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O Papa, a Igreja  e os sinais dos tempos

· Foi publicado a 23 de Novembro o livro com a entrevista concedida por Bento XVI a Peter Seewald ·

Luz do mundo é o título com o qual acaba de ser publicado o livro com a entrevista que Bento XVI concedeu ao jornalista e escritor alemão Peter Seewald.Esta nova obra foi publicada contemporaneamente em várias línguas no passado dia 23 de Novembro, e tem como subtítulo O Papa, a Igreja e os sinais dos tempos. Nos dezoito capítulos que o compõem, reunidos em três partes — «Os sinais dos tempos», «O pontificado», «Para onde vamos» — Bento XVI respondeu às questões mais candentes do mundo de hoje. Do livro-entrevista publicamos uma nossa tradução de alguns trechos.




A alegria do cristianismo

A minha vida inteira foi sempre atravessada por um fio condutor, que é este: o cristianismo dá alegria, amplia os horizontes. Em última análise, uma existência vivida sempre e unicamente «contra» seria insuportável.

Um mendigo

No que se refere ao Papa, também ele é um pobre mendigo diante de Deus, e ainda mais do que os outros homens. Naturalmente, rogo em primeiro lugar sempre ao Senhor a quem estou unido, por assim dizer, por uma antiga amizade. Mas invoco também os Santos. Sou muito amigo de Agostinho, de Boaventura e de Tomás de Aquino. E digo-lhes: «Ajudai-me»! A Mãe de Deus também é, sempre de qualquer forma, um grande ponto de referência. Neste sentido, insiro-me na Comunhão dos Santos. Juntamente com eles, revigorado por eles, falo depois inclusive com o Deus bom, sobretudo mendigando, mas também agradecendo; ou simplesmente contente.

As dificuldades

Eu tinha considerado também isto. Mas antes de tudo seria necessário ser muito cauto na avaliação de um Papa, se é significativo ou não, quando ainda está vivo. Só num segundo momento é possível reconhecer que lugar, no conjunto da história, ocupa uma determinada situação ou pessoa. Mas que a atmosfera não teria sido sempre jubilosa era evidente em consideração da actual constelação mundial, com todas as forças de destruição que existem, com todas as contradições que nela subsistem, com todas as ameaças e com todos os erros. Se eu tivesse continuado a receber unicamente consensos, deveria interrogar-me se verdadeiramente estava a anunciar o Evangelho inteiro.

O choque dos abusos

Estes acontecimentos não me surpreenderam totalmente. Quando estava na Congregação para a Doutrina da Fé, ocupei-me dos casos americanos; vi também agravar-se a situação na Irlanda. No entanto, as dimensões constituíram de qualquer modo um choque enorme. Desde a minha eleição ao Sólio de Pedro, encontrei-me reiteradamente com as vítimas de abusos sexuais. Há três anos e meio, no mês de Outubro de 2006, num discurso aos bispos irlandeses, pedi-lhes que «estabelecessem a verdade acerca daquilo que tinha acontecido no passado, tomassem todas as medidas aptas para evitar que se venha a repetir no futuro, assegurassem que os princípios de justiça fossem plenamente respeitados e, sobretudo, curassem as vítimas e todos aqueles que foram atingidos por estes crimes abnormes».

Ver o sacerdócio, repentinamente, manchado deste modo, e com isto também a própria Igreja católica, foi difícil de suportar. Contudo, naquele momento era importante não distrair o olhar do facto que existe o bem na Igreja, e não apenas estas situações terríveis.

Os mass media e os abusos

Tornou-se evidente que a atitude dos meios de comunicação não era orientada unicamente pela pura busca da verdade, mas que havia também uma satisfação de ridicularizar a Igreja e, se possível, desacreditá-la. E todavia, era necessário que uma coisa fosse clara: enquanto se tratar de esclarecer a verdade, devemos estar gratos. A verdade, unida ao amor entendido correctamente, é o valor número um. E além disso, os meios de comunicação não teriam podido divulgar tais esclarecimentos, se na própria Igreja não se tivesse verificado o mal. Só porque o mal estava no seio da Igreja, os outros puderam dirigi-lo contra ela mesma.

O progresso

Sobressai a problemática do termo «progresso». A modernidade procurou o próprio caminho, orientada pela ideia de progresso e de liberdade. Mas o que é o progresso? Hoje vemos que o progresso pode ser também destruidor. Por isso, temos que meditar sobre os critérios a seguir, a fim de que o progresso seja verdadeiramente progresso.

Um exame de consciência

Para além dos planos financeiros considerados de modo individual, é absolutamente inevitavel proceder a um exame de consciência global. E para isto a Igreja procurou contribuir mediante a Encíclica Caritas in veritate. Ela não oferece respostas a todos os problemas, mas quer ser um passo em frente para olhar as situações a partir de um ponto de vista diferente, que não seja unicamente da viabilidade e do sucesso, mas do ponto de vista segundo o qual existe uma normatividade do amor ao próximo, que se orienta segundo a vontade de Deus e não apenas segundo os nossos desejos. Neste sentido deveriam ser dados impulsos para que realmente se verifique uma transformação das consciências.

A verdadeira intolerância

A verdadeira ameaça diante da qual nos encontramos é o facto de que a tolerância seja abolida em nome da própria tolerância. Existe o perigo de que a razão, a chamada razão ocidental, afirme que finalmente reconheceu o que é justo e, deste modo, reivindique uma pretensão de totalidade que é inimiga da liberdade. Na minha opinião, é necessário denunciar vigorosamente esta ameaça. Ninguém é obrigado a ser cristão. Mas ninguém deve ser obrigado a viver segundo a «nova religião», como se fosse a única e verdadeira, vinculante para toda a humanidade.

Mesquitas e burca

Os cristãos são tolerantes e, enquanto tais, permitem também aos outros a sua peculiar compreensão de si mesmos. Alegramo-nos pelo facto de que nos países do Golfo árabe (Qatar, Abu Dhabi, Dubai, Quwait) existem igrejas em que os cristãos podem celebrar a Missa, e esperamos que assim aconteça em toda a parte. Por isso, é natural que também entre nós os muçulmanos possam reunir-se em oração nas mesquitas.

No que se refere à burca, não vejo motivo para uma proibição generalizada. Afirma-se que algumas mulheres não a coloquem voluntariamente, mas que na realidade há uma espécie de violência que lhes é imposta. É claro que com isto não se pode estar de acordo. Contudo, se elas quisessem pô-la voluntariamente, não vejo por que motivo lhes deveria ser impedido.

Cristianismo e modernidade

O ser cristão é ele mesmo algo vivo, moderno que atravessa, formando-a e plasmando-a, toda a minha modernidade, e que por conseguinte num certo sentido a abarca verdadeiramente.

Aqui é necessária uma grande luta espiritual, como eu quis demonstrar com a recente instituição de um «Pontifício Conselho para a Nova Evangelização». É importante que procuremos viver e pensar o Cristianismo de tal modo que ele assuma a modernidade boa e justa e portanto, ao mesmo tempo, que se afaste e se diferencie daquela que se está a tornar uma contra-religião.

Optimismo

Poder-se-ia considerá-lo, olhando com superficialidade e limitando o horizonte ao mundo ocidental. Mas se observarmos com mais atenção — e é isto que me é possível fazer, graças às visitas dos bispos do mundo inteiro, e também aos outros numerosos encontros — vemos que neste momento o Cristianismo está a desenvolver também uma criatividade totalmente nova [...]

A burocracia está consumida e cansada. São iniciativas que nascem a partir de dentro, da alegria dos jovens. Talvez o Cristianismo assuma uma nova fisionomia, talvez até um aspecto cultural diferente. O Cristianismo não determina a opção pública mundial, pois outros estão à sua frente. E todavia, o Cristianismo é a força vital sem a qual também as outras situações não poderiam continuar a existir. Por isso, com base no que vejo e do que consigo fazer uma experiência pessoal, sou muito optimista em relação ao facto de que o Cristianismo se encontra diante de uma renovada dinâmica.

A droga

Muitos bispos, sobretudo os da América Latina, dizem-me que onde passa a estrada do cultivo e do comércio da droga — e isto acontece numa boa parte daqueles países — é como se um animal monstruoso e malvado se apoderasse daquele país para arruinar as pessoas. Creio que esta serpente do comércio e do consumo da droga que envolve o mundo é um poder do qual nem sempre conseguimos ter uma ideia adequada. Ela destrói os jovens, aniquila as famílias, leva à violência e ameaça o futuro de nações inteiras.

Também esta é uma terrível responsabilidade do Ocidente: tem necessidade de drogas e assim cria países que lhe fornecem aquilo que depois terminará por desgastá-los e destruí-los. Surgiu uma fome de felicidade que não consegue saciar-se com aquilo de que dispõe; e que, depois, se refugia por assim dizer no paraíso do diabo e destrói completamente o homem.

Na vinha do Senhor

Com efeito, eu tinha uma função directiva, mas não fiz nada sozinho, pois trabalhei sempre em grupo; precisamente como um dos muitos trabalhadores na vinha do Senhor que, provavelmente, fez algum trabalho preparatório mas, ao mesmo tempo, é alguém que não é feito para ser o primeiro, nem para assumir a responsabilidade de tudo. Compreendi que ao lado dos grandes Papas deve haver também pequenos Pontífices, que oferecem a sua própria contribuição. Assim, naquele momento eu disse aquilo que sentia verdadeiramente [...]

O Concílio Vaticano II ensinou-nos, justamente, que para a estrutura da Igreja a colegialidade é constitutiva; ou seja, o facto de que o Papa é o primeiro na partilha, e não um monarca absoluto que toma decisões solitárias e que realiza tudo sozinho.

O judaísmo

Sem dúvida. Devo dizer que, desde o primeiro dia dos meus estudos teológicos, me era de certa maneira clara a profunda unidade entre a Antiga e a Nova Aliança, entre as duas partes da nossa Sagrada Escritura. Eu tinha compreendido que só poderíamos ler o Novo Testamento juntamente com aquilo que o precedeu; caso contrário, não o teríamos entendido. Depois, naturalmente, quanto aconteceu no Terceiro Reich atingiu-nos como alemães, levando-nos a olhar ainda mais para o povo de Israel com humildade, vergonha e amor.

Na minha formação teológica, estas coisas entrelaçaram-se e marcaram o percurso do meu pensamento teológico. Por conseguinte, para mim era claro — e também nisto, em absoluta continuidade com João Paulo II — que no meu anúncio da fé cristã devia ser um ponto central este novo amalgamar-se, amoroso e compreensivo, de Israel e Igreja, fundamentado no respeito pelo modo de ser de cada um e pela respectiva missão [...]

De qualquer modo, nessa altura, também na antiga liturgia me parecia necessária uma mudança. Com efeito, a fórmula era tal que feria verdadeiramente os judeus e, de certo modo, não expressava de maneira positiva a grande e profunda unidade entre o Antigo e o Novo Testamento.

Por este motivo, pensei que na liturgia antiga era necessária uma modificação, de modo particular — como eu já disse — no que se refere à nossa relação com os amigos judeus. Modifiquei-a de tal modo que ela contivesse a nossa fé, ou seja, que Cristo é a salvação para todos. Que não existem dois caminhos de salvação e que, portanto, Cristo é também o Salvador dos judeus, e não só dos pagãos. Mas inclusive de tal modo que não se rezasse directamente pela conversão dos judeus em sentido missionário, mas a fim de que o Senhor apresse a hora histórica em que todos nós vivamos unidos. Por isso, os argumentos utilizados por uma série de teólogos polemicamente contra mim são arriscados e não fazem justiça àquilo que se levou a cabo.

Pio XII

Pio XII fez tudo o que lhe foi possível para salvar pessoas. Naturalmente, podemos sempre perguntar: «Por que não protestou de maneira mais explícita»? Creio que compreendeu quais teriam sido as consequências de um protesto público. Sabemos que pessoalmente sofreu muito por esta situação. Sabemos que devia falar só por si, mas era a situação que lho impedia.

Pois bem, pessoas mais razoáveis admitem que Pio XII salvou muitas vidas, mas afirmam que ele tinha ideias antiquadas acerca dos judeus, e que não estava à altura do Concílio Vaticano II. Todavia, o problema não é este. O importante é aquilo que ele levou a cabo e quanto procurou realizar, e creio que é verdadeiramente necessário reconhecer que foi um dos grandes justos e que, como nenhum outro, salvou um número tão elevado de judeus.

A sexualidade

Concentrar-se unicamente sobre o profilático quer dizer banalizar a sexualidade, e esta banalização representa precisamente a perigosa razão pela qual tantas pessoas na sexualidade não vêem mais a expressão do seu amor, mas somente uma espécie de droga, que se administram sozinhas. Por isso, também a luta contra a banalização da sexualidade faz parte do grande esforço a fim de que a sexualidade seja considerada positivamente e possa exercer o seu efeito positivo sobre o ser humano na sua totalidade.

Podem existir casos individualmente justificáveis, por exemplo quando um prostituto utiliza um profilático, e este pode ser o primeiro passo rumo a uma moralização, um primeiro gesto de responsabilidade para desenvolver de novo a consciência do facto de que nem tudo é permitido, e que não podemos fazer tudo o que queremos. Todavia, este não é o modo verdadeiro para vencer a contaminação do vih. É verdadeiramente necessária uma humanização da sexualidade.

A Igreja

Portanto, Paulo não entendia a Igreja como instituição, como organização, mas sim como organismo vivo em que todos trabalham uns pelos outros e uns com os outros, pois estão unidos a partir de Cristo. É uma imagem, mas uma imagem que conduz em profundidade e que é muito realista, mesmo que seja pelo simples facto de que nós cremos que na Eucaristia recebemos verdadeiramente Cristo, o Ressuscitado. E se cada um recebe o mesmo Cristo, então verdadeiramente todos nós estamos reunidos neste novo corpo ressuscitado como o grande espaço de uma nova humanidade. É importante compreender isto e, por conseguinte, entender a Igreja não como um aparato que deve fazer de tudo — também o aparato lhe pertence, mas até certos limites — mas sim como organismo vivo que promana do próprio Cristo.

A Humanae vitae

As perspectivas da «Humanae vitae» permanecem válidas, mas outra coisa é encontrar caminhos humanamente percorríveis. Acredito que haverá sempre minorias intimamente persuadidas da exactidão daquelas perspectivas e que, vivendo-as, se sentirão plenamente satisfeitas, a ponto de se tornarem para os outros um fascinante modelo a seguir. Somos pecadores. Todavia, não deveríamos assumir este facto como instância contra a verdade, ou seja, quando aquela moral alta não é vivida. Deveríamos procurar realizar todo o bem possível, sustentando-nos e ajudando-nos uns aos outros. Expressar tudo isto, também sob os pontos de vista pastoral, teológico e conceitual, no contexto da actual sexologia e investigação antropológica, constitui uma grande tarefa à qual é preciso dedicar-se mais e melhor.

As mulheres

A formulação de João Paulo II é muito importante: «A Igreja não tem de modo algum a faculdade de conferir a ordenação sacerdotal às mulheres». Não se trata de não querer, mas de não poder. O Senhor conferiu uma forma à Igreja com os Doze, e depois com a sua sucessão, com os bispos e os presbíteros (os sacerdotes). Não fomos nós que criamos esta forma da Igreja, mas ela é constitutiva a partir dele. Segui-la é um acto de obediência, na situação contemporânea talvez seja um dos actos de obediência mais gravosos. Mas precisamente isto é importante, que a Igreja demonstre que não é um regime do arbítrio. Não podemos fazer o que queremos. No entanto, existe uma vontade do Senhor para nós, à qual nos devemos adaptar, embora isto seja cansativo e difícil na cultura e na civilização de hoje.

Além disso, as funções confiadas às mulheres na Igreja são tão grandes e significativas, que não se pode falar de discriminação. Sê-lo-ia, se o sacerdócio fosse uma espécie de domínio, enquanto, ao contrário, deve ser completamente serviço. Se observarmos a história da Igreja, então compreendemos que o significado das mulheres — de Maria até Mónica e Madre Teresa — é tão eminente que sob muitos pontos de vista as mulheres definem a fisionomia da Igreja mais do que os homens.

Os novíssimos

Trata-se de uma questão muito séria. A nossa pregação, o nosso anúncio é eficaz e amplamente orientado, de modo unilateral, para a criação de um mundo melhor, enquanto o mundo realmente melhor quase não é mencionado. Aqui temos que fazer um exame de consciência. Sem dúvida, procura-se ir ao encontro do auditório, procura-se dizer-lhe aquilo que há no seu horizonte. Mas a nossa tarefa consiste, ao mesmo tempo, em ir além daquele horizonte, em ampliá-lo, em contemplar as últimas coisas.

Os novíssimos são como um pão duro para os homens de hoje. Parecem-lhes irreais. Gostariam que no seu lugar houvesse respostas concretas para o tempo actual, soluções para as tribulações quotidianas. Todavia, são respostas que permanecem a meio caminho, se não permitem também pressentir e reconhecer que vou além desta vida material, que existe o juízo, e que existem a graça e a eternidade. Neste sentido, temos que encontrar também palavras e modos novos, para permitir ao homem abater o muro do som do finito.

A vinda de Cristo

É importante que cada época esteja próxima do Senhor. Que também nós mesmos, aqui e agora, estejamos sob o juízo do Senhor e nos deixemos julgar pelo seu tribunal. Debatia-se acerca de uma dúplice vinda de Cristo, uma em Belém e uma no fim dos tempos, até que São Bernardo de Claraval falou de um Adventus medius, de uma vinda intermédia, através da qual Ele entra sempre, periodicamente, na história.

Julgo que ele deu a justa tonalidade. Nós não podemos estabelecer quando o mundo terminará. O próprio Cristo diz que ninguém o sabe, nem sequer o próprio Filho. Porém, temos que permanecer por assim dizer sempre próximos da sua vinda e sobretudo estar certos de que, nos sofrimentos, Ele está perto. Ao mesmo tempo, deveríamos saber que pelas nossas obras estamos sob o seu juízo.

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22 de Setembro de 2019

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