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O beneditino que nada antepôs ao amor de Cristo

· Homilia do Sumo Pontífice para as exéquias do cardeal Paul Augustin Mayer ·

O cardeal Angelo Sodano, decano do Colégio cardinalício, celebrou na segunda-feira 3 de Maio, no altar da cátedra da basílica vaticana as exéquias do cardeal beneditino Paul Augustin Mayer falecido em Roma no dia 30 de Abril. No final da missa, Bento XVI dirigiu um discurso aos presentes e presidiu ao rito da Ultima commendatio e da Valedictio. Concelebraram com o cardeal decano 24 purpurados, entre os quais o secretário de Estado Bertone e o arcebispo de Colónia Meisner. Publicamos as palavras do Santo Padre.

Venerados Irmãos

Ilustres Senhores e Senhoras

Queridos irmãos e irmãs!

Também para o nosso amado Irmão Cardeal Paul Augustin Mayer chegou a hora de deixar este mundo. Ele nasceu há quase um século na minha terra, precisamente em Altötting, onde se localiza o célebre Santuário mariano ao qual estão ligados muitos dos nossos afectos e recordações bávaros. Este é o destino da existencia humana: floresce da terra – num ponto exacto do mundo – e é chamada para o Céu, a pátria da qual misteriosamente provém. «Desiderat anima mea ad te, Deus» (Sl 41/42, 2). Neste verbo «desiderat» está o homem todo, o seu ser carne e espírito, terra e céu. É o mistério originário da imagem de Deus no homem. O jovem Paul – que depois como monge passou a chamar-se Augustin Mayer – estudou este tema nos escritos de Clemente Alexandrino, para o doutorado em teologia. É o mistério da vida eterna, depositado em nós como uma semente desde o Baptismo, e que pede para ser acolhido ao longo da viagem da nossa vida, até ao dia no qual entregamos o espírito a Deus Pai.

«Pater, in manus tuas commendo spiritum meum» (Lc 23, 46). As ùltimas palavras de Jesus na cruz guiam-nos na oração e na meditação, enquanto estamos reunidos ao redor do altar para dirigir a extrema saudação ao nosso saudoso Irmão. Todas as nossas celebrações exequiais se colocam sob o sinal da esperança: no ùltimo suspiro de Jesus na cruz (cf. Lc 23, 46; Jo 19, 30), Deus doou-se inteiramente à humanidade, preenchendo o vazio aberto pelo pecado e restabelecendo a vitória da vida sobre a morte. Por isso, cada homem que morre no Senhor participa pela fé neste acto de amor infinito, de qualquer modo entrega o espírito juntamente com Cristo, na esperança certa de que a mão do Pai o ressuscitará dos mortos e o introduzirá no Reino da vida.

«A esperança não engana – afirma o apóstolo Paulo, escrevendo aos cristãos de Roma – porque o amor de Deus foi derramado nos nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado» ( Rm 5, 5). A grande e indefectível esperança, fundada sobre a sólida rocha do amor de Deus, garante-nos que a vida de quem morre em Cristo «não é tirada, mas transformada»; e que «enquanto se destrói a morada deste exílio terreno, prepara-se uma habitação eterna no céu» ( Prefácio dos Defuntos, i). Numa época como a nossa, na qual o medo da morte lança muitas pessoas no desespero e na busca de consolações ilusórias, o cristão distingue-se pelo facto de que põe a sua segurança em Deus, num Amor tão grande que é capaz de renovar o mundo. «Eu renovo todas as coisas» ( Ap 21, 5), declara – quase no final do Livro do Apocalipse – Aquele que está sentado no trono. A visão da nova Jerusalém exprime a realização do desejo mais profundo da humanidade: viver juntos na paz, sem a ameaça da morte, gozando a plena comunhão com Deus e entre nós. A Igreja e, em particular, a comunidade monástica, constituem uma prefiguração sobre a terra desta meta final. É uma antecipação imperfeita, marcada pelos limites e pelos pecados, e por conseguinte precisa sempre de conversão e purificação; e, contudo, na comunidade eucarística sente-se já a vitória do amor de Cristo sobre o que divide e mortifica. «Congregavit nos in unum Christi amor» – «O amor de Cristo reuniu-nos na unidade»: é o lema episcopal do nosso venerado Irmão que nos deixou. Como filho de São Bento, experimentou a promessa do Senhor: «Quem vencer receberá estas coisas como herança; Eu serei seu Deus e ele será meu filho» ( Ap 21, 7).

Formado pela escola dos Padres Beneditinos da Abadia de São Miguel em Metten, em 1931 emitiu a profissão monástica. Em toda a sua existencia procurou realizar o que São Bento diz na Regra: «Nada se anteponha ao amor de Cristo». Depois dos estudos em Salisburgo e em Roma, empreendeu uma longa e apreciada actividade de ensino no Pontifício Ateneu Santo Anselmo, do qual se tornou Reitor em 1949, desempenhando este encargo por 17 anos. Exactamente naquele período foi fundado o Pontifício Instituto Litùrgico, que se tornou um ponto de referencia fundamental para a preparação dos formadores no campo da Liturgia. Após o Concílio, foi eleito Abade da sua amada Abadia de Metten e desempenhou tal encargo por 5 anos, e em 1972 o Servo de Deus Paulo VI nomeou-o Secretário da Congregação para os Religiosos e os Institutos Seculares e quis ordená-lo Bispo pessoalmente a 13 de Fevereiro de 1972.

Durante os anos de serviço nessa Congregação promoveu a actuação progressiva das disposições do Concílio Vaticano II, relativas às famílias religiosas. Neste âmbito particular, na sua qualidade de religioso, demonstrou uma acentuada sensibilidade eclesial e humana. Em 1984, o Venerável João Paulo II confiou-lhe o encargo de Prefeito da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, criando-o Cardeal no Consistório de 25 de Maio de 1985 com o Título de Santo Anselmo no Aventino. Em seguida, nomeou-o primeiro Presidente da Pontifícia Comissão «Ecclesia Dei» ; e também neste novo e delicado encargo o Cardeal Mayer confirmou-se zeloso e fiel servidor, procurando aplicar o conteùdo do seu lema: «O amor de Cristo congregou-nos na unidade».

Amados Irmãos, a nossa vida em cada instante está nas mãos do Senhor, sobretudo no momento da morte. Por isso, com a confiante invocação de Jesus na cruz: «Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito», queremos acompanhar o nosso Irmão Paul Augustin, enquanto realiza a sua passagem deste mundo para o Pai. Neste momento o meu pensamento não pode deixar de se dirigir para o Santuário de Nossa Senhora das Graças de Altötting. Espiritualmente voltados para aquele lugar de peregrinação, confiemos {l-racute} Virgem Santa a nossa oração de sufrágio pelo saudoso Cardeal Mayer. Ele nasceu próximo daquele Santuário, conformou a sua vida com Cristo segundo a Regra beneditina e morreu {l-racute} sombra desta Basílica Vaticana. Nossa Senhora, São Pedro e São Bento acompanhem este fiel discípulo do Senhor ao seu Reino de luz e de paz. Amém.

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16 de Setembro de 2019

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