Nota

Este site utiliza cookies...
Os cookies são pequenos arquivos de texto que ajudam a melhorar a sua experiência de navegação no nosso site. Ao navegar em qualquer parte deste site você autoriza a utilização dos cookies. Poderá encontrar maiores informações sobre a policy dos cookies nas Condições de utilização.

Nunca minto

· Reparata, santa do mês, narrada por Daria Bignardi ·

Anunciada não queria deixar a Palestina, por isso atrasamos a partida, enquanto Honorata, Imaculada, Consolata, Fortunata e Dolorosa aceitaram imediatamente: elas ouvem-me sempre, embora eu seja a irmã mas pequenina. Consolata chama-me «a nossa pequena estrela» e diz que quando nasci havia um cometa no céu da Palestina, ainda mais pequenina que aquela que apareceu quando nasceu Jesus, mas existia – diz – embora nenhuma das outras irmãs se lembre dela.

Honorata é mais prática: compreendeu imediatamente que o imperador queria humilhar-nos publicamente, e esforçou-se para partir depressa. Preparou bolos ázimos, um pequeno frasco de azeite, calçados de qualidade, vestes e um pouco de ouro que nos deixaram os nosso nobres pais.

Andrea Pisano, «Santa Reparata» (Museo dell’Opera del Duomo, Florença)

Imaculada não via a hora de levar pelo mundo a Palavra. Dolorosa, ao contrário, tinha medo. Fortunata não acreditava que Décio teria feito aquilo que anunciava, mas sentia que o nosso tempo em Cesareia terminara desde que os nossos pais morreram. Já então tinha dito que deveríamos partir: Fortunata sente as coisas antes que aconteçam, mas se não a ouves imediatamente não as volta a repetir.

O imperador falava aos piores instintos, esperava restaurar o seu poder perseguindo os cristãos, mas acabou pior do que nós.

Os ignorantes são numerosos, pobre gente que tem medo. É preciso ter conhecido o amor, para o saber dar e receber, e eu só sinto pena de quem não acredita no amor de Cristo. Chamam-lhe pax deorum mas a Caio Mésio Quinto Trajano Décio nada importava sobre Júpiter e Marte ou Diana e Juno: ele queria o poder na terra, mesquinho, e para o não perder era capaz de qualquer crime. Era um homem que pertencia à aristocracia, não como o Árabe, contudo o estrangeiro Filipe foi menos cruel do que ele.

Mas mandar-me matar não lhe serviu para nada: Décio morreu poucas semanas depois de mim. Os godos queriam restituir o despojo e ir embora, mas ele queria decididamente destruí-los. Assim, na batalha de Abrittus, perdeu não só a vida e o império, mas também a descendência, o filho Herénio Etrusco, trespassado por uma seta.

Dizem que aquando da notícia da morte de Herénio, para consolar os soldados, Décio disse: “Ninguém fique triste, a perda de um único homem não deve impedir as forças da República”, mas depois atacou o inimigo procurando vingança, talvez a morte. E foi a primeira vez que um imperador romano morreu por mão de um inimigo estrangeiro.

Honorata conseguiu fugir com as outras irmãs: tinha dito a todas que nos teríamos encontrado no Horto grande, debaixo da figueira, de madrugada. Eu pensava deveras conseguir ir, não menti, nunca minto. Enquanto me batiam, censuraram-me também isso, diziam que eu era soberba, arrogante, e riam. Agora que já morri posso admiti-lo: a dor é obscena.

Não a morte: começamos a morrer no momento em que nascemos, a morte é santa e natural como a vida, mas viver mais cinco ou cinquenta anos a mais ou a menos nada muda perante a eternidade. A tortura é horrível e humilhante: teria feito qualquer coisa para que parassem, menos renegar a Deus ou atraiçoar as irmãs. Fingiam estar zangados porque eu não honrava os Deuses Harmoniosos mas eu sabia que só queriam demonstrar ao povo a força de Décio.

Um batia em mim com uma vara de videira. Outro, apertava os meus seios. Felizmente, o terceiro soldado atordoou-me com um golpe de clava, que me matou. Penso que o fez por piedade, tinha um olhar diferente dos outros, mais triste.

Alguém disse que me cortaram a cabeça e colocaram o meu corpo num barco, e que os anjos o levaram para Nice. O episódio da cabeça é verdadeiro, o do barco não, ou pelo menos o cadáver no barco não era o meu. Não me levaram para nenhum dos lugares que mencionaram, nem para Nice, nem para Atri, nem para Teano: fiquei sempre aqui, na terra amarela da Palestina, e aqui ficarei até ao dia da ressurreição. Desde então já vi muitas meninas assassinadas, nesta terra de sofrimento e santa, muitas eram ainda mais pequeninas do que eu, que já tinha completado doze anos.

E ainda, como então, fingem que assassinam em nome de Deus. Pior ainda faz quem se suicida e mata invocando o Deus que não existe, pensando no paraíso que não existe: só Cristo nos ama verdadeiramente, tanto hoje como então.

Felizmente, todas as minhas irmãs levaram pelo mundo a palavra de Jesus, até chegar à Itália e à França. Esta é a minha consolação, não o martírio, não. O martírio é inútil.

Nunca mais voltaram para Palestina, apenas eu, Reparata, fiquei aqui, poeira nessa terra e entre estas pedras que há quase dois mil anos são o meu túmulo.

Jornalista sobretudo televisiva – há cerca de dez anos conduz o programa “Le invasioni barbariche” no canal La7 – Daria Bignardi (1961) é autora de diversos livros traduzidos em várias línguas, entre os quais Non vi lascerò orfani (2009), L’acustica perfetta (2012), L’amore che ti meriti (2014), Santa degli impossibili (2015).

Edição em papel

 

AO VIVO

Praça De São Pedro

14 de Dezembro de 2019

NOTÍCIAS RELACIONADAS