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O importante é a ação

· À descoberta de Lea Sestieri, pioneira do diálogo judaico-cristão ·

Lea Sestieri nasceu em Roma no dia 31 de maio de 1913, na casa da rua Catalana, depois cedida à comunidade judaica, onde sucessivamente morou Elio Toaff. Oriunda de uma família da burguesia judaica romana, Lea foi uma mulher de grande cultura, versada em muitos e diversos âmbitos.

Lea em Montevideu (arquivo privado)

Depois da formação clássica no liceu Visconti, estudou línguas semíticas na universidade La Sapienza, onde foi aluna de Umberto Cassuto e de Giuseppe Ricciotti. E foi por desejo de Cassuto que frequentou sucessivamente os cursos do Colégio Rabínico, tornando-se assim a primeira mulher a ser admitida nele, embora apenas como auditora. No mesmo período, trabalhava no colégio como bibliotecária.

Em 1935 casou-se com Umberto Scazzocchio, e estabeleceu-se com ele na Eritreia. O marido exercia a profissão de advogado, enquanto ela ensinava literatura no liceu italiano de Asmara, desempenhando também o cargo de conservadora dos manuscritos etíopes da Biblioteca estatal.

O filho Claudio nasceu em 1938 precisamente quando, com a entrada em vigor na Itália das leis raciais, Lea foi despedida do trabalho. Para ela foi um período de grande sofrimento, que superou com dificuldade. Todavia, recusou sempre dar lições particulares aos filhos dos membros do regime. Narrava: «Se não queriam que ensinasse na escola, certamente não ia ensinar na casa deles». Por fim, conseguiu emigrar e, juntamente com o marido e o filho, foi ter com o seu irmão Giuseppe, que já se tinha estabelecido no Uruguai. Foi uma da últimas partidas, em 1941, quando a guerra já tinha começado, de comboio de Roma através da França de Vichy, da Espanha franquista e de Portugal, onde finalmente puderam embarcar-se.

Os anos na América Latina, que duraram até 1967, foram de intensa atividade tanto intelectual quanto política. Durante a guerra, seu marido foi vice-presidente da associação dos exilados antifascistas, «L’Italia libera», e sucessivamente entrou na carreira diplomática. Lea ensinou literatura grega na universidade de Montevideu e também cultura bíblica junto das diversas instituições, fundou e dirigiu a revista sefardita «Amanacer» em judeu-espanhol e publicou numerosos escritos: Manuscritos del Mar Muerto (1960), Los libros deuterocanónicos y los manuscritos extrabíblicos de Qumrán (1961), Lengua y civilización micénica y el mundo de Homero (1966) e La poesia épica en la Biblia: el canto de Debora (1967).

No ensino tinha uma grande capacidade de transmitir e exercia um enorme carisma. Até há poucos anos, por ocasião dos seu cem anos, o filho Claudio contou que ainda encontrava pessoas em Montevideu que recordavam as suas lições.

Depois da guerra, Lea uniu o ensinamento universitário com o compromisso apaixonado no nascente diálogo judaico-cristão. Segundo quanto refere Marco Cassuto Morselli, um dos seus alunos preferidos, frequentou também – não sem alguma desconfiança – Monsieur Chouchani, um dos personagens mais misteriosos do judaísmo do século XX, venerado mestre de Talmud de Emmanuel Lévinas e Elie Wiesel, falecido em janeiro de 1968 em Montevideu, em cujo túmulo há um epitáfio ditado por Wiesel.

Lea colaborou também com Adei, a associação das mulheres judias, mas sem ênfase no feminino. Falando com ela nos anos seguintes, tinha-se a sensação que fosse além do feminismo, que o considerasse ultrapassado e obsoleto.

De 1968 a 1970 ensinou língua e literatura grega na universidade de Beer Sheva e italiano na universidade de Tel Aviv, ao passo que durante o último decénio da atividade profissional do marido viveu com ele em Locarno.

Em 1979 regressaram a Roma onde Umberto faleceu dois anos mais tarde. A atividade de Lea Sestieri intensificou-se ulteriormente: ensinou judaísmo pós-bélico na Pontifícia universidade Lateranense, dirigiu a coleção «Radici» para a casa editora Marietti, foi uma das fundadoras da Amizade judaico-cristã de Roma, além de dar palestras e desempenhar uma intensa atividade como publicista.

Padre Innocenzo Gargano, monge camaldulense, foi uma das pessoas mais próximas de Lea na nascente organização dos diálogos judaico-cristãos de Camaldoli. Por cerca de dez anos Lea e padre Innocenzo animaram um grupo de estudo romano caraterizado por encontros semanais. Liam-se os textos dos mestres judeus e dos Padres da Igreja. «O espírito de amizade criado por Lea consentia-nos novas perspetiva de leitura – recorda padre Innocenzo – das quais eu obtinha um enriquecimento extraordinário».

Pertencem ao período romano outros numerosos escritos: Gli ebrei nella storia di tre millenni (1980), Le chiese cristiane e l’ebraismo (1983, em colaboração com Giovanni Cereti), La spiritualità ebraica (1987), David Reubeni. Un ebreo d’Arabia in missione segreta nell’Europa del Cinquecento (1991). Um livro, o último, anómalo no conjunto da sua produção, estudo histórico dedicado a reconstruir com rigor a figura do pretendente profeta David Reubeni, aventureiro que chegou do Oriente à Itália em 1524 e falecido, depois de vicissitudes incríveis, em 1538 pelas mãos da Inquisição espanhola. Um volume livre de indulgências em relação aos aspetos messiânicos da aventura de Reubeni e do seu companheiro Molho, até um pouco irónico, inspirado por um espírito quase iluminista.

A última obra de Lea foi Ebraismo e cristianesimo. Percorsi di mutua comprensione (2000), livro que reúne as suas conferências e lições, pensadas para fortalecer e, nalguns casos, criar uma relação de compreensão e de aproximação.

O ápice deste caminho árduo foi para Lea a visita de João Paulo II a Israel no dia 23 de março de 2000, auspício de um diálogo cada vez mais intenso de ambas as partes.

Naquela ocasião escreveu: «Segundo o meu ponto de vista - que desde há cerca de cinquenta anos dedico grande parte do meu tempo à reconciliação entre judeus e cristãos, procurando fazer conhecer aos não judeus quem somos nós e o que é o judaísmo que praticamos e vivemos, tanto os ortodoxos quanto os leigos - deveríamos mais uma vez enfrentar ressentimentos e conflitos; todavia sinto, com a minha sensibilidade de pessoa comprometida, que os passos trémulos do Papa em Israel são passos cujas pegadas não podem ser canceladas e que devem fazer parte intrínseca da Igreja cristã em geral na sua reconciliação com quem lhe ofereceu raízes sem as quais não teria podido nascer».

Lea com o filho Claudio Scazzocchio por ocasião das celebrações dos seus noventa anos.O seu interesse pelos textos bíblicos e pelo judaísmo, aquela que ela chamava a sua «hebraização», nunca se transformou contudo num percurso religioso de vida. Sentia-se e era profundamente leiga, e sabia também encontrar as palavras para o dizer: «Quanto mais a minha hebraicidade se radicalizava quanto mais a minha laicidade ganhava consistência» afirmava, recordando por ocasião da celebração dos seus noventa anos os estudos no Colégio rabínico muitos anos antes. «O importante para mim foi cumprir durante o meu longo caminho os ensinamentos que tinha recebido naquela altura através do diálogo com os meus mestres, com os meu companheiros, independentemente se estes ensinamentos sejam de origem humana ou divina. O importante é a ação».

Uma ação à qual Lea Sestieri nunca renunciou, pelo menos até quando as forças declinantes de uma velhice muito prolongada não lho impediram. Na sua contínua e constante atividade no diálogo inter-religioso, levada em frente sobretudo com grande liberdade intelectual e escuta do outro. Mas também na profundidade dos seus estudos históricos e bíblicos, que se tornavam mediante as suas palavras apoio ao diálogo, ao encontro, sem nunca perder a sua espessura.

Uma mulher – e pensamos que quantos, como nós, a conheceram e frequentaram não podem deixar de concordar – deveras notável, um espírito livre e aberto ao mundo inteiro.

Anna Foa e Giovanna Grenga

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12 de Novembro de 2019

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