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O primeiro quinquénio de «L’Osservatore Romano»

· Congresso multimídia sobre o jornal da Santa Sé ·

Realizou-se em Forlì (Itália), na sala multimídia São Luís, o congresso «Nicola Zanchini, il forlivese che fondò “L’Osservatore Romano”» dedicado ao advogado, alto funcionário do Estado pontifício, que em 1861 juntamente com Giuseppe Bastia fundou o nosso jornal, dirigindo-o até Janeiro de 1866. O congresso foi uma ocasião para ilustrar as últimas pesquisas, feitas em vários arquivos históricos, que começam a restituir-nos a imagem mais definida de um protagonista e testemunha. Neste sentido, o encontro foi enriquecido com a exposição de uma série de documentos, em parte ainda desconhecidos, relativos às vicissitudes biográficas e profissionais de Zanchini que finalmente, por ocasião do sesquicentenário de «L’Osservatore Romano», começam a emergir da sombra. Publicamos amplos excertos da intervenção do vice-director de «L’Osservatore Romano».

No quinquénio, o jornal consolidou-se. Aperfeiçoou a sua identidade cultural e, gradualmente, inseriu ajustes gráficos. Em 1863 foi colocada no frontispício a indicação «edição da tarde», que em 1864 se tornou «Jornal da tarde». Ainda hoje o jornal é um diário da tarde. A 26 de Dezembro de 1864 o jornal anunciou que modificaria «com o novo ano, o seu formato sem alterar o preço actual da assinatura».

A partir de Janeiro de 1866, em coincidência com a primeira mudança de direcção (a Zanchini e Bastia sucedeu Baviera) mudam também os caracteres do cabeçalho. A primeira variação provisória do mesmo remonta a Janeiro de 1862.

Mas o mais importante é descrever a evolução progressiva dos conteúdos. Os dois directores, no início de 1862, escreveram um editorial intitulado «A nossa epígrafe», no qual afirmavam que «entrando no segundo ano das nossas publicações, olhamos para trás e sentimos no coração a satisfação de ter cumprido um dever. O nosso programa era simples e não nos parece que o tenhamos perdido de vista. Combater ao lado dos débeis, porque com os débeis estavam o direito e a justiça; combater contra os fortes, pois com eles caminhavam a iniquidade e a injustiça; eis o que fizemos e faremos sempre, se Deus apoiar o nosso zelo até ao dia da vitória completa. Este compromisso nobre, ao qual fomos consagrados; esta confiança e (podemos dizer) esta certeza de o ver triunfar quando chegar a hora; se até hoje transparecia em cada artigo, em cada sílaba do nosso jornal, queremos que a partir de agora ele o traga nitidamente esculpido no alto e revele à primeira vista as convicções e intenções dos seus escritores». Em seguida, explicam o sentido do lema duplo que escolheram: unicuique suum e non praevalebunt , que juntos, a seu parecer, oferecem um nexo lógico e moral.

«A cada um o seu» é explicado com a relação ilegítima e injusta estabelecida pela revolução contra o Papa e a Igreja que, com a violência do Estado italiano, sofreram um verdadeiro furto. Enquanto o mandamento de Deus, justiça eterna, prescreve que não se roube. «Pois bem — realçavam — se a bandeira da revolução é o furto, a nossa deve exprimir a ideia contrária. Nós proclamamos a reverência aos direitos, o obséquio às autoridades, a obediência às leis, a manutenção da ordem, o respeito pela propriedade. Nós inscrevemos no nosso emblema o símbolo de uma lei essencialmente repugnante à lei da revolução, o unicuique suum». Visão defendida por uma rara força polémica, a ponto que o editorial acrescentava: «Deste modo o campo é indistinto; nenhuma aliança, nenhum consórcio é possível entre as duas partes, nem uma pode vencer sem o completo extermínio da sua inimiga. Portanto, a quem está destinado o triunfo?».

A história, considerada sob o ponto de vista de Deus e das leis imutáveis que a governam, não deixa dúvida. A justiça de Deus prevalecerá. Segundo o juízo dos escritores, a intenção suprema da revolução em acto naquela época na Itália era a destruição da Igreja católica. «Tudo — lê-se — sugere esta intenção. A usurpação dos Estados eclesiásticos, o sequestro dos bens religiosos, a invasão dos poderes espirituais, pretendendo que a hierarquia da Igreja se submetesse aos sinais da violência, e adorasse a divindade da força; os bispos, aprisionados ou deportados, a lei da suspeita, os claustros transformados em prisão perpétua, os religiosos dispersos, o confessionário espreitado, os próprios sacramentos tornados objecto de requisitórias fiscais e de condenações sacrílegas. Pois bem, a que ponto chegámos? O Pontífice ainda está sentado no trono: a sua voz augusta ressoa com a mesma força, com a mesma autoridade, e podemos dizer que os saques dos quais foi vítima infundiram no seu eterno non possumus uma força mais sublime, mais poderosa e formidável! Ah, as promessas de Deus não se perdem! Mudam os céus e passam as gerações, mas a sua palavra é eterna como os seus lábios! Portae inferi non praevalebunt e dezanove séculos abrem-se diante de nós para testemunhar a verdade e tornar-se garantia para as gerações futuras». Eis o sentido daquelas palavras talvez misteriosas, non praevalebunt . E daquele mesmo modo a Igreja, com as suas leis imortais, cria a sociedade cristã, santifica as coroas dos Monarcas, protege os direitos verdadeiros dos povos, conserva a dignidade e a independência real das nações; assim o seu triunfo restituirá a ordem política à Itália, a reorganização civil e a quantidade daqueles bens humanos e transitórios, que não se perdem enquanto nos restar uma centelha de fé».

Nestas palavras estão delineadas dores e convicções que permaneceram património sólido de grande parte do mundo católico até aos anos do Concílio Vaticano II. Mas se uma visão semelhante sob um ponto de vista civil e religioso hoje parece filha do seu tempo, não se pode — contextualizando-a — deixar de partilhar o substrato religioso que olha para o futuro a partir da história da perspectiva de Deus, em cujas mãos estão os destinos últimos dos acontecimentos. O optimismo no futuro, não obstante as dificuldades políticas do presente, às vezes humanamente intransponíveis, caracteriza também a reflexão do primeiro jornal de Janeiro de 1863.

Uma leitura satisfatória do isolamento crescente do Governo italiano na Europa incrementa a confiança do editorial, que conclui: «Portanto, saudemos o ano novo cheio de esperanças e bênçãos. Saudemo-lo como a aurora serena depois de uma noite tempestuosa e tomemos coragem. Deus está connosco! Era tempo que também nós erguêssemos a cabeça; era tempo que o inocente e perseguido Pio IX começasse a ver de longe os esplendores daquela glória, que a sua firmeza e as suas virtudes imortais lhe preparam também na terra, como salvador da Itália e pacificador do mundo!».

O ano de 1864 foi relevante na história da Igreja de Pio IX. De facto, alcançou a maturidade o longo processo de confronto entre a Igreja e as culturas materialistas preponderantes que se tinham afirmado no tempo: panteísmo, naturalismo, racionalismo absoluto e moderado, indiferentismo, latitudinarismo, socialismo, comunismo, sociedades clandestinas, bíblicas e clérico-liberais. Todas visões do mundo que encontraram uma condenação total na encíclica Quanta cura e no seu anexo conhecido com o célebre nome de Syllabus, assinados pelo Papa e publicados a 8 de Dezembro de 1864. Uma longuíssima lista de erros ao redor da ética natural e cristã, do matrimónio, do principado civil do Romano Pontífice e do liberalismo.

«L’Osservatore Romano» foi o primeiro a divulgar o texto da encíclica no dia 22 de Dezembro sucessivo. Tinham passado três semanas, mas naquela época parecia contudo um recorde de celeridade. Entre um texto e o outro assinados pelo «nosso santíssimo senhor Papa Pio IX», «L’Osservatore» dava voz a um importante editorial com o título Assurdità storiche-politiche dell’unità d’Italia. Partindo do ponto de vista de Roma e da população ao lado do Pontífice, o jornal afirmava que todos sentiam a Itália como um absurdo político, designada de modo a manter o Papa limitado só à cidade de Roma. Os autores do editorial vêem com favor sinais que parecem prometer a volta da Itália a uma condição pré-unitária.

Esperança que toma corpo também no primeiro editorial para saudar o ano novo de 1864, que permaneceu intacta por todo o ano de 1865 e confluiu no primeiro número de Janeiro de 1866, última leitura previsional escrita pelos dois directores fundadores que no final do mês teriam passado a direcção ao sucessor Baviera.

A guerra da revolução contra a Igreja, lê-se no jornal de 2 de Janeiro de 1866, «desde há anos ferve de modo especial na Itália, onde o Sumo Pontífice tem a sua sede. A revolução italiana utilizou todas as suas forças contra a Igreja e o papado: ela assumiu uma veste política; mas já não há quem não veja que a guerra é movida contra o papado temporal para depois abater o espiritual. E nesta guerra a revolução italiana apelou aos príncipes locais e estrangeiros, ministros, diplomatas, banqueiros e homens de espada. Todos contra a Igreja: de modo que se deveria temê-la. Mas o temor seria uma culpa: porque ela pode ser combatida mas não vencida. S0frem-se defecções por um lado, adquirem-se novos seguidores pelo outro. Os homens de pouca fé podem alarmar-se, como os apóstolos, quando Cristo dormia na barca do lago de Genezaré durante a grande tempestade: mas o sono de Cristo é uma aparência. A divina providência não consiste em fazer as coisas prontamente, mas em fazê-las com o tempo; a nós os seus desígnios são ocultos, contudo sabemos que a Igreja deve triunfar nesta luta. Não indaguemos curiosamente, disseram nos dias passados ao Senado apostólico lábios veneráveis, não indaguemos como e quando terá lugar este triunfo final. Não nos é concedido procurar como e quando: não nos devemos afligir se não o vimos no ano que findou; também se não o vemos neste que começou ontem. Adoremos os desígnios imperscrutáveis de Deus e, da nossa parte, utilizemos todos os meios para apressar o dia deste triunfo certo. Se a nossa pobre pena servir para dissipar alguma ilusão, descobrir alguma insídia do inimigo, trazer de volta um desviado, apoiar um débil, levantar um decaído, destruir um erro e honrar a verdade e a justiça, ficaremos muito felizes, porque o nosso empenho não foi inútil. A revolução terá o seu fim: causará muitos outros danos, mas a Igreja será sempre forte e invencível e triunfará, porque é mãe amorosa, estenderá a mão a quem a perseguiu».

Este editorial é o último de grande respiro escrito por Zanchini e Bastia com o título I trionfi della Chiesa. Assinala a passagem de uma visão quase unicamente polémica e temporalista da questão romana e das angústias da Igreja para uma visão preponderante de fé: a Igreja tem uma missão espiritual de bem e Deus nunca a abandonará.

Este sentimento é singular e antecipador, se se pensar que naquele tempo poucos tinham esta convicção. Entre eles estava um santo como dom Bosco, forte defensor do magistério de Pio IX e moderníssimo ao preferir uma relação pragmática — salvaguardando os princípios — entre Estado e Igreja para o bem do povo.

Ele, que era também um sonhador, teve um sonho misterioso no qual uma barca, guiada por um homem vestido de branco, que se encontrava no meio de uma tempestade violentíssima, era atacada por adversários de todos os lados. O homem vestido de branco, também atingido, cai mas ergue-se e, no entanto, a barca consegue entrar no porto delimitado dos dois lados por duas colunas sobre as quais estão colocadas a hóstia e Nossa Senhora. No céu aparece um arco-íris e a barca entra no porto pacífico e seguro.

Nos cinco anos de direcção, considerando dia por dia os eventos, Zanchini tinha amadurecido uma visão semelhante da fé, a única que pode apoiar-nos nas dificuldades inevitáveis da vida.

A história deu razão a esta visão de fé, a mesma que Manzoni defendia. Todos se recordam das preocupações que atormentavam a jovem Lúcia no I promessi sposi quando no pranto reprimido, estando dentro de uma barca no lago, partindo da sua terra, obrigada pela força e violência de uma pessoa brutal a refugiar-se em Milão. Ao adeus aos montes da sua infância, une a convicção de que «Deus nunca perturba a alegria dos seus filhos senão para lhes preparar outra, mais certa e maior».

O primeiro grande homem de Igreja que publicamente, cem anos depois do nascimento de «L’Osservatore Romano», falou de desígnio providencial para a Igreja no desaparecimento do Estado pontifício, foi o cardeal Giovanni Battista Montini, futuro Paulo VI. Mas era a época do Concílio Vaticano II. O espírito reformador deste grandíssimo Concílio que nós, católicos, nunca estudaremos e viveremos suficientemente, marcou a comemoração dos 140 anos da tomada da Porta Pia.

Pela primeira vez, ao contrário de celebrar uma missa fúnebre, como era o costume da resídua nobreza romana em memória da perda do poder temporal, um cardeal secretário de Estado, na presença do presidente da República italiana, voltou a falar sobre o desígnio providencial para a Igreja e a Itália.

Os quatro critérios a pôr em prática que Bento XVI indicou ao nosso jornal, visto por ele como uma oficina criativa (direito natural, Evangelho, justiça e esperança que vem da fé), hoje seriam subscritos também por Nicola Zanchini.

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18 de Novembro de 2019

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