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O mundo está em chamas

· ​Resposta às urgências e aos perigos do seu tempo ·

É difícil resumir a espiritualidade de Teresa de Ávila, por quanto é rica e subtil. Mas o que se pode dizer, contudo, para a apresentar, é que encontra a sua força na acção. Teresa de Jesus elaborou uma mística que respondia às urgências e aos perigos do seu tempo e que se desenvolve em volta de três pólos: a sua compreensão iluminada da Encarnação e do que comporta como resposta; a sua invenção – como se diz da descoberta de um tesouro – do centro da alma como residência de Deus; e por fim, a oração como acção amorosa sobre o mundo.

Vitral da paróquia de Santa Teresa em Summit, em New Jersey

«O mundo está em chamas», escreve Teresa no primeiro capítulo do seu Caminho de perfeição. E o mundo, acrescenta, precisa de amigos fortes (amigos fuertes). Contra qual fogo quer agir Teresa de Ávila? Contra o que devora a Igreja a partir de dentro, com as ideias novas da Reforma e de outras correntes de pensamento que contestam a Roma o seu dogma e a sua infalibilidade. O que aconteceu é que a revolução coperniciana destruiu as bases do mundo antigo e difundiu nas mentes daquele século XVI, o primeiro da era moderna, uma angústia geral: tanto a Terra como Deus deixam de ser os centros de um universo eterno e incorruptível que girava à sua volta.

Teresa afasta magistralmente as interrogações que esta vertiginosa descoberta apresenta às mentes de então. Que importa se por causa desta teoria Deus perdeu o seu lugar de residência? Basta procurar o divino como transcendência pura, como experiência pura, como experiência interior, responde Teresa. Que importa depois se a terra já não é o lugar de um teocentrismo? Se Deus é tudo, se «a máquina do mundo tem, por assim dizer, o próprio centro em toda a parte e a sua circunferência em lugar algum», o centro do mundo encontra-se lá onde está o homem, e Deus nele. A citação de Nicolau de Cusa tirada de Pascal, não é uma alegoria; uma esfera com um raio infinito efectivamente tem o seu centro em toda a parte. Seja qual for o ponto no qual nos encontramos nesta esfera, estamos de facto a uma distância infinita da margem, e isto em todas as direcções do espaço. Assim Deus, dado que reside no centro secreto da alma, está sempre e inevitavelmente no centro do universo.

Esta é uma das fontes da espiritualidade teresiana: na descoberta do centro da alma. Tomás Álvarez, no Diccionario de santa Teresa de Jesús, frisa a originalidade da madre sobre esta noção que se tornará uma linha mestra da sua obra-prima, O Castelo interior. Este centro da alma é «o principal ambiente, onde se realizam as coisas mais secretas entre Deus e a alma». Lá, no seu centro, Deus continua a habitar e a resplandecer. É neste centro que se celebra a união da alma com Cristo nosso Senhor, esclarece Teresa, para que a sua relação com ele seja definitivamente estabelecida: «A alma permanece sempre com o seu Deus naquele centro do qual falei». Esta concepção, indubitavelmente singular, atrairá sobre ela a ira da Inquisição. Trata-se de «erro em filosofia, sonho e fantasia em teologia» decretam os juízes. Quanto à ideia de Deus que está neste centro, é definida uma heresia revoltante.

Esta é a resposta meramente genial de uma mulher que responde intuitivamente, da sua alma, à angústia geral que a revolução coperniciana gera. Consegue deste modo manter a força de um divino pacificador. Ela que possui a louca vontade de atribuir de novo a Deus o seu lugar – de fazer com que a sua alma, se se une a Deus, se torne de novo o centro do mundo – e consegue: a sua oração volta a pôr o mundo sob o olhar divino e Deus no centro do universo. Rezando, Teresa dá novamente o seu lugar a Cristo que vem. Ironia do destino! Aquilo que quase a fez definir herege pela Inquisição – a noção do centro da alma – é o que no-la torna tão necessária.

Teresa de Jesus foi canonizada pela santidade da sua vida, pela criação do seu Carmelo e pela sua irredutível fidelidade à Igreja. Mas o que faz com que ela seja nossa contemporânea é esta invenção. Muito mais que a abertura individual de uma alma perdidamente fiel a Deus, é aquela que doa perpetuamente a Deus um futuro, não com um «penso, portanto sou» mas com um «creio portanto Ele é». Deste modo força o advento de um mundo no qual Jesus Cristo permanecerá a medida inevitável.

Teresa de Ávila compreendeu a atracção pela matéria e pelas teorias contemporâneas dos seus semelhantes; eis o motivo da sua aversão à erudição falsa, a pretensão do saber e a inquietação do espírito nos seus conventos. «A alma não é pensamento, e (…) a vontade não é por ele dirigida, o que seria uma verdadeira desventura. Isto leva a que o proveito da alma não consista no modo de pensar, mas no modo de amar», afirma.

Teresa sentiu-se obrigada a amar o dia em que a visão de um crucifixo lhe fez compreender, de repente, quanto Deus a amava por lhe ter doado a própria vida na infâmia e na dor da cruz. Quanto a amava ao fazer-se tão semelhante à sua criatura a ponto de se encarnar no ser mais débil e humilde que existe, não num príncipe, mas no filho de um carpinteiro da periferia da Palestina. A partir daquele momento compreende, num momento, que não poderá aceder a estado superior algum da fé sem uma consciência plena e uma experiência deste amor, através da fusão nele: apercebe-se de que, para que Deus lhe responda, se deve comprometer de modo comedido no amor que a sua Paixão demonstrou.

Assim a representação da humanidade de Cristo no que teve de mais paroxísmico – a Paixão – perturbou-a, e foi através dela e a partir dela que pôde compreender plenamente aquela que constituía a loucura e o escândalo do cristianismo: a encarnação. «Ninguém vem ao Pai senão por mim» (João 14, 6). Jesus é o rosto humano de Deus. Haveria porventura melhor metáfora do que esta verdade, que Teresa assimilará como uma hóstia, ou seja que a realidade de Deus, o seu ser só é acessível em Jesus e através de Jesus? No Livro da Vida escreve que Jesus é o verdadeiro livro no qual descobriu todas as verdades. A visão perturbadora do corpo sofredor de Jesus revelou-lhe ainda, de maneira fulgurante, todas as promessas do mistério de Jesus homem-Deus e Deus-homem. A humanidade de Cristo oferece uma possibilidade de união, de comunhão e de unidade de amor. Por meio de Jesus, a atracção recíproca entre Deus e a sua criatura formaliza-se. Quer pense na Paixão quer medite sobre este mistério, o orante encontra-se no início de uma escada que conduz a Deus, uma escada como a de Jacob, uma escada de oração que deverá subir para alcançar a união divina, «onde nada é comparável com os gozos da alma».

Eis então a exortação de Teresa a rezar. A oração é, a seu parecer, «uma relação de amizade íntima, um estar com frequência a sós com aquele pelo qual sabemos que somos amados». É preciso rezar porque a oração é o momento central da criação religiosa da qual Jesus é o mestre. Rezar porque a oração é a linguagem da amizade, assim como o silêncio é a linguagem de Deus. Teresa garante assim a sobrevivência daquela formidável revolução teológica, teleológica e humana que é a encarnação. Rezar e ir em frente: Ir adelante. O seu mote conta-se cento e trinta vezes na sua obra. Ir em frente no mundo e ao mesmo tempo penetrar no mais profundo de si mesmos. Não podemos «pretender entrar no céu sem primeiro entrar em nós mesmos», adverte.

Que nos ensina a sua espiritualidade? Agindo de amor, como se diz, de instinto, a irradiação infinita de cada uma das nossas acções difunde-se na trama infinita do mundo. Através do amor, a mística Teresa – a sua contemplação bem-aventurada, a sua oração – torna-se uma acção e cria uma dinâmica da qual brota a caridade. De facto, o que seria o Amor se se contentasse consigo mesmo? Se não fosse concebido pela caridade? Se não se encarnasse por sua vez no amor pelo próximo? Seria nulo. Mais não seria do que uma vã especulação, o exacto contrário da espiritualidade de Teresa, que é uma mística da acção amorosa.

Christiane Rancé

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26 de Agosto de 2019

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