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O orgulho da coragem feminina

No vasto e prestigioso repertório de imagens que brotaram da história de santa Úrsula há uma mais humilde do que as outras, mas particularmente comovedora. Trata-se de um conjunto de bustos, talvez relíquias, conservados no Museu diocesano da capital da província basca, Álava, no norte da Espanha: é o trabalho de um escultor anónimo do século XVI, e representa a santa com quatro companheiras. Para cada uma delas a imagem é constituída por uma pequena parte do busto muito estilizado e pela cabeça, representada ao contrário com um realismo surpreendente: temos a sensação de ver realmente, como se as tivéssemos à nossa frente, o rosto daquelas cinco meninas com os seus cabelos longos cuidadosamente penteados e a expressão de quem tem fé na vida, uma imagem de juventude feminina que desafia o tempo, como se confiasse à eternidade uma esperança eterna. Nas muitas maneiras em que a arte narrou a história desta menina nunca falta o elemento da serenidade do rosto e um certo orgulho da coragem feminina. Mas o que é esta coragem? E com quais outros aspetos se entrelaça na história lendária desta santa? E de onde nasce a sua lenda poderosa e inspiradora?

Um pequeno acervo de ossos, pobres restos humanos transformados pelo tempo: eis o que dá fundamento ao núcleo da verdade histórica que está na origem da vicissitude transmitida de Úrsula. Os ossos foram encontrados em Colónia onde, na igreja a ela dedicada, uma inscrição recorda o martírio de algumas virgens que «derramaram o seu sangue para o nome de Cristo». As vicissitudes da construção e das sucessivas reconstruções da basílica, juntamente com os antigos documentos e testemunhos do culto (já presentes entre os séculos VIII e IX), tornou possível relacionar estes restos humanos com a perseguição de Diocleciano, por volta do início do quarto século. Mas é a partir do século X, através de uma estratificação das notícias sucessivas, que a história do seu guia, a jovem Úrsula, ganha forma e não deixa de se enriquecer, estimulando a imaginação e a devoção.

Eis portanto, contra o pano de fundo de uma época remota num cenário nórdico, uma jovem que recebe uma proposta de casamento. Não é uma jovem qualquer, mas a filha de um rei, um soberano bretão que através deste matrimónio procura fazer alianças com um jovem príncipe estrangeiro. Úrsula sabe muito bem que o seu consentimento e a sua recusa não são simplesmente um assunto particular: disso pode depender a paz ou a guerra do seu povo. Apesar de tudo é relutante, hesita. Ela é muito jovem, mas não é a sua idade que a preocupa, nem sequer a incomoda a figura do futuro esposo. A questão é outra: o jovem monarca ao qual está destinada é pagão. Úrsula é cristã, mesmo sem ter consagrado a sua virgindade a Deus (como relatam algumas versões da sua história) não pode aceitar unir-se a quem não compartilha sua fé. E aqui encontra-se um primeiro elemento surpreendente: Úrsula não rejeita o casamento, mas pede que seja adiado. Talvez deixe ao esposo o tempo para se converter, talvez dê a entender que ela própria poderia mudar de ideia. O que é certo é que procura ganhar tempo. Mas o que significa este ganhar tempo?

Significa não se deixar levar pelo decorrer do tempo, significa inserir no tempo linear da História um tempo diferente, um tempo meditativo aliado ao tempo sagrado, que tem o poder de desestabilizar as vicissitudes e as vontades humanas. Neste caso, o tempo sagrado irrompe na noite. A jovem tem um sonho no qual lhe aparece um anjo que lhe indica o caminho. Muitas vezes na iconografia da santa o anjo traz consigo a palma do martírio, mas antes que o martírio se verifique, acontecerão muitas coisas. Principalmente uma: Úrsula assumirá a própria vida, não será passiva, não cederá e nem sequer se limitará a recuar. Pelo contrário, colocar-se-á em movimento, de maneira imprevista e audaz. Não obstante seja apenas uma mulher da qual se espera a obediência, aliás, uma moça muito jovem e respeitadora do seu pai, contudo ela quer defender a sua fé, aquela fé para a qual, como são Paulo escreve aos Gálatas, «já não há homem nem mulher, pois todos vós sois um em Cristo Jesus». A fé cristã liberta-a da submissão feminina.

A noite, o sonho e o anjo não anunciam um acontecimento sobrenatural, mas sim uma decisão: não obstante a sua idade, a sua condição de mulher e de filha, Úrsula dará prova de independência tenaz e saberá transmitir esta independência às suas companheiras, jovens como ela, que a apoirão na escolha de não aceitar aquele matrimónio e de ir em peregrinação a Roma. Daqui nasce a sua viagem: o navio que a levará rumo aos longínquos litorais é a Igreja e ao mesmo tempo a sua igreja, ou seja, a igreja que a sua própria decisão está a edificar e, contemporaneamente, a distante igreja da Inglaterra, que se une ao centro da cristandade através da viagem inesperada a Roma de uma jovem inerme, seguida por outras jovens indefesas e corajosas como ela.

Eram verdadeiramente onze mil aquelas jovens? Talvez este número, como alguns afirmam, seja somente um erro de leitura da inscrição de Colónia. No entanto, entende-se bem que onze mil, um número tão inimaginável e por conseguinte fabuloso, não é uma amplificação da força de Úrsula e do grupo das suas seguidoras, adequado para entrar numa lenda em que o poder feminino tem tanto relevo. Quer tenham sido onze, quer alegoricamente onze mil, sem dúvida Úrsula e o seu séquito constituem uma comunidade feminina em movimento, capaz de aliar a fé à ação. Não surpreende que em seu nome Angela Merici tenha fundado no ano de 1535, em Brescia, a ordem das ursulinas dedicada à educação das adolescentes, ou seja, a algo que é exatamente o oposto da passividade, da inconsciência.

A santa e a suas companheiras viajam para Colónia e sucessivamente para Roma, onde se fazem ouvir com autoridade pelo Pontífice, e em seguida voltam para Colónia, onde serão massacradas pelos bárbaros pagãos. No entanto, em todas as obras que a representam, tanto no relicário pintado no final do século XV por Hans Memling como no maravilhoso ciclo de Carpaccio, que remonta a essa mesma época, sobressai a firmeza juvenil com a qual esta heroína desafia o desconhecido, o mar, os agressores, a morte. E, ao mesmo tempo, a solidariedade protetora que demonstra para com as suas companheiras (Memling chega a representá-la em conformidade com a iconografia de Nossa Senhora da Misericórdia, com as companheiras congregadas amorosamente sob o seu manto).

Mas até na sombria pintura a óleo de Caravaggio, em que está representado o martírio da santa, trespassada pela flecha que segundo a lenda Átila lhe lançou, são o próprio assassino e os seus algozes que demonstram consternação e medo. Úrsula, ao contrário, olha com aceitação composta a ferida que marca o fim da sua viagem. No culto que a circunda, a viajadora aventurosa torna-se em breve a protetora de outro caminho: o agente de viagem, por assim dizer, do trajeto que conduz ao Paraíso.

Elisabetta Rasy

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12 de Dezembro de 2019

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