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O Papa e o mistério da lua

Inicia o quinto ano de pontificado de Bento xvi, eleito com uma rapidez quase sem precedentes pelo conclave mais numeroso que jamais se reuniu. E contudo o novo Papa não celebrou a sua eleição com tons triunfais, e na homilia da missa inaugural do seu serviço como Bispo de Roma  pronunciou uma frase surpreendente: «Rezai por mim, para que eu não fuja, por receio, diante dos lobos». Uma imagem forte, cujo significado se compreende sobretudo nestes últimos meses atormentados.

Conhecedor da tradição, o Pontífice sabe que as vicissitudes da Igreja neste mundo são como as fases alternadas da lua, que continuamente cresce e decresce, cujo esplendor depende da luz do sol, ou seja, de Cristo. Assim, o mistério da lua descrito pelos antigos autores cristãos é o da Igreja, muitas vezes perseguida, com frequência obscurecida pela sujidade por causa dos pecados de muitos dos seus filhos – como Joseph Ratzinger denunciou pouco antes da sua eleição – mas que cresce sempre de novo, iluminada pelo seu Senhor.

Levar e mostrar a luz de Cristo à obscuridade do mundo – como fez várias vezes  o Bispo de Roma no escuro inicial da vigília pascal, com um gesto repetido em todos os recantos da terra – é a tarefa essencial do Papa. Consciente de que em muitos Países, também nos de longa tradição cristã,  esta luz corre o risco de se apagar, como escreveu na última carta aos bispos. Confirmando, com tonalidades de dolorosa admiração perante o falseamento dos factos, as prioridades menosprezadas do seu pontificado.

Antes de tudo, o testemunho e o anúncio de que Deus não está distante de cada pessoa humana e que é verdadeiramente, como repetem incessantemente as liturgias orientais, amigo dos homens. Por isso Bento xvi pede para não excluir o transcendente do horizonte da história, por isso pede com a mesma confiança dos seus predecessores para não se fechar pelo menos à possibilidade, razoável, de Deus.  Que não é um deus qualquer ou, pior, um ídolo – em sociedades materialistas nas quais a idolatria é semelhante à da antiguidade – mas o Deus que se revelou a Moisés, isto é, a Palavra que se fez carne em Jesus.

Para falar de Deus, Bento xvi celebra-o na liturgia e explica-o como poucos bispos de Roma souberam fazer, solícito da paz na Igreja que deseja restabelecer, como fez – com uma oferta de misericórdia e de reconciliação que está em perfeita continuidade com o Vaticano ii – em relação aos bispos lefebvrianos. Por isso o Papa deseja progredir no caminho ecuménico, por isso confirmou a vontade de amizade e de busca religiosa comum com o povo judaico, por isso acelera o confronto com as outras grandes religiões, com a atenção dirigida sobretudo às raízes culturais; de forma que este confronto dê frutos reais sobre temas concretos, do  respeito  da  liberdade  religiosa ao  da  dignidade  da  pessoa humana, como acontece agora com os muçulmanos.

Então fere que este proceder límpido seja ignorado e se continue a representar, sobretudo nalguns Países europeus, Bento xvi e os católicos em chave negativa e hostil. Como aconteceu com o obscurecimento da viagem em África e com o silêncio mediático face às homilias pascais. Mas o Papa não tem medo dos lobos. E não está sozinho porque é apoiado pelas orações da Igreja. Que, como a lua,  sempre tira a sua luz do sol.

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16 de Outubro de 2019

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