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O monge que existe em nós

· Sobre o discurso de Bento XVI no Collège des Bernardins em Paris ·

Na tarde de quinta-feira 27 de Janeiro realizou-se no Palácio Apostólico Lateranense a segunda série de leituras teológicas dedicadas a «Os grandes discursos de Bento XVI». No centro do debate, o discurso pronunciado pelo Papa no dia 12 de Setembro de 2008 em Paris, no Collège des Bernardins. O ciclo de encontros concluiu-se no dia 3 de Fevereiro na mesma sede, estando no centro do debate o discurso pronunciado pelo Papa no Westminster Hall a 17 de Setembro de 2010. Publicamos amplos excertos das intervenções do Reitor da lumsa e do Secretário do Pontifício Conselho «Justiça e Paz».

Que o cristianismo tenha oferecido uma contribuição fundamental para plasmar a identidade europeia e, portanto, a sua cultura, é um dado histórico inegável, que e somente por posições ideológicas partidárias pode ser — como de resto não raro hoje acontece — ignorado ou até negado.

Com efeito, factores que contribuíram para a construção da identidade europeia encontram-se entre o período tardo-antigo e a Idade Média: a cultura clássica greco-romana, a cultura germânica, a cultura céltica e a cultura eslava são colocadas no crisol de fusão conferido pelo cristianismo. A religião forja a cultura do continente, base, pelo menos para a Europa ocidental, da sua própria unidade política na idade média. E a cultura tem as suas palavras, os seus paradigmas e valores; molda sensibilidades e promove processos intelectuais e materiais. Os relativos processos prolongam-se no tempo, mas lançam raízes profundas.

Também os modelos mudam. Por exemplo, foi justamente observado por Jacques Le Goff que «a Europa medieval inventa inclusive novos modelos culturais, diferentes do herói guerreiro e do orador da antiguidade. O primeiro é a expressão da nova religião, do cristianismo. Trata-se do modelo do santo»; e acrescenta: «Mesmo quando a Idade Média se afasta, e os ideais religiosos se forem debilitando, o santo permanecerá presente entre os europeus, presente na arte e na literatura, presente numa ideia de perfeição humana (haverá os santos leigos), presente no calendário das festividades e na grande quantidade de nomes que numerosos europeus ainda hoje têm».

No seu fascinante discurso pronunciado no Collège des Bernardins em Paris, no dia 12 de Setembro de 2008, Bento XVI evocou outro grandioso modelo que o cristianismo introduziu na cultura europeia, no gesto de a forjar, ou seja, o monaquismo. Um monaquismo diferente daquele próprio de outras experiências, como o do período tardo-judaico dos essénios, com o seu dualismo entre Deus e Belial, entre luz e trevas; como o hindu e o budista; como o próprio monaquismo cristão oriental, de um António abade, pai dos anacoretas, dotado de formas de ascese extremas, ou de um Pacómio, pai dos cenobitas, que aponta para a possibilidade de uma vida monástica comunitária. Aquele ao qual Bento XVI se refere é um novo monaquismo, que na escolha de uma condição de vida não ordinária, de resto, não evita o mundo, mas entra nele para o transformar profundamente. Como, com efeito, observa o Papa desde o início das suas reflexões, a vida dos monges era caracterizada pela investigação: «Andavam à procura de Deus. Queriam passar das coisas secundárias às essenciais, ao único que é verdadeiramente importante e fiável. Diz-se que estavam orientados de forma “escatológica”. Mas isto não deve ser entendido em sentido cronológico, como se olhassem para o fim do mundo ou para a própria morte, mas em sentido existencial: por detrás das coisas provisórias buscavam o definitivo. Quaerere Deum ».

O componente essencial e característico do monaquismo cristão está encerrado no famoso princípio do ora et labora , que une a orientação à palavra, que pertence à essência da busca, das verdades penúltimas à Verdade última, com a orientação para o trabalho, ou seja, para aquela peculiaridade da condição humana dada pelo seu envolvimento na obra de Deus na criação do mundo.

O monaquismo encarna de maneira exemplar a nova atitude do cristianismo em relação ao mundo. A sua experiência distingue-se claramente das experiências pré-cristãs e não cristãs, às quais apenas aparentemente poderia assimilar-se.

Distingue-se, antes de tudo, da ideia da escolha monástica como paradigma da fuga do mundo ao qual, numa perspectiva salvífica, o homem religioso se julga e se sente obrigado. A escolha monástica não consiste na superação da dimensão mundana, não é fuga das realidades criadas, não é o anulamento da pessoa num misticismo desencarnado, e nem contraposição dualista de alma e corpo, e também não é tensão, como na perspectiva platónica, em vista da libertação da alma da prisão corpórea. O ora et labora de são Bento constituiu, ao longo dos séculos, um antídoto vigoroso contra as tentações que, periodicamente, voltaram a apresentar-se para o cristão: de um espiritualismo desencarnado; de um maniqueísmo — nascente de uma interpretação equivocada de santo Agostinho — que vê no mundo o mal a evitar; de um escatologismo apocalíptico, que induz à desobrigação, à resignação e ao terror; de uma rejeição do compromisso social e político, porque os Estados são concebidos apenas como magna latrocinia .

No entanto, a experiência monástica distingue-se das experiências aparentemente análogas também na frente oposta de uma escatologia inteiramente inframundana, de um anulamento do eu no mar da natureza, de um eterno retorno nas formas mais diversificadas dos seres vivos. Também aqui, o ora et labora de são Bento constituiu, no devir da história, um antídoto vigoroso contra as recorrentes tentações nascentes de uma leitura errónea de s. Tomás, ou seja, de um reino de Deus realizável e a levar a cabo inteiramente aqui e agora, de uma função meramente política da mensagem evangélica, na perspectiva — embora compartilhável, mas não exclusiva nem última — de uma revolução transformadora das estruturas sociais e políticas num sentido mais justo, mais social e mais humano. Isto é, alterando a conhecida imagem agostiniana, num compromisso por modelar a cidade de Deus segundo o paradigma da cidade terrena.

Como anota Bento XVI, «do monaquismo faz parte, juntamente com a cultura da palavra, uma cultura do trabalho, sem a qual o progresso da Europa, o seu ethos e a própria concepção do mundo são impensáveis». No entanto, ele acrescenta: «Este ethos deveria incluir a vontade de fazer com que o trabalho e a determinação da história por parte do homem sejam uma colaboração com o Criador, haurindo d’Ele a medida. Onde falta esta medida e onde o homem se eleva a si mesmo a criador deificado, a transformação do mundo pode facilmente desembocar na sua destruição». Por conseguinte, no discurso aux Bernardins existe uma vigorosa provocação dirigida a nós, europeus: destinada a fazer crescer «o monge que existe em nós». Aqui, a referência não é, obviamente, à condição de vida, entre as várias possíveis para os christifideles; a referência é a um espírito, a uma ideia de experiência, a um percurso intelectual, a uma metodologia de pesquisa. Enquanto tal, o convite subjacente ao discurso parisiense, a fazer crescer «o monge que existe em nós» dirige-se não apenas aos fiéis, mas a todos nós, europeus — que, crocianamente, não podemos deixar de nos definir cristãos — como experiência provável, no sentido de que se pode sentir, de uma busca intelectual aberta à descoberta de Deus: quaerere Deum . Neste sentido, compreende-se plenamente o convite dirigido pelo Sumo Pontífice também noutras ocasiões, a desenvolver as experiências pessoais e sociais na perspectiva do etiamsi Deus daretur.

Central na experiência monástica, que é aceite como paradigma imitável, é a palavra. No sentido de que «le désir de Dieu , inclui o amour des lettres , o amor pela palavra, o penetrar em todas as suas dimensões». E dado que, «na Palavra bíblica, Deus caminha para nós e nós para Ele, é preciso aprender a penetrar no segredo da língua, compreendê-la na sua estrutura e no seu modo de se exprimir». Falando aos homens, Deus expressa-se com palavras humanas: por conseguinte, é necessário aperfeiçoar os instrumentos intelectuais e culturais para compreeender, por detrás e dentro das palavras humanas, a Palavra de Deus. Neste sentido, faz notar Bento XVI, «o mosteiro serve para a eruditio, a formação e a erudição do homem — uma formação cujo objectivo último é fazer com que o homem aprenda a servir a Deus. Mas isto supõe precisamente também a formação da razão, a erudição, com base na qual o homem aprende a perceber, por entre as palavras, a Palavra».

No entanto, o monaquismo ainda pode dizer-nos algo hoje? Pode ainda hoje, na nossa sociedade tecnologicamente requintada e desencantada da secularização, constituir para todos, fiéis e em busca, um modelo que ainda se pode propor? Pode oferecer motivos de esperança e remédios ao cepticismo, à resignação e à desobrigação?

Através do paradigma do monaquismo cristão, Bento XVI indica um caminho possível para o presente, com tudo aquilo que existe de diferente em relação ao passado, mas também com o que existe de análogo; ou melhor, com quanto é sempre próprio, para todos e em toda a parte, da condição humana. Portanto, um caminho possível para aqueles que acreditam e para quantos não crêem, uma vez que não se trata de mortificar a inteligência e a razão, mas sim de as estimular a compreender a estrutura interna de toda a criação, com as suas leis intrínsecas, inseridas por Deus criador e ordenador.

Contudo, o Papa chama a atenção para dois perigos, que podem afastar do paradigma proposto. O primeiro é o do individualismo, do arbítrio individual, que se do ponto de vista subjectivo não tem em consideração a natural estrutura relacional própria do homem, sob o ponto de vista objectivo não tem em consideração o vínculo que deriva de uma razão que, purificada, conhece a verdade objectiva; assim como ignora e prescinde do vínculo que deriva do amor.

O segundo perigo consiste no fundamentalismo. Trata-se de um perigo em relação ao qual estamos mais conscientes e sensíveis: todavia, temos que o reconhecer, essencialmente na medida em que diz respeito ao externo; ou seja, no que se refere àquelas manifestações que provêm de realidades culturais e de experiências alheias à nossa tradição. Para nós, hoje, o fundamentalismo coincide essencialmente com o islão.

Na realidade, também no nosso interior, dentro da nossa civilização, do modo como ela se desenvolveu historicamente, nas derivas modernas do processo de secularização, diante de um triunfo aparente da tolerância como virtude, ou seja, da afirmação da ideia relativista da dignidade de cada posição, se verifica com frequência a substância de novas formas de fanatismo fundamentalista. Em novas configurações, voltaram a manifestar-se os idola fori , em relação aos quais é pedido de maneira intransigente a homenagem cultual. Também aqui se volta a propor aquela tensão entre vínculo e liberdade, que caracterizou a experiência monástica e plasmou profundamente a cultura ocidental, e que é dada pelo binómio «intelecto» e «amor». «Seria fatal — admoesta na sua conclusão Bento XVI — se a cultura europeia contemporânea conseguisse compreender a liberdade unicamente como falta total de vínculos e, deste modo, favorecesse inevitavelmente o fanatismo e o arbítrio», porque «a ausência de vínculos e o arbítrio não são a liberdade, mas sim a sua destruição».

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16 de Setembro de 2019

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