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O Natal dos Pobres, ou Nossa Senhora do Metropolitano (1945)

Na calçada do Metropolitano. A Santa Virgem (tem no colo o seu pequenino Jesus, muito bem agasalhado). Há já 1945 anos! E como os homens se assemelham entre si... e como sofrem! E como gostaria de afagá-los com esta consolação singular, com aquela consolação de há 1945 anos, com aquela consolação eterna na qual tão poucos deles vêm à procura da paz.

Sempre os mesmos, como em Belém, os ricos e os pobres, os sãos e os doentes, os doados e os vendidos, os livres e os prisioneiros. E estes infelizes, todos estes infelizes que não conhecem a sua consolação, assim como aqueles pobres felizes, aqueles falsos felizes que não desejam ser consolados.

E sinto no coração o meu menino que parece lançar-se sobre eles. Forçará Ele a porta do seu coração? Abrirão eles a porta do coração, estes infelizes, para serem consolados, estes falsos felizes, para aprenderem que têm necessidade de misericórdia?

(A uma senhora absolutamente «bem educada»). Perdão, senhora, estou sozinha em Paris com o meu pequenino filho. Poderia hospedar-nos esta noite, que é Natal?

A senhora Lastimo muito, bondosa senhora, mas esta noite virão à minha casa a minha família inteira, com os irmãos, as irmãs, os filhos e os sobrinhos. Cada um contribui com a sua parcela de fogo, de ganso, de alegria. Só Deus sabe quanto trabalhei para a preparar. Vá à rua Cantagrel, desça na estação de Tolbiac; esta noite a senhora sentir-se-á aquecida.

A Santa Virgem Deus tenha piedade da sua felicidade, minha pobre mulher.

(A um senhor muito rico, que certamente possui fábricas). Senhor, por favor, poderia receber-nos na sua casa, a mim e ao meu filhinho, durante esta noite? Estamos sozinhos em Paris.

O senhor, aguçando o ouvido Como?

A Santa Virgem Por favor, poderia... Idem?

O senhor Como?

A Santa Virgem Idem.

O senhor Estranho, nunca fui surdo, e no entanto não consigo ouvir aquilo que me diz esta mulher.

A Santa Virgem Deus tenha piedade de ti, pobre homem. O dinheiro fez apodrecer os ouvidos do teu coração. O teu coração está deturpado como o semblante de um leproso. Possa a misericórdia que nasce esta noite curar-te e salvar-te.

(A uma jovem muito chique) Senhora, tenha a amabilidade de nos hospedar na sua casa, ao meu pequenino e a mim; esta noite estamos sozinhos em Paris.

A jovem Esta noite não estarei em casa. Nunca estou em casa. Come poderia receber-vos? Além disso, pobre filha, como pôde pensar em ter uma criança, nos dias de hoje?

A Santa Virgem Deus tenha piedade de ti, pequena mulher sem casa, pequena mulher sem filhos. Como te poderá Ele encontrar, se nunca estás em casa? Come conhecerás o seu amor, se nunca foste mãe? São todos iguais, todos iguais!

(A uma mulher franzina, muito simples). Naquela época, a terra inteira era como uma solidão e os campos esperavam aquilo que devia acontecer. E estava escrito: a solidão será na alegria, transbordará de júbilo e de louvor.

A mulher Mas quem é que pode falar de alegria na solidão? A solidão está em toda a parte. Daqui a pouco, no vagão do metropolitano estaremos colados uns aos outros. Estaremos mais sozinhos do que um homem perdido no meio do deserto. Daqui a pouco, na casa onde moram uns trezentos, ninguém será amigo.

O nosso coração está como que fechado dentro de muros de cimento. Ninguém pensa que ele existe. A morte escava a solidão. O amor rompe a solidão uma vez. Cem vezes, aumenta-a.

Solidão no trabalho; solidão da juventude. Fui uma jovem que os outros deixavam sempre de lado, uma jovem desprovida de alegria, uma jovem sem mãe. Fui uma jovem sem amor. Serei uma idosa sem filhos, sozinha, ainda só, sempre sozinha...

A Santa Virgem Está escrito: Coragem, fluirá água no deserto, e torrentes na solidão. A terra árida transformar-se-á numa lagoa, e a terra seca numa fonte de água, diz o Senhor Todo-Poderoso.

Esta noite é Natal! E terá lugar a grande visita do amor eterno, do amigo eterno. Senhora, não gostaria de passar a noite comigo, para o recebermos juntas?

(A um rapagão de olhos claros). Naquele tempo, os pastores esperavam Aquele que teria recebido as suas ofertas, todos aqueles produtos brancos e doces: os seus cordeiros, o leite, a manteiga, as natas, o queijo. Levavam tudo o que existia de melhor Àquele que devia vir.

O rapagão Um dia virá alguém, a quem poderemos oferecer aquilo que existe de bom em nós? Alguns pedem o nosso dinheiro, os outros o nosso trabalho, e outros ainda a nossa raiva, outros certas vulgaridades e outros tolices, mas quem nos pedirá o nosso coração? Ele é sempre esquecido e cansa-se como um cão que ladra na sua pequena casa à espera do regresso do seu dono.

A Santa Virgem «Amei-te com um amor eterno e atraí-te a mim». Esta noite é Natal! Esta noite terá lugar a grande visita do amor eterno, do amigo eterno. Gostarias, meu filho, de permanecer perto do meu menino e de mim, para o encontrarmos juntos?

(A um senhor idoso). Nos confins da terra, alguns reis já tinham recebido a notícia. Estava escrito: «As trevas envolverão a terra e a obscuridade os povos, mas sobre ti elevar-se-á o Senhor e em ti vislumbrar-se-á a sua glória. As nações caminharão à tua luz e os reis ao esplendor do teu amor!».

O senhor idoso Sim, as trevas envolvem a terra; sim, o céu está coberto de estrelas, mas aquela que nós esperamos não se vê. Sim, nós somos conhecedores de muitas realidades, mas todas as descobertas que tínhamos perseguido com amor a fim de que o mundo fosse mais bonito, para que o mundo fosse melhor, os homens, como crianças travessas, delas fizeram armas horríveis, e com elas transformaram a terra num lugar de terror. Quando se elevará a estrela do Dominador pacífico da terra, a quem ofereceremos os nossos tesouros, como ouro, incenso e mirra, a fim de que finalmente sirvam para uma benevolência universal?

A Santa Virgem Está escrito: «As montanhas recebem a paz para o povo, e as colinas a justiça». Esta noite é Natal! E terá lugar a grande visita do amor eterno, do amigo eterno. Senhoras, desejais permanecer esta noite comigo, para o recebermos juntas? Que se congreguem ao nosso redor as inúmeras pessoas que vivem sozinhas; venham ter connosco todos aqueles que possuem em si algo de bom para oferecer e não sabem a quem; venham ter connosco os novos magos, os sábios em busca da paz. Permanecei próximos de mim, meus amigos, ainda não vos mostrei o meu filho, mas em breve vê-lo-eis melhor.

Segui-me: apanhemos o próximo metropolitano. Juntos, desceremos na estação da Porta d’Ivry; sabeis, Ivry a vermelha, o vermelho é a cor da caridade, é a cor do amor.

Juntos desceremos pela rue de Paris e entraremos na velha igreja que, desde há muitos séculos, se ilumina na noite de Natal.

E ali mostrar-vos-ei o meu filho. E vê-lo-eis como uma criança recém-nascida, mas também como o Salvador do mundo que, há dois mil anos, visita incessantemente o mundo a fim de que os homens o conheçam, para que os homens o amem e, amando-o, aprendam a amar-se uns aos outros, como Ele mesmo os amou primeiro.

Mostrar-vos-ei o meu filho e vós sereis curados da vossa solidão e encontrareis nele um mestre, um guia.

E quando regressardes aos vossos lares, pelos caminhos do mundo, por vossa vez, a todos vós ensinareis, clamareis e entoareis a boa nova: nasceu-nos um Menino! Foi-nos dado um Salvador. Rejubilemos! E vivamos na alegria!

Carta a um veterinário (1954 -1955)

Excelentíssimo Senhor

Ao longo de cinquenta anos tive o prazer de receber os cuidados de dez médicos. Tive a ocasião de encontrar dois humanos: infelizmente, morreram e não posso esperar ter uma terceira oportunidade. Eu sei sem dúvida alguma que: tenho um péssimo carácter; a teimosia de um burro; o temperamento de um cavalo. Mas, ao mesmo tempo, tenho a certeza de que não sou uma supermulher e estou cansada de ser tratada como tal. É por isso que um veterinário parece mais adequado para as minhas necessidades. Espero que não me recuse os seus conselhos. Se, na pior das hipóteses, eu fosse maluca, preferiria um insecticida à psicanálise.

No meio dos bilhetes de Madeleine

Número 11 da rue Raspail, na periferia operária de Paris: aqui em 1935, juntamente com algumas companheiras, a mística, poetisa e assistente social Madeleine Delbrêl (1904-1964) dava início ao seu programa de simples vida fraterna, em estreito contacto com as mulheres e os homens daquele bairro. Uma presença cristã viva no meio das pessoas descristianizadas da sua época, uma presença de fé, de vida e de reivindicações sociais, graças a uma mulher ateia «radical e profunda», que se converteu ao catolicismo com vinte anos (o convertido, disse certa vez, «é uma pessoa que descobre que Deus é uma sorte maravilhosa»). O humorismo de Delbrêl, entre as maiores figuras espirituais do século XX – «fui e permaneci fulgurada por Deus», confiou a alguns estudantes, três semanas antes de morrer – era legendário. A sinopse que em seguida propomos foi tirada da sua obra Umorismo nell’amore. Meditazioni e poesie (Gribaudi, 2011), que reúne escritos extremamente diversificados – bilhetes, notas cartas, poesias, canções e contos – conservados pelos amigos de Madeleine, conscientes do valor daquelas palavras.

Humorismo no amor (1946)

Sabendo como somos, seria verdadeiramente ridículo

se não conservássemos um pouco de humor no nosso amor.

Porque somos personagens realmente cómicos.

Mas pouco dispostos a rir

da nossa própria fanfarrice.

Senhor, amo-te mais do que tudo... em geral...

mas quanto mais do que Tu, neste breve minuto que passa,

um cigarro inglês... ou até um nacional!

Senhor, ofereço-te a minha vida, a minha vida inteira...

mas não este brevíssimo fragmento de vida,

estes três minutos nos quais não tenho muita vontade de ir trabalhar.

Senhor, posso conquistar-te a cidade, a França e o universo,

consumindo-me pelo teu reino, mas...

mas não consigo ouvir esta criatura insuportável

que me narra pela centésima vez os seus problemas minúsculos.

Sim, somos heróis de ópera bufa, e desta comédia

seria normal que o primeiro público fôssemos nós mesmos.

Mas a história não termina aqui.

Quando descobrimos esta comicidade impagável,

quando desatamos a rir,

recapitulando a farsa da nossa própria vida,

sentimos a tentação de nos abandonarmos, sem dúvida,

a uma carreira de palhaço para a qual, em última análise, parecemos deveras dotados.

Sertir-nos-íamos facilmente tentados a pensar que isto não tem grande importância,

e que ao lado

dos sublimes,

dos fortes

e dos santos,

há lugar

também para os palhaços e os fanfarrões,

e que Deus não os despreza de maneira alguma.

Sem dúvida, isto não é muito estimulante,

mas nem sequer muito cansativo, e constitui até uma vantagem.

É então que devemos recordar

que Deus não nos criou para o humor

mas para este amor eterno e terrível

com o qual, desde sempre, ama tudo aquilo que Ele mesmo criou.

É então que devemos aceitar este amor,

não para ser o seu companheiro resplandecente e magnânimo,

mas o beneficiário

imbecil

desprovido de fascínio,

sem fidelidade fundamental.

E nesta aventura da misericórdia

pede-se-nos

que demos até ao fundo, tudo o que pudermos,

pede-se-nos que riamos quando este dom fracassa,

sórdido, impuro,

mas também se nos pede

que nos admiremos com lágrimas de agradecimento

e de alegria,

diante deste tesouro inesgotável,

que do Coração de Deus flui em nós.

É nesta encruzilhada do riso e da alegria

que se encontrará a nossa paz infalível!

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24 de Outubro de 2019

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