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O não de Isabel

Juntamente com a de Maria, a figura de Isabel – esposa do sacerdote Zacarias e mãe de João Batista – é proposta por Lucas como fonte e instrumento daquela revolução copernicana que o cristianismo nascente realizará em relação à religião judaica. Se a piedade do Templo era confiada ao papel masculino e conservador dos sacerdotes, a fé cristã abria-se nos braços laicos e femininos das mães, jovens ou idosas, judias ou galileias; se o Deus do Templo era protegido pelos recintos exclusivos do culto e da rígida normativa, o Deus do Espírito percorria estradas sem confins e sem muros, incluindo toda a humanidade e anunciando a salvação a todos. Isabel é uma mulher capaz de gratidão e liberdade, de profecia e coragem. Para Israel a salvação não derivará da ortodoxia do sacerdote do Templo, mas da fé de uma mulher que, como ela, nunca cessara de esperar.

Bill Viola, instalação de vídeo inspirada no quadro de Jacopo Pontormo

Para Isabel chega o momento do parto e o filho preservado na intimidade vem ao mundo. Certamente, até então só Maria sabia da existência de João; em teoria também Zacarias, mas Lucas não diz se ele deveras acreditara. Hoje o filho de Isabel não só foi dado à luz, mas todos, vizinhos e parentes, podem vê-lo. Isabel teve realmente um filho, quando já era idosa! As pessoas ficam surpreendidas e felicitam-se com ela. Ter um filho é sempre um sinal do amor de Deus, mas ainda mais em casos extraordinários como este.

Oito dias após o nascimento, o menino deve ser circuncidado. Mas o facto singular é que Lucas escreve: «vieram para circuncidar o menino», como se a iniciativa fosse dos vizinhos e dos parentes e não dos pais. Como se aquela circuncisão derivasse da tradição religiosa, dos vínculos de sangue, mais do que de uma verdadeira decisão. Em síntese, os protagonistas são a família religiosa e os judeus da cidade de Isabel.

Os filhos eram circuncidados segundo a tradição que remonta a Abraão:

«Aos oito dias de idade, façam a circuncisão a todos os descendentes do sexo masculino, quer sejam filhos da família, quer sejam escravos adquiridos por dinheiro e descendam de outras raças diferentes da vossa (...) E aquele que não tiver sido circuncidado deve ser eliminado do vosso povo, por não ter respeitado a minha aliança» (Gn 17, 12-14).

Portanto, este rito tornava filho de Abraão para todos os efeitos, ou seja, herdeiro da promessa que Deus tinha feito ao patriarca e aos seus descendentes, o povo da Aliança.

Parentes e conhecidos, além de estarem presentes para celebrar o rito, propõem o nome a ser dado ao menino. Geralmente o nome era imposto ao filho no dia de nascimento, mas no judaísmo mais recente afirmou-se gradualmente o hábito de o fazer neste dia. Para muitas mulheres dar o nome a um filho significava recordar o momento – não raro doloroso – do nascimento.

Tinha sido assim para Ana que chamara o filho Samuel, porque o Senhor ouvira a sua lamentação (1 Sm 1, 20) e também para as matriarcas de Israel: Lia deu ao seu primogénito o nome de Rúben, porque disse: «O Senhor olhou para a minha angústia e daqui em diante talvez o meu marido passe a gostar mais de mim» (Gn 29, 32); Raquel deu ao seu primeiro filho o nome de José esperando que «o Senhor lhe doasse mais um filho!» (Gn 30, 24).

Quando são as mães que dão o nome ao filho é porque querem imprimir nele uma alegria inesperada, um resgate da própria humilhação, uma marca de fogo da misericórdia de Deus.

O mesmo acontece também com Isabel que, quando os familiares decidem dar àquele filho o nome de «Zacarias», se impõem com força: «Não! Chamar-se-á João!». Chamar-se-á assim, porque aquele nome está escrito nas suas vísceras de mãe: o dom de Deus. Chamar-se-á assim porque esse filho deriva da promessa de Deus e não da virilidade da estirpe de Levi. Esta é a verdade! Ela respirou toda a sua alegria, surpresa e gratuitidade inesperada. Chegara como pura alegria, não obstante desde há anos tivesse anelado por ele. Aquela chegada tão repentina fê-la reflorescer para a vida, restituindo-lhe a dignidade perante todos, entregando-a novamente à beleza de um mundo que se abria ao futuro, para ela que já tinha uma idade avançada. O nome daquele filho está a significar o que Deus fez nela de absolutamente novo, vital e belo, e não se toca!

Mas os parentes insistem e nem sequer a têm em consideração. Não se pode dar um nome que não existe na sua parentela. Deve chamar-se Zacarias, deve-se dar o nome da Memória, que garanta o passado, que conserve a tradição. É preciso transmitir o nome do pai e tudo o que ele representa. Mas Isabel diz não precisamente ao significado do nome Zacarias: um sacerdócio incapaz de acolher a novidade do dom de Deus. Incapaz de ouvir a voz atual que vem do Céu e que responde à terra. Incapaz de dizer uma palavra a quem espera fora das Salas Sagradas do Templo. Um nome que se tornou não só ineficaz, mas até um impedimento, uma resistência, um obstáculo à passagem de Deus.

Isabel diz não. Mas os familiares, os conservadores das tradições religiosas, continuam a ignorá-la. O nome deve ser dado pelo pai. Ele é o seu primogénito. O nome há de responder a uma lógica de direito e propriedade, onde quem conta é o pai. O nome deve tutelar a relação tradicional de todo Israel com Deus.

Mas Isabel diz não! Indo além da tradição religiosa fechada devido ao conservadorismo judaico e abrindo a uma nova lógica e uma nova luz, que é a universal de Maria e de Jesus.

Pontormo, «Visitação» (1528-1530)

A multidão de parentes não desiste e faz sinais a Zacarias para saber como queria chamar o menino. Um caso deveras singular, caraterizado por um longo debate sobre o nome. Parece uma questão de vida ou de morte. E de facto é assim! Além de mudo, Zacarias mostra-se surdo. Uma surdez que significa a incapacidade de prestar atenção às palavras do Anjo (cf. Lc 1, 20). Com efeito, torna-se mudo quem é surdo ou quem não quer ouvir. A fé abre os ouvidos, mas Zacarias não a teve e, por conseguinte, permaneceu surdo.

Mas agora acontece algo de especial, precisamente quando os vizinhos esperavam que ele mantivesse firme a razão da sua tradição: Zacarias pede uma pequena tábua. E nela escreve o nome João! Naquele exato momento solta a língua e recomeça a falar: foi o primeiro sinal tangível do «dom de Deus» a Zacarias! Dom de Deus e dom da sua esposa Isabel.

A sua fé e inteligência, aberta às novidades que provêm de Deus, salvaram também o seu esposo. Restituíram a voz a um sacerdócio já morto. A fé viva de uma mulher revigorou o corpo fechado de uma classe sacerdotal totalmente obtusa, impotente, áfona. Que já preservava apenas a si mesma e os seus ritos vazios, afastando do Templo qualquer possível canal de Misericórdia e de Amor.

A palavra reconquistada por Zacarias contagia os presentes. Tratava-se de uma palavra tão nova que os surpreendeu e os levou a ceder ao pedido e à maravilha. Era deveras uma missiva inédita aquele nome que o sacerdote tinha recebido da sua esposa. Estavam a acontecer Coisas inauditas. Inclusive as colinas da Judeia parecem surpresas e as pessoas que por ali passam só falam disso.

A narração inclui algo de exagerado e paradoxal: como é possível que haja uma reação tão grande à simples escolha de um nome? Mas a razão é clara: o não de Isabel fez alterar o curso da história de Israel e a forma da religião judaica.

No que diz respeito ao curso da história, já não seguirá o sacerdócio do Templo e nem sequer o Deus fechado no Templo, mas a experiência real e humana daquele Deus que se revela em obras concretas de vida e de resgate, que se exprime em vínculos autênticos de amor e de fé, onde quer que ocorram.

Quanto à forma da religião, ela já não será «mediada» obrigatoriamente pelas classes sacerdotais – únicas autoridades religiosas que restavam ao judaísmo no tempo de Jesus – mas pelo Amor de Deus que se faz presente e se encarna no seio e nas esperanças das mulheres, na vida dos simples leigos, nas casas dos gentis, na coragem dos profetas.

A escritura do nome de João tem um efeito enorme sobre toda a região montanhosa da Judeia. Um evento que, no âmbito dos grupos de pastores, impressiona quase como o nascimento de Jesus. Aquele nome torna-se ocasião de admiração, mas também de meditação: «Todos os que ouviram o que os pastores diziam ficavam admirados e guardavam estas coisas no seu coração: quem será esta criança?». O mesmo fará Maria observando tudo o que acontecia durante o nascimento de Jesus (cf. Lc 2, 19). Estava deveras a acontecer algo que iria transformar totalmente o mundo de então: partindo da Judeia, o «dom de Deus» sulcará mares e terras, até se inserir numa história que abrangerá toda a ecúmena.

Rosanna Virgili

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24 de Outubro de 2019

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