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O Papa das surpresas

· Cinco anos de pontificado segundo o olhar do secretário particular ·

Estilo e coragem de um homem que fala de Deus

O vigésimo sétimo Prémio «Capri San Michele per la Sezione Immagini Verità» — atribuído à obra Benedetto XVI urbi et orbi. Con il Papa a Roma e per le vie del mondo (Cidade do Vaticano, Libreria Editrice Vaticana, 2010), preparada pelo secretário particular do Sumo Pontífice — foi entregue na parte da tarde de 25 de Setembro em Anacapri (Itália). Publicamos a intervenção de mons. Gänswein.


Um lustrum é muito, um lustrum não é muito; um arco de tempo de cinco anos é amplo, um arco de tempo de cinco anos não é muito amplo. Sobre esta questão pode-se debater prolongadamente e encontrar argumentos a favor e contra. No passado dia 19 de Abril de 2010 completaram-se cinco anos desde que o cardeal Joseph Ratzinger foi eleito Papa, com o nome de Bento XVI. O quinto aniversário da sua eleição foi a ocasião concreta para a presente publicação. Contudo, a razão mais profunda está no convite a seguir os passos do Santo Padre na sua sede episcopal de Roma ( urbi ), nas suas viagens apostólicas na Itália e nos diversos países e continentes da terra ( orbi ), e em encontrar nisto a mensagem por detrás dos discursos, das homilias, das cartas e das catequeses. É nesta perspectiva que o tempo mundano, chrónos , pode e deve tornar-se para todos nós um chairós , o tempo da graça. E então, o debate a propósito do valor temporal deste quinquénio abre-se a uma dimensão totalmente diferente, que sai fora da lógica de um cálculo matemático.

Quem estava presente pessoalmente na praça de São Pedro, ou diante de um televisor, no momento em que a fumaça branca da chaminé da Capela Sistina anunciava ao mundo o novo Papa, jamais esquecerá a comoção e a emoção quando o Sumo Pontífice, recém-eleito, do Balcão das Bênçãos dirigiu aos fiéis estas inesquecíveis palavras improvisadas: «Queridos irmãos e irmãs, depois do grande Papa João Paulo II, os Senhores Cardeais escolheram-me a mim, um simples e humilde trabalhador na vinha do Senhor. Consola-me o facto de que o Senhor sabe trabalhar e agir também com instrumentos insuficientes e sobretudo confio-me às vossas orações. Na alegria do Senhor ressuscitado, confiantes na sua ajuda permanente, vamos em frente. O Senhor ajudar-nos-á e Maria, sua Santíssima Mãe, está ao nosso lado. Obrigado!».

Em todos os recantos da terra, a água é sempre a mesma: é sempre a idêntica composição de hidrogénio e oxigénio. E no entanto, a água em toda a parte é diferente. Porquê? Porque ela adquire cada vez características singulares, em relação ao terreno que a filtra. Assim acontece com os Papas. Eles desempenham a mesma missão e respondem ao mesmo chamamento de Jesus; no entanto, cada um deles responde com a própria personalidade e com a sua sensibilidade irrepetível.

Tudo isto é maravilhosamente bonito: é um sinal da unidade na diversidade; trata-se de um milagre de novidade na continuidade; é uma manifestação suprema daquilo que acontece em todo o corpo da santa Igreja de Cristo, onde a novidade e a continuidade convivem e se harmonizam incessantemente. O Papa Bento XVI não é igual a João Paulo II, Deo gratias : Deus não ama a repetição nem as fotocópias. E João Paulo II não era igual a João Paulo i, Deo gratias , assim como João Paulo i não era igual a Paulo VI, Deo gratias , e Paulo VI não era igual a João XXIII, Deo gratias . E no entanto, todos amaram Cristo de maneira apaixonada e serviram fielmente a sua Igreja: Deo gratias quam maximas !

Porém — eis o facto verdadeiramente singular e edificante — o Papa Bento XVI apresentou-se ao mundo como o primeiro devoto do seu predecessor; é um gesto de grande humildade, que surpreende e suscita uma admiração comovida. No dia 20 de Abril de 2005, falando aos Cardeais na Capela Sistina, um dia depois da eleição ao supremo pontificado, Bento XVI assim se expressou: «Convivem no meu coração nestas horas dois sentimentos contrastantes. Por um lado, um sentido de inaptidão e de humana perturbação pela responsabilidade (...). Por outro lado, sinto viva em mim uma profunda gratidão a Deus que, como nos faz cantar a liturgia, não abandona o seu rebanho, mas o orienta através dos tempos, sob a guia de quantos Ele mesmo elegeu vigários do seu Filho e constituiu pastores. Caríssimos, este reconhecimento íntimo por um dom da divina misericórdia prevalece apesar de tudo no meu coração. E considero este facto uma graça especial que me foi obtida pelo meu venerado Predecessor, João Paulo II. Tenho a impressão de sentir a sua mão forte que estreita a minha; parece que vejo os seus olhos sorridentes e que ouço as suas palavras, dirigidas neste momento particularmente a mim: “Não tenhas medo!”».

Como são sinceras estas palavras e, ao mesmo tempo, perfumadas de humildade! É verdadeiramente maravilhoso o facto de que um Papa atribua à intercessão do seu próprio predecessor a primeira dádiva do seu pontificado: a paz do coração no meio da tempestade inesperada das emoções. O Papa Bento XVI deu à Igreja e ao mundo uma extraordinária lição de estilo pastoral: quem começa um serviço eclesial — esta é a sua lição — não deve apagar os vestígios daquele que trabalhou precedentemente, mas tem o dever de pôr com humildade os seus pés nas pegadas de quem caminhou e trabalhou antes dele. Se acontecesse sempre assim, seria salvaguardado um grande património de bem, que ao contrário muitas vezes é demolido e delapidado. O Papa recolheu esta herança e continua a elaborá-la segundo o seu estilo manso e reservado, com as suas palavras pacatas e profundas, com os seus gestos comedidos mas incisivos.

No discurso com que inaugurou o seu ministério petrino, no dia 24 de Abril de 2005, o Papa Bento XVI recorreu a expressões muito claras: «O meu verdadeiro programa de governo — disse o Pontífice — não é fazer a minha vontade, não perseguir ideias minhas, pondo-me contudo à escuta, com a Igreja inteira, da palavra e da vontade do Senhor e deixar-me guiar por Ele, de forma que seja Ele mesmo quem guia a Igreja nesta hora da nossa história». Transcorreram cinco anos a partir daquele dia. Sem dúvida, para um pontificado não se trata de um período longo, mas de um lapso de tempo suficiente para traçar um primeiro balanço. Pelo que luta Bento XVI? Que mensagem quer ele transmitir aos homens, em Roma e no mundo? O que o move e o que conseguiu ele mesmo mudar?

Antes de tudo, é necessário ressaltar como este Papa nos surpreendeu a todos: em primeiro lugar pela suavidade com que assumiu a tarefa do seu predecessor João Paulo II, interpretando-a de maneira nova e todavia igualmente cheia de vida. João Paulo II foi o Pontífice das grandes imagens, do poder imediatamente evocativo; Bento XVI é o Papa da palavra, da força da palavra: é um teólogo, mais do que um homem de grandes gestos, um homem que «fala» de Deus.

Do mesmo modo, surpreendeu-nos o modo como o ex-prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, com a sua intensidade e simplicidade tão espontânea e verdadeira, consegue sem qualquer esforço conquistar o coração dos homens. Foi inesperada também a coragem, que marca claramente o pontificado do Papa alemão. Bento XVI não teme confrontos nem debates. Chama por nome as insuficiências e os erros do Ocidente e critica aquela violência que pretende ter uma justificação religiosa. Nunca deixa de nos recordar que se rejeita Deus com o relativismo e com o hedonismo assim como com a imposição da religião através da ameaça e da violência. No centro do pensamento do Papa encontra-se o problema da relação entre fé e razão; entre religião e renúncia à violência.

A partir da sua perspectiva, a reevangelização da Europa e do mundo inteiro só será possível quando os homens compreenderem que fé e razão não estão em contraste entre si, mas em relação recíproca. Uma fé que não se mede segundo a razão torna-se ela mesma irracional e desprovida de sentido. E, pelo contrário, um conceito da razão que reconhece unicamente aquilo que se pode medir não é suficiente para compreender a realidade inteira. A razão deve deixar espaço à fé, enquanto a fé deve dar testemunho da razão, para que ambas não se diminuam mutuamente no horizonte limitado da própria ontologia. No fundo, ao Papa interessa reafirmar o núcleo da fé cristã: o amor de Deus pelo homem, que encontra uma expressão insuperável na morte de Jesus na cruz e na sua ressurreição. Este amor constitui o fulcro imutável sobre o qual se fundamenta a confiança cristã no mundo, mas também o compromisso a favor da misericórdia, da caridade e da renúncia à violência. Não é por acaso que a primeira encíclica de Bento XVI se intitula Deus caritas est , «Deus é amor». Trata-se de um sinal evidente; além disso, é uma frase programática do seu pontificado. Bento XVI deseja fazer resplandecer o fascinosum da mensagem cristã. É isto que, mais do que qualquer outra coisa, caracteriza o pontificado do Papa teólogo. Segundo a sua perspectiva, é aqui que se encontra a força e também a possibilidade de um futuro para a fé. A mensagem do Sucessor de Pedro é tão simples quão profunda: a fé não é um problema que deve ser resolvido, mas sim um dom que é preciso descobrir novamente, dia após dia. A fé confere alegria e plenitude.

Todavia, a fé tem um Rosto humano — Jesus Cristo. Nele, o Deus escondido tornou-se visível, tangível. Na sua grandeza incomensurável, Deus oferece-se a nós no seu Filho. O Santo Padre faz questão de anunciar o Deus que se fez carne, urbi et orbi , para pequenos e grandes, para quem tem poder e para quem não o tem, dentro e fora da Igreja, quer se queira quer não. E ainda que todos os olhos e as telecâmaras estejam orientadas para o Papa, não se trata tanto dele mesmo. O Santo Padre não se põe no centro a si mesmo, não se anuncia a si próprio, mas Jesus Cristo, o único Redentor do mundo. Quem vive em paz com Deus, quem se deixa reconciliar com Ele, encontra também a paz consigo mesmo, com o próximo e com a criação que o circunda. A fé ajuda a viver, a fé confere alegria, a fé é uma dádiva imensa: esta é a convicção mais profunda do Papa Bento. Para ele é um dever sagrado deixar vestígios que conduzam a este dom. Com palavras e imagens, o livro premiado dá testemunho disto: ele deseja ser um atestado de devoção e de carinho ao Santo Padre, além de um pequeno instrumento — também ele humilde, parcial mas evocativo com a força das imagens — de evangelização e de documentação de um testemunho que se manifesta «em toda a Judeia e em Samaria, até aos extremos confins da terra» ( Act 1, 6).

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7 de Dezembro de 2019

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