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Novos trabalhadores para a vinha do Senhor

· Entrevista ao cardeal Grocholewski ·

Setenta anos ao serviço de uma missão de importância vital para a Igreja: a promoção das vocações. Para celebrar este aniversário significativo a Pontifícia Obra para as Vocações Sacerdotais organizou em Roma um congresso, no contexto do qual emergiram dados eloquentes sobre o trabalho realizado neste período: o mais evidente é o aumento das vocações em diversas áreas do mundo. Falámos sobre estes argumentos com o cardeal Zenon Grocholewski, prefeito da Congregação para a Educação Católica, da qual faz parte a Obra. Entre os objectivos para o futuro, indicados pelo cardeal nesta entrevista ao nosso jornal, está o desejo de oferecer novos trabalhadores para a vinha do Senhor no momento em que o Papa pede um empenho particular pela nova evangelização.

Como e com que finalidade nasceu a Pontifícia Obra para as Vocações Sacerdotais?

Foi instituída por Pio XII com o motu proprio Cum nobis. Em seguida foram emanados os estatutos e as normas executivas pela então Sagrada Congregação para os Seminários. No acto de criação foi-lhe atribuída a finalidade de promover as vocações sacerdotais em toda a Igreja. Portanto, ela obteve a faculdade de agregar pessoas físicas e realidades associativas que trabalhavam neste âmbito. A sua tarefa era cuidar da instituição e da incrementação, nas Igrejas locais, das actividades específicas para promover as vocações, como as iniciativas de oração pelas vocações, o apoio aos seminários, os estudos e as publicações, a realização de congressos e assim por diante. Por conseguinte, desde a sua criação, a Obra trabalhou a fim de modelar uma cultura vocacional em toda a Igreja e em cada diocese no mundo inteiro. A oração pelas vocações, promovida quer por parte dos indivíduos quer pela comunidade, sempre foi a alma e o apoio à pastoral vocacional. Desde 1964, quando foi instituído o Dia mundial de oração pelas vocações, a Obra empenha-se em difundir profundamente a mensagem do Papa em todo o mundo.

Quanto o Concílio Vaticano II incidiu sobre a fisionomia e a actividade da Obra?

Graças ao Vaticano II, a Pontifícia Obra para as Vocações Sacerdotais encontra uma orientação clara na primeira parte do decreto Optatam totius, onde se afirma que o dever de promover as vocações se refere ao bispo. Mas também toda a comunidade cristã é responsável pela solicitude das vocações a nível paroquial, nacional e universal. Nesta linha, a Obra seguiu com atenção a renovação conciliar da pastoral vocacional. Nos anos 70, pediu a todos os Centros nacionais vocacionais para que renovassem os próprios planos e informassem o seu departamento na Congregação para a Educação Católica. Depois, em 1981, organizou o congresso internacional sobre «Desenvolvimentos da cura pastoral para as vocações nas Igrejas particulares: experiências do passado e programas para o futuro» e publicou o documento conclusivo. Pouco mais de dez anos depois, em 1992, o mesmo foi actualizado com outro documento: «Desenvolvimentos da pastoral para as vocações nas Igrejas particulares».

Em 1990 foi realizado o Sínodo dos bispos para a formação sacerdotal.

O texto que reuniu os seus frutos, a exortação apostólica de João Paulo II Pastores dabo vobis, de 25 de Março de 1992, foi um marco para a pastoral vocacional. Para fazer conhecer as suas indicações acerca da pastoral vocacional, a Obra organizou quatro congressos continentais: na América Latina em 1994, na Europa em 1997, na América do Norte em 2002 e na Ásia em 2005. Nesse mesmo ano a assembleia plenária da Congregação para a Educação Católica pediu que se preparasse um novo documento que ajudasse toda a Igreja a promover uma pastoral vocacional sólida e bem articulada.

Após setenta anos de vida, pensa que chegou o momento de fazer uma revisão para actualizar e tornar mais incisiva a actividade da Obra?

A partir do breve panorama histórico que tracei, resulta evidente que a Pontifícia Obra para as Vocações Sacerdotais — que colabora estreitamente com o departamento para os seminários da Congregação para a Educação Católica — está em modernização contínua e em busca constante para se tornar cada vez mais incisiva. Exactamente para reconsiderar os conceitos e na esperança de receber novas sugestões em matéria de promoção das vocações sacerdotais, foi organizado o congresso internacional em curso nestes dias. A necessidade, indicada pelo Papa, de intensificar a nova evangelização, impele-nos evidentemente a uma reflexão séria e um reforço do compromisso.

Como é estruturada a Obra e quantas pessoas nela trabalham?

A Pontifícia Obra para as Vocações Sacerdotais é governada por um presidente e um vice-presidente, que são respectivamente o cardeal prefeito e o secretário da Congregação para a Educação Católica. O director coordena de modo mais directo o trabalho de promoção das vocações para o ministério sacerdotal seguindo as indicações do motu proprio Cum nobis e dos relativos estatutos, além das ulteriores considerações no âmbito da Obra e as sugestões oferecidas pelos citados congressos e pela Congregação para a Educação Católica. O director colabora com os consultores que são escolhidos pelo Papa para ajudar a Obra na sua missão específica. Depois da sua instituição, em 1941, muitos bispos criaram organismos semelhantes em vários países e nas dioceses, com as mesmas finalidades. Nasceu assim uma rede de colaboração em toda a Igreja para favorecer as vocações ao ministério sacerdotal. Esta comunhão de intenções baseia-se na oração coral que se eleva da Igreja inteira ao «Senhor da messe». Em particular, a nível diocesano as células de oração pelas vocações tornaram-se o apoio aos seminários, espiritual e materialmente.

De que modo conseguis envolver as dioceses espalhadas nos diversos continentes?

Da Obra espera-se um apoio contínuo, que nunca faltou durante estes setenta anos. De modo particular, ele concretiza-se durante as visitas ad limina Apostolorum que os bispos do mundo realizam cada cinco anos. Precisamente em tal ocasião eles encontram-se com a Congregação para a Educação Católica. O tema das vocações para o ministério sacerdotal e a formação nos seminários sempre tem um lugar privilegiado durante estes encontros. Os responsáveis da Obra oferecem o próprio serviço durante as reuniões continentais e nos encontros nacionais e diocesanos, participando nos congressos que se realizam para aprofundar os temas concernentes à pastoral vocacional. A Pontifícia Obra para as Vocações Sacerdotais encontra uma colaboração preciosa — além das congregações religiosas nascidas para esta finalidade como os Rogacionistas, as Apostolinas, os Vocacionistas, os Sacerdotes Operários e outras — também na Serra international , a associação de leigos fundada nos Estados Unidos da América e inspirada no beato Junípero Serra, para promover as vocações ao ministério sacerdotal nas Igrejas locais.

Quando se fala de vocações vêm ao pensamento as imagens dos seminários quase vazios em muitos países do Ocidente. Na sua opinião, quais são as causas desta crise?

Antes de mais, devemos relevar que o número dos seminaristas, globalmente, está em aumento contínuo, sobretudo na África, na Ásia e em muitas nações da América Latina. Certamente, a crise nos países ocidentais não consiste no facto de que Cristo, Sumo Sacerdote, já não chama ao ministério sacerdotal, que Ele se tenha esquecido do seu rebanho. A crise é causada principalmente pelas dificuldades das pessoas, nas condições actuais, a ouvir a sua voz e a segui-la, e também pela falta de ajuda apropriada para descobrir a vocação ao sacerdócio e a colocar em prática com coragem dia após dia. Portanto, as causas da crise são múltiplas. Por um lado, a secularização da vida moderna, o desvanecimento do empenho cristão das famílias — não é por acaso que as vocações nascem sobretudo nos ambientes de vida cristã sólida — mas também a influência de determinadas críticas, alimentadas pelos mass media, em relação à Igreja e aos sacerdotes. Sem esquecer o estilo de vida caótico, sufocado pelo poder predominante dos meios de comunicação, como jornais, rádio, televisão, internet, nos quais falta o espaço para o silêncio, a reflexão e a oração. Por outro lado, como disse, as crises provêm da falta de ajuda, ou seja, do enfraquecimento da promoção vocacional. Na minha opinião, põe-se nesta perspectiva sobretudo o esclarecimento insuficiente, em determinados âmbitos, acerca da identidade do sacerdócio ministerial e da sua absoluta necessidade para a vida da Igreja e a sua missão. Com frequência, não se compreende a distinção substancial entre o sacerdócio ministerial e o apostolado dos leigos, ou seja, a realização do sacerdócio comum dos fiéis. Disto resulta a quase proverbial «clericalização dos leigos» e a correspondente «secularização dos sacerdotes». De qualquer maneira, o sacerdote secularizado certamente não atrai, ao contrário, desencoraja. Estes problemas — além da oração e da consciência potencializada da responsabilidade de todos — devem ser enfrentados seriamente se se quiser reforçar de modo adequado a promoção das vocações sacerdotais.

Muitas vezes as vocações nascem da exemplaridade de um modelo. Quanto influi o testemunho dos consagrados?

O exemplo dos sacerdotes é fundamental. No início do seu pontificado, falando ao clero no Vale de Aosta, Bento XVI observou justamente que os jovens são atraídos não por padres cansados, mas por sacerdotes cheios de entusiasmo no serviço a Cristo e aos irmãos. Precisamos de presbíteros santos, que compreendam profundamente o seu ser sacerdotes e a sua missão fascinante.

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19 de Setembro de 2019

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