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O fogo interior

Lucas 12, 49-53

Jesus está em viagem rumo a Jerusalém, rumo ao lugar onde se cumpre o seu destino, e mais uma vez aos seus discípulos de então, bem como a nós, discípulos e ouvintes de hoje, quer recordar a meta desta viagem: a sua morte e a sua ressurreição. Deste modo, Jesus revela o caminho para a existência do discípulo, enche-a de conteúdo e define tal existência como um «segui-lo», e um segui-lo no seu amar até ao fim. Também este trecho do evangelista Lucas — que julgamos inconveniente, por vezes duro, talvez um pouco inoportuno e fora do tempo, e que nos sentiríamos tentados a omitir ou a suavizar — também ele indica alguns passos deste seguimento.

Duccio di Buoninsegna, «Aparição aos apóstolos» (1308-1311, detalhe)

«Vim para lançar fogo sobre a terra». De que fogo se trata, podemos questionar-nos? Há um fogo que Jesus desaprova desdenhosamente. Aquele que Jesus veio trazer não é um fogo devorador; ele afasta-se daqueles que querem lançar o fogo da dureza e do juízo, aquele que tinha sido invocado por Tiago e João poucos capítulos antes, indignados com a rejeição da hospitalidade num povoado de Samaritanos (cf. Lucas, 9, 54). O seu fogo é interior, o mesmo que ardia no coração dos profetas e que Jeremias confessa que possui, «um fogo ardente, encerrado nos seus ossos, irrefreável» (cf. Jeremias, 20, 7-9): é o fogo, a paixão pela palavra de Deus. Este é o fogo que Jesus gostaria de acender para transformar os nossos corações de pedra em corações de carne: a paixão por Deus e a paixão pelo próximo, pela face de Deus e pelo rosto do outro, um único fogo, uma única paixão; a paixão por Deus, fogo ardente, aquele zelo pela sua casa que um dia levou Jesus a expulsar os mercadores do templo. É este o fogo que Jesus quer: o fogo que queima as falsas imagens religiosas de uma fé reduzida a mercado. Fogo é inclusive o Espírito derramado pela cruz, depois da sua morte, fogo que habita em cada um de nós e que procura encontrar espaço e luz para iluminar e libertar as nossas vidas. Mas precisamente este fogo que o devora torna-se causa de divisão, de incompreensão para muitos.

Duccio di Buoninsegna, «Cristo despede-se dos discípulos» (1308-1311)

«Julgais que eu vim para trazer paz sobre a terra? Não, digo-vos, mas divisão». Jesus teria vindo à terra para isto? Ele, o manso, o humilde de coração, que no início do seu ministério se tinha apresentado como Aquele que fora enviado para proclamar o feliz anúncio aos pobres? Jesus veio como homem de paz, mas exatamente o seu viver o amor incondicional até ao extremo provocou o efeito oposto, transformando-se para muitos num sinal de contradição, uma pedra de tropeço. Com as suas palavras e as suas ações, Jesus torna-se um divisor de águas que põe em crise os vínculos familiares, os relacionamentos mais naturais de cada vida humana. A oposição que tocou a existência de Jesus há de tocar também a vida dos seus discípulos: os seus familiares consideram-no louco e vão no seu encalço porque não conseguem compreender (cf. Marcos, 3, 21), mas Ele não cede a compromissos e, com força, opõe-se a eles dizendo que «a sua mãe e os seus irmãos são aqueles que ouvem e põem em prática a palavra de Deus» (cf. Lucas, 8, 20-21). O seguimento é exigente, pede-se-nos que consideremos, que verifiquemos e que escolhamos, como um bom construtor de torres ou um ótimo estrategista em guerra, se começar ou não a viagem com Ele; durante a viagem, trata-se de lutar cada dia a fim de morrer para si mesmo e viver somente em Deus e para Deus, fazendo com que a renúncia ao que não é essencial, àquilo que nos estorva e nos distrai da meta, se torne o símbolo de toda a nossa existência. A batalha é quotidiana, mas a finalidade desta guerra é a conquista daquela paz e alegria que nada e ninguém poderá tirar-nos, e a aprendizagem do dom de si, o verdadeiro amor. O objetivo, o ponto de chegada é a caridade, a única que pode dar a força de realizar finalmente a morte para nós mesmos, a fim de vivermos em Deus; a meta é a caridade autêntica, que é ao mesmo tempo e indissoluvelmente amor a Deus e amor ao próximo.

pelas irmãs de Bose

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7 de Dezembro de 2019

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