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Novas linguagens digitais para falar de Deus ao homem

· Discurso de Bento XVI à plenária do Pontifício Conselho para as Comunicações Sociais ·

Os cristãos aceitam o desafio das novas linguagens digitais para falar de Deus ao homem contemporâneo, disse o Papa aos participantes na sessão plenária do Pontifício Conselho para as Comunicações Sociais, recebidos na manhã do dia 28 de Fevereiro, na sala Clementina. O Sumo Pontífice foi saudado pelo presidente do Dicastério, D. Claudio Maria Celli, que recordou como as linguagens ligadas às novas tecnologias incidem profundamente sobre o modo de viver, de pensar e de agir, e por isso exigem «uma atenção particular» da parte da Igreja.

Eminências, Excelências

Estimados Irmãos e Irmãs

Estou feliz por vos receber, por ocasião da Plenária do Dicastério. Saúdo o Presidente, D. Claudio Maria Celli, a quem agradeço as amáveis palavras, os Secretários, os Oficiais, os Consultores e todos os Funcionários.

Na Mensagem para o Dia Mundial das Comunicações Sociais deste ano, convidei a meditar sobre o facto de que as novas tecnologias não mudam só o modo de comunicar, mas levam a cabo uma vasta transformação cultural. Desenvolve-se um novo modo de aprender e de pensar, com oportunidades inéditas de estabelecer relações e construir a comunhão. Agora, gostaria de meditar sobre o facto de que o pensamento e as relações se verificam sempre segundo a modalidade da linguagem, entendida naturalmente em sentido lato, e não apenas verbal. A linguagem não é um simples revestimento intercambiável e provisório de conceitos, mas o contexto vivo e vibrante em que os pensamentos, as inquietações e os programas dos homens nascem na consciência e são plasmados mediante gestos, símbolos e palavras. Por conseguinte, o homem não só utiliza mas, num certo sentido, «habita» na linguagem. Em particular hoje, aquelas que o Concílio Vaticano II definiu «maravilhosas invenções técnicas» ( Inter mirifica, 1) continaum a transformar o ambiente cultural, e isto exige uma atenção específica às linguagens que nele se desenvolvem. As novas tecnologias «têm a capacidade de influenciar não só as modalidades, mas também os conteúdos do pensamento» ( Aetatis novae, 4).

As novas linguagens que se desenvolvem na comunicação digital determinam, entre outras coisas, uma capacidade mais intuitiva e emotiva do que analítica, orientam para uma diferente organização lógica do pensamento e da relação com a realidade, privilegiam muitas vezes a imagem e as ligações hipertextuais. Além disso, a clara distinção tradicional entre linguagem escrita e oral parece diluir-se a favor de uma comunicação escrita que adquire a forma e a imediação da oralidade. As dinâmicas próprias das «redes participativas» exigem, de resto, que a pessoa se comprometa naquilo que comunica. Quando as pessoas trocam informações entre si, já se compartilham a si mesmas e a sua visão do mundo: tornam-se «testemunhas» daquilo que dá sentido à sua existência. Sem dúvida, os riscos que se correm saltam aos olhos de todos: a perda da interioridade, a superficialidade na vivência dos relacionamentos, a fuga da emotividade, a predominância da opinião mais convincente em relação ao desejo da verdade. E no entanto eles constituem a consequência de uma incapacidade de viver plena e autênticamente o sentido das inovcações. Eis por que motivo é urgente a reflexão sobre as linguagens desenvolvidas pelas novas tecnologias. O ponto de partida é a própria Revelação, que nos dá testemunho do modo como Deus comunicou as suas maravilhas precisamente mediante a linguagem e a experiência real dos homens, «segundo a cultura própria de cada época» ( Gaudium et spes, 58), até à plena manifestação de si no Filho encarnado. A fé sempre penetra, enriquece, exalta e vivifica a cultura, e esta, por sua vez, faz-se veículo da fé, à qual oferece a linguagem para pensar e para se expressar. Portanto, é necessário que nos tornemos ouvintes atentos das linguagens dos homens do nosso tempo, para prestarmos atenção à obra de Deus no mundo.

Neste contexto, é importante o trabalho desempenhado pelo Pontifício Conselho para as Comunicações Sociais, ao aprofundar a «cultura digital», estimulando e encorajando a reflexão para uma maior consciência a respeito dos desafios que se apresentam à comunidade eclesial e civil. Não se trata apenas de comunicar a mensagem evangélica na linguagem contemporânea, mas é preciso ter a coragem de pensar de modo mais profundo, como ocorreu noutras épocas, a relação entre a fé, a vida da Igreja e as transformações que o homem vive. Trata-se do compromisso de ajudar quantos desempenham funções de responsabilidade na Igreja, a ser capazes de compreender, interpretar e falar a «nova linguagem» dos mass media em função pastoral (cf. Aetatis novae, 2), em diálogo com o mundo contemporâneo, perguntando-se: quais são os desafios que o chamado «pensamento digital» apresenta à fé e à teologia? Quais são as interrogações e as exigências?

O mundo da comunicação interessa todo o universo cultural, social e espiritual da pessoa humana. Se as novas linguagens têm um impacto sobre o modo de pensar e de viver, isto diz respeito de alguma maneira também ao mundo da fé, da sua inteligência e expressão. Segundo uma definição clássica, a teologia é inteligência da fé, e sabemos bem que a inteligência, entendida como conhecimento ponderado e crítico, não é alheia às mudanças culturais em curso. A cultura digital apresenta novos desafios à nossa capacidade de falar e de ouvir uma linguagem simbólica que fale da transcendência. O próprio Jesus, no anúncio do Reino, soube utilizar elementos da cultura e do ambiente do seu tempo: o rebanho, os campos, o banquete, as sementes, e assim por diante. Hoje somos chamados a descobrir, também na cultura digital, símbolos e metáforas significativos para as pessoas, que possam servir de ajuda ao falar do Reino de Deus ao homem contemporâneo.

Além disso, é preciso considerar que a comunicação na época dos «novos meios de comunicação» comporta uma relação cada vez mais estreita e ordinária entre o homem e as máquinas, dos computadores aos telemóveis, citando apenas os mais comuns. Quais serão os efeitos desta relação constante? Já o Papa Paulo VI, referindo-se aos primeiros programas de automatização da análise linguística do texto bíblico, indicava uma pista de reflexão, quando se interrogava: «Não é porventura este esforço de infundir mediante instrumentos mecânicos, o reflexo de funções espirituais, que é enobrecido e elevado a um serviço, que alcança o sagrado? É o espírito que se torna prisioneiro da matéria, ou não é por acaso a matéria já domada e obrigada a executar leis do espírito, que oferece ao próprio espírito um obséquio sublime?» ( Discurso no Centro de Automatização do «Aloysianum» de Gallarate, 19 de Junho de 1964). Intui-se nestas palavras o vínculo profundo com o espírito, ao qual a tecnologia é chamada por vocação (cf. Encíclica Caritas in veritate, 69).

É precisamente o apelo aos valores espirituais que permitirá promover uma comunicação verdadeiramente humana: para além de todo o fácil entusiasmo ou cepticismo, sabemos que ela é uma resposta à chamada, gravada na nossa natureza de seres criados à imagem e semelhança do Deus da comunhão. Por isso, a comunicação bíblica segundo a vontade de Deus está sempre vinculada ao diálogo e à responsabilidade como testemunham, por exemplo, as figuras de Abraão, Moisés, Job e os Profetas, e jamais à sedução linguística, como ao contrário é o caso da serpente, ou de incomunicabilidade e de violência, como no caso de Caim. Então, a contribuição dos fiéis poderá servir de ajuda para o próprio mundo dos mass media, abrindo horizontes de sentido e de valor que, sozinha, a cultura digital sozinha não é capaz de divisar nem de representar.

Concluindo, apraz-me recordar, juntamente com muitas outras figuras de comunicadores, a do sacerdote Matteo Ricci, protagonista do anúncio do Evangelho na China na era moderna, do qual celebrámos o iv centenário da morte. Na sua obra de difusão da mensagem de Cristo, ele considerou sempre a pessoa, o seu contexto cultural e filosófico, os seus valores e a sua linguagem, aproveitando tudo o que se encontrava de positivo na sua tradição, e oferecendo-se para o animar e enaltecer mediante a sabedoria e a verdade de Cristo.

Caros amigos, agradeço-vos o serviço que prestais; confio-o à salvaguarda da Virgem Maria e, ao assegurar-vos a minha oração, concedo-vos a Bênção Apostólica.

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17 de Setembro de 2019

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