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O mercado não pode regular-se  sozinho sem critérios morais

· O Papa recebeu os membros da Pontifícia Academia das Ciências Sociais ·

A crise financeira mundial demonstrou que o mercado não é capaz de se regular sozinho, sem a intervenção pública e o «apoio dos critérios morais interiorizados», recordou o Sumo Pontífice aos participantes na décima sexta sessão plenária da Pontifícia Academia das Ciências Sociais, recebidos na manhã de 30 de Abril. No início do encontro, realizado na Sala do Consistório, o Santo Padre foi homenageado em nome dos presentes pela presidente da Pontifícia Academia, Professora Mary Ann Glendon, e sucessivamente dirigiu a todos estas palavras.

Estimados membros da Academia!

É-me grato saudar-vos no início da vossa décima sexta sessão plenária, dedicada a uma análise da crise económica global, à luz dos princípios éticos contidos na doutrina social da Igreja. Agradeço à vossa presidente, Professora Mary Ann Glendon, as suas amáveis palavras de saudação, enquanto lhe transmito os meus sinceros bons votos pela fecundidade das vossas deliberações.

Como sabemos, a crise financeira mundial demonstrou a fragilidade do actual sistema económico e das instituições que lhe estão vinculadas. Demonstrou inclusive o equívoco da convicção de que o mercado é capaz de se regular sozinho, separadamente da intervenção pública e sem o apoio dos critérios morais interiorizados. Esta convicção está alicerçada numa noção depauperada da vida económica, como uma espécie de mecanismo que se autocalibra, orientado pelo interesse próprio e pela busca do lucro. Como tal, ignora a natureza essencialmente ética da economia como uma actividade de e para os seres humanos. Em vez de ser uma espiral de produção e de consumo, em vista de necessidades humanas definidas de forma limitada, a vida económica deveria ser vista oportunamente como um exercício da responsabilidade humana, orientado de maneira intrínseca para a promoção da dignidade da pessoa, para a busca do bem comum e do desenvolvimento integral – político, cultural e espiritual – dos indivíduos, das famílias e das sociedades. Um apreço por esta dimensão mais plenamente humana exige, em contrapartida, precisamente o tipo de investigação e de reflexão interdisciplinar que agora a presente sessão da Academia empreendeu.

Na minha Carta Encíclica Caritas in veritate, observei que «a crise actual obriga-nos a projectar de novo o nosso caminho, a impor-nos regras novas e a encontrar novas formas de empenhamento» (n. 21). Naturalmente, projectar de novo o caminho significa também ter em consideração os padrões compreensivos e objectivos mediante os quais julgar as estruturas, as instituições e as decisões concretas que guiam e orientam a vida económica. Fundamentada na sua fé em Deus Criador, a Igreja afirma a existência de uma lei natural universal, que é o derradeiro manancial de tais critérios (cf. ibid., n. 59). No entanto, ela está igualmente convencida de que os princípios desta ordem ética, inscrita na própria criação, são acessíveis à razão humana e, como tais, devem ser adoptados como fundamento para as escolhas práticas. Como parte da grande herança da sabedoria humana, a lei moral natural, que a Igreja assimilou, purificou e desenvolveu à luz da revelação cristã, serve como farol para orientar os esforços dos indivíduos e das comunidades para buscar o bem e evitar o mal, enquanto dirige o seu compromisso em prol da edificação de uma sociedade autenticamente justa e humana.

Entre os princípios indispensáveis que plasmam uma semelhante abordagem ética integral da vida económica, devem estar a promoção do bem comum, alicerçada no respeito pela dignidade da pessoa humana e reconhecida como finalidade primária dos sistemas de produção e de comércio, assim como das instituições políticas e do bem-estar social. Nos nossos dias, a preocupação pelo bem comum tem adquirido uma dimensão mais acentuadamente global. E torna-se também cada vez mais evidente que o bem comum inclui a responsabilidade pelas gerações vindouras; por conseguinte, a solidariedade intergeracional deve ser reconhecida como o critério ético fundamental para julgar qualquer sistema social. Estas realidades indicam a urgência de fortalecer os procedimentos governamentais da economia global, todavia com o devido respeito pelo princípio de subsidiariedade. Mas no fim, todas as decisões e políticas económicas devem ser orientadas para a «caridade na verdade», uma vez que a verdade preserva e veicula o poder libertador da caridade nos acontecimentos e nas estruturas humanas, sempre contingentes. Pois «sem verdade, sem confiança e sem amor pelo que é verdadeiro, não há consciência nem responsabilidade social, e a actividade social acaba à mercê de interesses privados e lógicas de poder, com efeitos desagregadores na sociedade» ( Caritas in veritate, 5).

Dilectos amigos, com estas considerações exprimo mais uma vez a minha convicção de que esta sessão plenária contribuirá para um discernimento mais profundo dos sérios desafios sociais e económicos que o nosso mundo deve enfrentar, e ajudará a indicar o caminho em frente para responder a tais desafios num espírito de sabedoria, justiça e humanidade autêntica. Asseguro-vos mais uma vez as minhas preces por esta obra importante, e sobre vós e os vossos entes queridos, invoco cordialmente as Bênçãos divinas da alegria e da paz.

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10 de Dezembro de 2019

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