Nota

Este site utiliza cookies...
Os cookies são pequenos arquivos de texto que ajudam a melhorar a sua experiência de navegação no nosso site. Ao navegar em qualquer parte deste site você autoriza a utilização dos cookies. Poderá encontrar maiores informações sobre a policy dos cookies nas Condições de utilização.

O estilo de Paula

· A santa do mês descrita por Carla Mosca ·

Curioso foi o destino de Paula, santa certamente celebrada pelas suas numerosas virtudes, contudo sempre com o ar de a colocar um passo atrás em relação a outrem. De modo particular, a dois homens. Com efeito, no calendário dos santos, no dia 26 de Janeiro é possível encontrá-la enquadrara como viúva. Condição que em geral, a não ser que se trate de uxoricídio, não poderia parecer mais passiva: como se, falecendo de maneira prematura, tivesse sido precisamente o amado marido que lhe conferiu relevo. Qualidade que, além disso, Paula já possuía abundantemente.

Paula romana (pintura florentina do século XIV)

Tendo nascido em Roma, em 347, pertencia a uma família cristã de riqueza incomensurável e de altíssima linhagem. Recebeu uma educação muito requintada. Quando tinha quinze anos contraiu matrimónio com Toxócio, rico e culto, também ele nascido numa família daquelas que contam. Era pagão, mas muito tolerante em relação à religião cristã, de tal forma que Paula podia praticar a sua fé com toda a paixão, sem que fosse perturbada a harmonia conjugal. Teve quatro filhas (Paulina, Eustóquia, Blesila e Rufina), e finalmente um menino, que recebeu o mesmo nome do pai.

Uma capacidade instintiva de harmonizar os opostos distinguia-a das outras matronas romanas da sua classe. Com efeito, vivia a sua condição social sem renunciar a qualquer um dos símbolos que ela comportava, e aliás, apreciava-os todos explicitamente. No entanto, apesar do uso frívolo da sua imensa riqueza, nada jamais lhe impediu de prestar uma atenção caritativa, concreta e constante aos últimos. Ela também não gostava de medir o poder e o prestígio, maltratando servas e famílias, hábito hediondo muito difundido entre as matronas romanas que, por isso, foram objecto de ironias pesadas por parte de Juvenal.

Em síntese, uma mulher complexa que no entanto não se limitava a proteger os humildes, enquanto de bom grado respondia aos prazeres do mundo. No íntimo de Paula, agitava-se cada vez mais a tentação de olhar para mais além, um desejo de mortificação e de ascetismo, a aspiração a uma vida de renúncias. Impulsos indistintos, mas não demasiado, que a induziam a levantar continuamente o olhar para o Aventino onde, no seu maravilhoso palácio, a aristocrática Marcela (também ela futura santa) tinha criado um cenáculo de viúvas e de virgens de elevada linhagem. Por conseguinte, para Paula foi natural refugiar-se junto de Marcela quando, com 33 anos, lhe foi infligida a perda do amado Toxócio. Conhecemos o seu sofrimento pungente através de Jerónimo, que deve ser considerado o seu verdadeiro biógrafo que, por ocasião da morte de Paula, em 406, pronunciou uma das orações fúnebres mais apaixonadas e minuciosas que nos é dado ler. Sofria de tal forma pela sua morte, que só conseguiu compor o elogio alguns meses mais tarde, esforçando-se acima de tudo por consolar Eustóquia, única filha que sobreviveu à sua mãe. «Quando o marido lhe veio a faltar, chorou-o até quase a morrer ela mesma» escreve Jerónimo, para depois acrescentar a singular observação de que «o estilo com que em seguida se dedicou ao serviço do Senhor dava a impressão de ter desejado a sua morte».

Sim, o estilo. O estilo de Paula. O único que conhecia, o único que queria conhecer, era o excesso: aquela mistura de loucura, paixão e entrega de si em cuja ausência, ou medida calculada, não é possível alcançar santidade alguma. Narra ainda Jerónimo que Paula distribuiu aos pobres quantidades enormes das suas riquezas, e que disto os parentes lhe davam a culpa: de tal modo, defraudava os seus filhos. Mas ela não ouvia os conselhos, e respondia que lhes deixava uma herança muito mais importante: a misericórdia de Cristo.

Paula tinha conhecido Jerónimo precisamente no cenáculo de Marcela onde, precedido pela fama de grande biblista, o monge chegara proveniente de Constantinopla em 382, por ocasião do sínodo convocado por Dâmaso. No final do sínodo, o Papa quis que ele ficasse em Roma, confiando-lhe delicadas traduções de textos bíblicos e o cargo de responder em seu nome a muitas das questões sapienciais que lhe eram apresentadas. A sorte de Jerónimo e o prestígio das responsabilidades que lhe foram confiadas suscitaram muitíssimas invejas. E precisamente naquele período Marcela convenceu-o a tornar-se director espiritual do cenóbio: dispensando a sua sabedoria, teria fortalecido os fundamentos da educação religiosa das piedosas mulheres. Aluna perfeita, Paula aprendeu rapidamente o hebraico e, mais do que as outras, conseguia enriquecer o espírito e a mente, movendo-se habilmente entre as dissertações bíblicas do filólogo. Com ela no Aventino já se encontrava Eustóquia, que a teria seguido em todas as peregrinações, e a elas depressa se uniu também Blesila, viúva depois de poucos meses de matrimónio, que quis imitar a sua mãe na paixão e na prática da ascese a tal ponto que muito cedo, desgastada, acabou por morrer.

Entretanto, em Roma a fama de Jerónimo começava a esvaecer-se e, com ela, a sua sorte. De resto, durante a vida inteira ele foi objecto de polémicas doutrinas, e por sua vez ele mesmo participava em debates de todos os tipos sobre os temas que lhe eram queridos, com insistência e às vezes até com fúria. Quando o Papa faleceu, compreendeu que sem a sua protecção para ele viver em Roma teria sido verdadeiramente difícil, e então decidiu voltar para o Oriente. Parece que Paula não esperava outra decisão: podia permitir-se, e por conseguinte partiu. Mais uma vez árbitra de si mesma, determinada como sempre. Partiu com a fiel Eustóquia naturalmente.

Inequívoca e imediata a decisão de se estabelecer em Belém, onde teria vivido durante cerca de vinte anos, onde faleceu com 59 anos. Também não quis secundar Jerónimo, quando — desgastado pelas disputas doutrinais, pelas calúnias sobre o seu trabalho de tradutor das Escrituras e pela ameaça de permanecer sem uma casa — decidiu deixar Belém. Apesar de ser devota, Paula foi inflexível, impedindo-lhe que o fizesse.

Como dissemos, era uma mulher complexa. E com efeito, não obstante perenemente orientada para outro mundo, era dotada também de pragmatismo e de sentido prático. Imediatamente mandou que se começassem a construir dois mosteiros, cada qual com a respectiva igreja, um feminino e o outro masculino. Neste pôde estabelecer-se Jerónimo com o seu grupo de colaboradores. Ali, sustentado economicamente por Paula, conseguiu dedicar-se de maneira sistemática e continuada aos estudos bíblicos, o que seria impossível se se tivesse posto em viagem, como ameaçara. Ali, sob a protecção de Paula — porque era disto que se tratava — traduziu a Escritura em língua latina, tendo como base os textos originais em grego e hebraico. Assim foi possível que a Bíblia chegasse até nós numa versão maravilhosa.

Quem conhece a vida e as obras de Paula gosta de pensar, com uma certa razão fundada, que a Vulgata se deve em parte também a ela. Ela, que desempenhou um papel de primeiro plano na vida dele: pela salvaguarda que concedeu ao seu protector; pela determinação com a qual dirigiu o seu director espiritual (mantendo-o muito firme nisto) em vista da grande tarefa para a qual ele estava chamado.

Jornalista muito conhecida da Rai, Carla Mosca ocupou-se durante muito tempo de crónica judiciária. Juntamente com Mario Moretti e Rossana Rossanda escreveu Brigate rosse. Una storia italiana (Mondadori, 2007). 

Edição em papel

 

AO VIVO

Praça De São Pedro

8 de Dezembro de 2019

NOTÍCIAS RELACIONADAS