela, ajudava-a, cozinhava e fazia trabalhos de malha; deleitava-se já em pequenos combates consigo mesma, como vencer o medo da escuridão, ou pelo menos atravessá-lo sem que ninguém se apercebesse da dificuldade que isto representava para ela. Os programas de uma educação fora de casa não se concretizaram e assim Paola, tendo como professores a sua mãe, o seu pai e os seus irmãos, conseguiu aprender o mais possível de cada um deles. Era obstinada, e quando lhe competia um trabalho novo, pensava: «Quem realizou este trabalho antes tinha duas mãos e dois olhos, como eu».

Quando Angela faleceu, a sua tia Anna, que morava em casa juntamente com eles, mandou-a controlar a mulher que devia revestir a defunta: para Paola, assim como para numerosos escritores de Oitocentos, permanecer diante do corpo sem vida de uma pessoa amada constituía uma experiência perturbadora e atroz. Paola terá necessidade de uma existência inteira para a superar, a fim de que a morte não vencesse. Com nove anos já acudia o seu pai e os seus irmãos. Começou assim o seu ciclo de transformações, e do seu destino fez uma escolha: levantava-se antes de todos e depois acordava os seus irmãos, mas para ter a certeza de o conseguir, dormia vestida, com o espartilho apertado. Do sacrifício fez a sua força; da sua fragilidade, um impulso.

Paola desejava tornar-se religiosa, mas prolongou-se no tempo a tensão com o seu pai que, entre obstinações e concessões, recusava-lhe a autorização. Quando o seu irmão Giuseppe assumiu o governo da paróquia de «San Pietro di Quinto al Mare», pediu ao pai que lhe concedesse Paola como ajudante. Com vinte e dois anos, ela levava uma vida interior cheia de entusiasmo e agora descobria um ímpeto de acção – que para ela visará sempre o campo da educação – e, ao mesmo tempo, a amizade: deve ter sido uma euforia!

Jovens filhas de camponeses e de marinheiros começaram a ir à sua procura. Marianna Danero, que será sua amiga e irmã de hábito, disse que quando a encontrou sentiu uma «felicidade que não se consegue explicar». Juntas, faziam passeios entre oliveiras e vinhas. Um grupo de moças pobres reuniu-se ao redor de Paola e, através de sucessos e fracassos, renúncias e reconstruções, com a ajuda do padre Giuseppe e do sacerdote Luigi Sturla, fundou um instituto destinado à educação de moças pobres.

Não dispunham de dinheiro e muitas, inclusive Paola, eram fisicamente frágeis e, com a excepção de Paola, sem uma formação. Corria o ano de 1834 quando alugaram «a casinha», com uma quantia oferecida pelo padre Bresciani. Em 1835, o padre Luca Passi – promotor da Obra de santa Doroteia e de são Rafael, que tinha como finalidade a educação dos jovens e das jovens – interpelou Paola, e deste modo as irmãs, além dos votos de pobreza, castidade e obediência, emitiram também o voto de assistência à Obra de santa Doroteia. Depois da cólera, da crise de desconfiança das companheiras e do país, e do seu pai que diante do instituto afugentava as jovens gritando «Paolina enlouqueceu», a paz com ele renovou-se e aprofundou-se, a obra voltou a florescer e em 1841 Paola partiu para Roma.

No início – são três, ela e duas companheiras – vivem alojadas num lugar pequeno e sujo, acima dos estábulos dos príncipes Torlonia. A pobreza e a incerteza a respeito da subsistência são vividas por Paola como um estímulo, como uma provocação à sua imaginação. Em 1842 ela fundou a primeira escola na paróquia de Santa Maria Maior, e sucessivamente surgem outras em diversas paróquias e em Macerata. Nisto ela conta com o apoio de Gregório XVI, e com a ajuda e a amizade de Pio IX. Depois assume a responsabilidade pelo conservatório de Santo Onofre, na colina do Janículo.

Em 1849, na conclusão da breve existência da República romana, enquanto o Papa fugia para Gaeta, as tropas francesas e os voluntários da República enfrentavam-se em Roma. Um dos campos de batalha foi precisamente ali, nos arredores de Santo Onofre. Os republicanos maltratados e sedentos pediram socorro, e as religiosas tiraram água do poço para matar a sua sede, alimentaram os combatentes e curaram os feridos. Os republicanos reconheceram a Paola e às suas irmãs uma magnanimidade e generosidade que não tinham previsto, e assim respeitavam-nas de uma forma até um pouco teatral, obsequiando-as com a saudação militar.

Enquanto Paola ainda vivia, foram fundadas algumas casas de Santa Doroteia tanto no Brasil como em Portugal. Em 1876 a irmã foi atingida por uma paralisia. Recuperou-se depois de um mês e, retomando pelo menos em parte as suas capacidades motoras, recomeçou a trabalhar despendendo-se sem trégua, dizendo-se de si mesma: «Eu sou o Jonas do instituto». Faleceu em 1882, e foi canonizada por João Paulo II em 1984.

A AUTORA

Carola Susani nasceu em 1965, na região do Véneto (Itália) e quando tinha quatro anos transferiu-se com a família para a Sicília. Hoje vive em Roma. Em 1995 foi publicado o seu primeiro romance Il libro di Teresa (Giunti). Escreveu para adultos e para adolescentes, romances e colectâneas de contos. Entre outros, recordamos: L’infanzia è un terremoto (Laterza 2008), entre autobiografia e reportagem narrativa; o romance Eravamo bambini abbastanza (Minimum Fax 2012); e o livro para adolescentes Susan la Piratessa (Laterza 2014). É redatora de «Nuovi argomenti».

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