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Nunca erra a data
do meu aniversário



· Alicia B., Liliana e Alicia O. narram a amizade delas com o Papa Francisco ·

Experimentar. Não será só isto uma terapia, sem dúvida, mas é um bom início. Colocar-se no lugar do outro. É este o pensamento, o fio que une Alicia B., Liliana e Alicia O. ao Papa Francisco. Tentar viver totalmente a realidade da pessoa pobre, humilhada e assustada. Impossível? Não, pode ser feito.

Foi isso que fez Alicia Barrios quando, em menos de vinte e quatro horas, mudou a sua vida e iniciou a sua peregrinação nos lugares das privações com o padre Jorge: nas prisões de Buenos Aires, nos bairros pobres, no hospital psiquiátrico de Borda, a última fronteira da privação mental no País da América do sul.

Alicia é uma conhecida jornalista argentina , uma espécie de Oprah Winfrey do rádio e da televisão local. Bonita, rica, com uma carreira no centro das atenções, no dia 25 de Dezembro de 1999 encontrou pela primeira vez o arcebispo de Buenos Aires. Alicia Barrios ficou impressionada com a sua visão da situação da Argentina e do mundo, com a ideia do papel e do futuro da Igreja e com a atitude e a linguagem de extrema simplicidade que caracterizavam Jorge Mario Bergoglio.

E assim, passo a passo, etapa após etapa partilhou durante quinze anos como “jornalista peregrina” um percurso dentro das chagas da dor nas “periferias existenciais” acariciando o desconforto. Tentando narrar e apresentar os factos de modo diverso. «O jornalista é como o padre – afirma Alicia – deve receber a chamada, a vocação, e sentir a missão».

Jorge Mario Bergolglio, continua a mulher, «é uma pessoa com um grande sentido de humor e continua a tê-lo também como Pontífice. É um homem manso, sóbrio e acessível. É realmente assim. Uma pessoa directa, habituada a não ter muitos filtros entre ele e as pessoas. Pessoalmente, quando o reencontro, encontro a mesma pessoa que conheci há anos: com aquela coerência entre fé e vida, e também uma grande sensibilidade e capacidade de ouvir. Era um cardeal que era padre e agora é um Papa que é padre. Com certeza vê as coisas com o mesmo olhar. Porém, como diz o meu amigo padre Pepe, achei-o mais jovem. Isto é evidente, há nele uma energia, uma força que está na origem da estupefacção que provoca em todos nós».

E é sobretudo claro, continua Alicia Barrios, «que esta energia que caracteriza Bergoglio não é o fruto de um esforço ou do entusiasmo com a função que recebeu, mas é o fruto que brota de uma paz, da paz do coração. Isto é o que comunica logo. É evidente que o seu coração está abraçado e é levado nos braços da ternura de Jesus, e ele não quer dizer ao mundo mais nada além disto».

Liliana é a amiga cartonera do Papa Francisco. Tem cinquenta e oito anos e uma pensão social mínima. O dinheiro não chega. De noite recolhe cartão: na Argentina são os mais pobres, aqueles que para ganharem a vida revendem de manhã as sobras recicláveis do lixo. «Faço-o – explica – pelo meu filho e pelos meus netos, sabe-se lá se a Nossa Senhora não me ajude a arrumá-los todos».

Bergoglio é o Papa dos cartoneros. É uma das batalhas históricas a do reconhecimento dos seus direitos conduzida pelos grupos da associação situada no bairro Parque Avellaneda, na parte sudeste da cidade, um dos mais populares de Buenos Aires. Liliana recorda que o Papa Francisco, quando era arcebispo, esteve activamente ao lado deles em muitas iniciativas que tomaram a favor da inclusão social dos cartoneros e pelo reconhecimento jurídico do trabalho deles.

«Jorge Mario Bergolglio é uma pessoa que luta pelos pobres e vive como os pobres, ficamos amigos naquele período. Tem uma memória incrível – diz a Liliana e a sua voz está cheia de estima – nunca erra a data do meu aniversário. Nunca teve um carro nem escolta, come pela estrada e sempre viveu de modo coerente com o que pensa e o que diz. Jorge fez da defesa de nós pobres a sua razão de viver», conclui.

Depois há Alicia Oliveira que conhece o Papa Francisco há mais de quarenta anos e tornou-se, em 1973, a primeira mulher juíza do foro penal argentino. Três anos depois houve o golpe militar e a jovem Oliveira, expulsa do cargo, foi perseguida pelos militares.

«Fiquei desocupada. Depois que me mandaram embora, Bergoglio enviou-me um lindíssimo maço de rosas. Encontrávamo-nos duas vezes por semana. Ele acompanhava os sacerdotes, eu estava sempre informada por ele sobre tudo o que acontecia». Alicia narra também uma história ligada àqueles anos de chumbo. «Quando alguém devia ir embora do País porque não podia ficar aqui nem mais um minuto, fazia-se um almoço de despedida. Ele estava sempre presente».

Alicia Oliveira fala muitas vezes ao telefone com o Papa, sente-se emocionada por ter «um amigo» tão importante e recorda quando celebrou o casamento da irmã dela. É uma melhor empenhada na política, muito moderna. Tem por volta de sessenta anos e quatro filhos, um matrimónio às costas e considera-se progressista. O sentido da justiça foi desde sempre o motor da sua vida. «Quando penso em Bergoglio, admiro e partilho uma coisa do homem – diz Alicia – a convicção que as certezas absolutas são o refúgio de quem tem medo e quem se esconde no fundamentalismo é uma pessoa que tem medo de meter-se em caminho para procurar a verdade».

São elas as velhas amigas do Papa, muito diversas entre elas mas muito semelhantes a muitas outras mulheres.

Silvina Pérez

Edição em papel

 

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17 de Outubro de 2019

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