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O mundo visto de Aparecida

· Reflexões sobre a viagem do Papa Francisco ·

Com o passar dos dias é possível reflectir com mais calma sobre a viagem do Papa Francisco ao Brasil e ler os seus múltiplos significados. Em primeiro lugar, surpreende uma certa semelhança com o pontificado de Bento XVI: com efeito, também para Joseph Ratzinger a primeira viagem internacional foi realizada por ocasião de uma jornada mundial da juventude a Colónia, oferecendo-lhe a oportunidade de regressar ao seu país natal, a Alemanha. Contudo, hoje não se trata só de um país, mas de uma parte do mundo, e o significado de um novo início é ainda mais forte, dado que nos referimos a uma terra muito distante de Roma.

Para o Papa Francisco a participação na jornada mundial da juventude constituía  também a última ocasião para cumprir um compromisso assumido pelo seu predecessor: de facto, doravante, as viagens serão só suas. Mas o destino – na perspectiva da fé, o Espírito – quis que o último acto relacionado a Bento permitisse a Francisco abrir-se ao futuro, revelando o documento programático do seu pontificado que, pela primeira vez na história, nasceu e foi experimentado num continente diverso da Europa, por bispos que deviam enfrentar problemas bem diferentes daqueles do mundo chamado «avançado»:  o programa de Aparecida.

Se já em Lampedusa o Papa tinha falado de uma globalização negativa, à qual se deve responder com uma globalização boa, do santuário de Aparecida esta escolha positiva adquire corpo e alma. A Igreja católica – como indica o seu próprio nome, que significa «universal» - conhece a globalização desde há quase dois mil anos, mas desta vez, mesmo permanecendo em Roma, Francisco desviou o ponto de vista indicando de onde a Igreja deve olhar, e trata-se de uma revolução estratégica não indiferente.

Certamente, a muitos europeus pode parecer uma nova desclassificação do «velho continente», mas não se devem fechar os olhas perante a necessidade de responder a uma globalização que leva para toda a parte uma cultura da utilidade e do lucro, elaborada pelo Ocidente, que fez perder de vista a centralidade do ser humano. E a resposta católica só pode  ser dada haurindo da parte das vítimas desta globalização. Que, obviamente, vêem o mundo de outra forma, que consideram primárias outras necessidades, que agem como uma rajada de renovação num mundo que parecia enfrentar a crise económica às cegas e imóvel.

Algo de semelhante aconteceu já na época da Reforma, quando a descoberta da América e  em seguida as viagens à Ásia abriram novos espaços imensos de evangelização ao catolicismo, que estava a perder uma parte da Europa. Sucessivamente, verificou-se de novo no século XIX, quando a Igreja injuriada pela Revolução francesa, pelos nacionalismos e pelos liberalismos, encontrou nova vida nas missões, que se expandiam graças aos modernos meios de transporte e ofereciam a ocasião para testemunhar totalmente a fraternidade cristã.

Com efeito, enquanto o colonialismo se exprimia mediante o racismo em relação aos povos conquistados, a Igreja católica abria a carreira eclesiástica primeiro a asiáticos e, depois, a africanos, com o resultado de ser, ao longo do século XX, a única instituição que podia contar com uma elite local em cada parte do mundo. E mais de um século antes, enquanto os líderes ocidentais visitavam a França e a Inglaterra ou, no máximo, os Estados Unidos, o futuro Pio IX viajava por mais de dois anos pela América do Sul, elaborando uma ideia específica sobre as condições daquele mundo.

Foi sempre a dimensão mundial que salvou a Igreja, dando-lhe o fôlego necessário para pensar grande e a longo prazo. Este é a única forma para evitar, sem perder a própria identidade, a auto-referencialidade que foi atribuída à cultura católica das últimas décadas. O sinal que o Papa Francisco deu de Aparecida é novo, mas é também um regresso ao passado mais glorioso da história da Igreja, quando esta instituição sabia respirar a plenos pulmões, e livremente.

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17 de Novembro de 2019

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