Nota

Este site utiliza cookies...
Os cookies são pequenos arquivos de texto que ajudam a melhorar a sua experiência de navegação no nosso site. Ao navegar em qualquer parte deste site você autoriza a utilização dos cookies. Poderá encontrar maiores informações sobre a policy dos cookies nas Condições de utilização.

O mistério de si e do outro

Marcos 1, 21-28

Este Evangelho anuncia-nos a qualidade da palavra de Jesus: poder de comunhão e, por contraposição, a qualidade do poder dos espíritos imundos, que é poder de isolamento.

Roberta Coni, «Auto-cancelamento»

Escutando o Senhor Jesus percebemos nas suas palavras um força diferente de todas as outras, que se assemelha somente com o poder do Senhor narrada pelas Escrituras: o poder que no êxodo libertou Israel da escravidão para que aprendesse a pertencer-lhe na liberdade.

Das palavras que o homem possuído grita a Jesus compreendemos que a substância da impureza é o estranhamento doloroso e arrogante de qualquer outro diverso de si ao qual nos apelamos para a auto-preservação, forma pervertida da salvação como salvação dos outros.

Respiro de cada espírito impuro é o medo do outro, percebido a priori sempre contra nós. A rejeição de o encontrar, de o escutar é o sofrimento mordaz que cada espírito impuro que habita em nós nos causa, humilhando em nós o desejo mais profundo, que é precisamente o desejo do outro. Esta rejeição é apoiada em nós por um errado conhecimento do outro, que não procede da escuta e do encontro, mas a precede e impede, não respeitadora do mistério de si e do outro. Um conhecimento que, por autodefesa, procura e encontra imediatamente a debilidade do outro para o possuir e lhe fazer chantagem. Com efeito, onde está Jesus mais desarmado, mais vinculado à mansidão e à humildade a não ser na sua verdade de homem santo de Deus? Como Jesus, não devemos ceder a este conhecimento violento do outro, porque nunca criará comunhão.

Quem se sente possuído e agido, nem sequer consegue imaginar outra relação que não seja, por sua vez, possuir e agir o outro: que é exatamente o contrário da relação de amor.

A vocação humana nunca consiste em ser possuídos: nem sequer por Deus.

Com efeito, o Senhor com a sua palavra liberta-nos precisamente do espírito de escravidão, para que possamos pertencer-lhe na liberdade.

A nossa adesão ao Senhor é o espaço onde o nosso Deus nos chama para nos tornarmos seus parceiros na aliança com ele e com os outros, exortando-nos a ser ouvintes e falantes, e não surdos e falados, doando-nos a liberdade e, portanto, a responsabilidade, a possibilidade e a capacidade de responder.

Perante este pobre homem possuído Jesus revela e cumpre a santidade de Deus como capacidade infinita de comunhão. Diante de quem se apela ao estranhamento d’Ele, Jesus não se demonstra afastado. Sabe que absolutamente nada, nem sequer o nada, pode separar uma criatura do amor de Deus que a criou. E dá corpo a esta verdade de Deus: com a força da sua palavra dirige-se ao espírito impuro que desfigura aquele homem, o obriga ao silêncio e depois o afasta.

Roy Nachum, «Autorretrato»

Jesus enfrenta o desespero deste homem, não realiza o seu pedido, mas aquele mais profundo e não manifesto que está por detrás.

O Evangelho não omite o cansaço e o sofrimento que aquele homem suportou por ter sido libertado do isolamento, da inexperiência de qualquer comunhão que era a sua condição. Mas o encontro com Jesus revela que aquele não era o seu destino, assim como não o era o Egito para os judeus. Para Jesus ninguém está destinado ao estranhamento dele: a vocação de Jesus é precisamente a reconciliação consigo mesmo e com Deus de todas e de todos.

Não obstante sejamos seus inimigos, apelámos ao estranhamento dele e dos outros como à nossa única consistência, Jesus vem ao nosso encontro com a sua presença, a sua palavra, declara-nos, permanecendo, a sua impotência ao estranhamento seja de quem for, inclusive de mim. Aquele estranhamento, que é estranhamento de nós mesmos, o facto de não conseguirmos habitar nele, aquela distância que nunca acaba, Jesus não a nega mas abraça-a.

Esta maneira de ser e de agir de Jesus, vem ao nosso encontro na sua palavra e dirige-se a tudo o que está em nós, também ao que é contra todos e tudo. Porque o sopro que traz e que habita a sua palavra, o Espírito de Deus e de Jesus, é proximidade que abraça cada afastamento, cada estranhamento, e que interpela sempre o nosso desespero.

 

Edição em papel

 

AO VIVO

Praça De São Pedro

25 de Agosto de 2019

NOTÍCIAS RELACIONADAS