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O poder dos sinais

· Uma antologia de homilias de Joseph Ratzinger e de Bento XVI ·

Do livro editado pelo padre Leonardo Sapienza, Il potere dei segni (Cidade do Vaticano, Libreria Editrice Vaticana, 2011, 299 páginas) para a comemoração do sexagésimo aniversário da ordenação sacerdotal do Santo Padre, que reúne homilias pronunciadas por Joseph Ratzinger e Bento XVI entre 1978 e 2011, publicamos excertos do prefácio, escrito pelo cardeal presidente do Pontifício Conselho para a Cultura.

No âmbito litúrgico os sinais adquirem um poder de significado específico. Portanto, o título que foi dado a esta colectânea, Il potere dei segni, é patente. É muito conhecida a locução «os sinais do poder»: pois bem — como afirmava um personagem de espiritualidade profunda, D. Tonino Bello (1935-1993), que foi bispo de Molfetta, Giovinazzo e Terlizzi de 1982 até à morte — «dos sinais do poder nós devemos passar para o poder dos sinais», porque «já não temos os sinais do poder mas permaneceu o poder dos sinais». Quase como dizia são Pedro ao coxo da Porta Formosa do templo de Jerusalém: «Não tenho ouro nem prata, mas vou dar-te o que tenho: em nome de Jesus Cristo Nazareno, levanta-te e anda!» ( Act 3, 6).

O Papa Bento XVI recorda que o «poder do sacerdote é o do perdão», que vence o poder do mal. É sugestivo o episódio bélico narrado por ele, do pedido de confissão de um religioso não católico dirigido a um sacerdote: «Não quero ser confortado mas absolvido». Certamente, também o presbítero sente o fascínio dos sinais do poder e o Pontífice evoca a tentação subtil de «quem quer realizar sobretudo uma ambição própria, alcançar o sucesso, permanecendo sempre escravo de si mesmo e da opinião pública. Para ser considerado, deve adular; dizer o que as pessoas apreciam; adaptar-se às mudanças das modas e das opiniões». Não é esta a verdadeira «potestas sacra que o sacramento da Ordem confere aos presbíteros». Não é com a prata e o ouro ou com o sucesso social que se cumpre a missão de salvação.

Eis então nas palavras do Papa uma longa leitura interpretativa dos vários sinais que regem a liturgia, irradiando-a com a inteligibilidade e substanciando-a com a sua eficácia. Desta verdadeira gramática dos sinais sacramentais que se entrelaça nas páginas que se seguem, gostaríamos de extrair agora uma sequência essencial. Ela compõe-se de um pentagrama ideal e simbólico que depois será apresentado pelas várias homilias em todas as suas iridescências temáticas. Iniciamos com o «gesto antiquíssimo da imposição das mãos». Esta parte fundamental do organismo humano é sinal da nossa capacidade de agir, doar e comunicar. Também o cânone eucarístico evoca as «mãos santas e veneráveis» de Cristo. Portanto — afirma Bento XVI — com a imposição das mãos sobre o sacerdote «Deus toma posse de mim, dizendo-me: tu pertences-me. Tu estás sob a protecção das minhas mãos... Tu estás guardado na palma das minhas mãos e exactamente assim encontras-te na vastidão do meu amor. Permanece no espaço das minhas mãos e dá-me as tuas».

E continua: «A imposição das mãos exprime abertamente a modalidade do encontro entre a liberdade de Deus, realizado mediante o Espírito Santo, e a liberdade do homem: a Igreja, personificada pelo bispo em pé com as mãos estendidas, pede ao Espírito Santo que consagre o candidato; este, de joelhos, recebe a imposição das mãos e entrega-se a tal mediação».

E assim, como que por contraste, chegamos ao segundo símbolo, o dos pés que está ligado a um acto de grande intensidade comunicativa, o lava-pés que Cristo realiza aos seus discípulos na última noite da sua vida terrena. O comentário do Santo Padre é iluminador: «Jesus depõe as vestes da sua glória divina e cobre-se com as vestes do escravo... Ajoelha-se diante de nós e presta-nos o serviço do escravo; lava os nossos pés sujos, a fim de que nos tornemos admissíveis à mesa de Deus, para que sejamos dignos de tomar um lugar à sua mesa». A aplicação estende-se inclusive à dimensão moral: «Dia após dia é como se nos cobríssemos de impureza multiforme, de palavras vazias, de preconceitos, de sabedoria reduzida e alterada. Tudo isto ofusca e contamina a nossa alma, ameaça-nos com a incapacidade para a verdade e o bem».

As vestes sacerdotais são o terceiro sinal, aliás amplamente evocado pela tradição bíblica. Cristo despojou-se do privilégio da sua condição divina para assumir o estado de servo (cf. Fl 2, 6-7), de modo que «todos os que fostes baptizados em Cristo, vos revestites de Cristo» ( Gl 3, 27). No símbolo das vestes Bento XVI entrevê a inteira parábola da encarnação e da redenção: «Cristo usou as nossas vestes: a dor e a alegria de ser homem, a fome, a sede, o cansaço, as esperanças e as desilusões, o medo da morte, todas as nossas angústias até à morte. E ofereceu-nos as suas vestes».

O quarto sinal é o óleo, na tríplice tipologia litúrgica de óleo dos catecúmenos, de crisma e da unção dos enfermos. Quatro sacramentos confiam-se a este sinal: o baptismo, a crisma, a unção dos enfermos e a ordem. Tríplice é também a variedade dos valores simbólicos: a paz (a oliveira), a fortaleza (os atletas), a alegria ( Sl 45, 8). Contudo, o óleo é sobretudo emblema de consagração, isto é, de destino radical da criatura a Deus, pois na verdade o hebraico «Messias» e o grego «Cristo» significam justamente «Consagrado». É por isso que «ser consagrado» é sinónimo de «ser sacrificado», isto é tornar-se sagrado através de uma doação total como a de Jesus, que na célebre «oração sacerdotal» afirma: «Eu consagro-me por eles, para eles serem também consagrados na verdade» ( Jo 17, 19). E a «verdade», na linguagem joanina, é a Palavra de Cristo na qual o discípulo se imerge «consagrando-se» em plenitude.

É desta maneira que entra em cena o quinto e último sinal, fundamental na liturgia e na vida cristã e sacerdotal: o pão e o vinho da Eucaristia. Não por acaso uma das colunas ideais de sustentação da Igreja-mãe de Jerusalém, segundo Lucas, é exactamente o ser «assíduo na fracção do pão» ( Act 2, 42), porque «a Igreja vive da Eucaristia».

No grande espaço reservado por Bento XVI à Eucaristia gostaríamos de evidenciar também uma subtil aplicação existencial e espiritual, ligada ao sinal do vinho: «Para que possa amadurecer a uva boa, é preciso o sol mas também a chuva, o dia e a noite. Para que um vinho de qualidade amadureça as uvas devem ser pisadas, é necessária a paciência da fermentação, do cuidado atento que serve aos processos de maturação. É característica do vinho de qualidade não só a doçura mas também a riqueza dos matizes, o aroma variado que se desenvolveu nos processos de maturação e de fermentação. Porventura, esta já não é uma imagem da vida humana e, de modo totalmente particular, da nossa vida de sacerdotes? Temos necessidade do sol e da chuva, da serenidade e da dificuldade, das fases de purificação e de provação assim como dos tempos do caminho jubiloso com o Evangelho. Ao olhar para trás podemos dar graças a Deus por ambas as situações: as dificuldades e as alegrias, as horas escuras e as felizes».

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16 de Setembro de 2019

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