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Nova vocação para a esperança

· Missa na basílica de São Pedro por ocasião do bicentenário da independência dos países da América Latina e do Caribe ·

Em 2012 o Sumo Pontífice visitará o México e Cuba para relançar a evangelização do continente

O Papa encorajou a América Latina e o Caribe a renovar «a vocação para a esperança», durante a celebração da santa missa celebrada na tarde de segunda-feira, 12 de Dezembro, na Basílica de São Pedro por ocasião do bicentenário da independência dos países daquele continente.

Amados irmãos e irmãs!

«A terra deu o seu fruto» ( Sl 66, 7). Nesta imagem do salmo que ouvimos, o qual convida todos os povos e nações a louvar com júbilo o Senhor que nos salva, os Padres da Igreja souberam reconhecer a Virgem Maria e Cristo, seu Filho: «A terra é Santa Maria, a qual vive da nossa terra, da nossa linhagem, deste barro, desta argila, de Adão [...]. A terra deu o seu fruto: primeiro produziu uma flor [...]; em seguida essa flor transformou-se em fruto, para que o pudéssemos comer, para que comêssemos a sua carne. Quereis saber qual é esse fruto? É o Virgem que provém da Virgem; o Senhor, da escrava; Deus, do homem; o Filho, da Mãe; o fruto, da terra» (São Jerónimo, Breviarum in Psalm. 66: pl 26, 1010-1011). Também nós hoje, exultando pelo fruto desta terra, dizemos: «Louvem-vos, ó Senhor, os povos, todos os povos» ( Sl 66, 4.6). Proclamamos o dom da redenção alcançada por Cristo, e em Cristo, reconhecemos o seu poder e a sua majestade divina.

Animados por estes sentimentos, saúdo com afecto fraterno os senhores cardeais e bispos que nos acompanham, as diversas representações diplomáticas, os sacerdotes, religiosos e religiosas, assim como os grupos de fiéis congregados nesta Basílica de São Pedro para celebrar com alegria a solenidade de Nossa Senhora de Guadalupe, Mãe e Estrela da Evangelização da América. Tenho também presentes todos os que se unem espiritualmente e rezam a Deus connosco pelos diversos países latino-americanos e do Caribe, muitos dos quais durante este tempo festejam o Bicentenário da sua independência, e que, para além dos aspectos históricos, sociais e políticos dos acontecimentos, renovam ao Altíssimo a gratidão pelo grande dom da fé recebida, uma fé que anuncia o Mistério redentor da morte e ressurreição de Jesus Cristo, para que n’Ele todos os povos da terra tenham vida. O Sucessor de Pedro não podia deixar passar esta efeméride sem fazer presente a alegria da Igreja pelos abundantes dons que Deus na sua bondade infinita derramou durante estes anos sobre essas amadíssimas nações, que tão profundamente invocam Maria Santíssima.

A venerada imagem da Moreninha de Tepeyac, de rosto doce e sereno, gravada no manto do índio são João Diego, apresenta-se como «a sempre Virgem Maria, Mãe do verdadeiro Deus pelo qual se vive» Da leitura do Ofício, Nicán Mopohua, 12ª ed., México, d.f., 1971, 3-19). Ela evoca a «mulher revestida de sol, tendo a lua debaixo dos seus pés e uma coroa de doze estrelas sobre a cabeça. Estava grávida» ( Ap 12, 1-2) e assinala a presença do Salvador à sua população indígena e mestiça. Ela conduz-nos sempre ao seu Filho divino, o qual se revela como fundamento da dignidade de todos os seres humanos, como um amor mais forte do que os poderes do mal e da morte, sendo também fonte de alegria, confiança filial, conforto e esperança.

O Magnificat , que proclamamos no Evangelho, é «o cântico da Mãe de Deus e o da Igreja, cântico da Filha de Sião e do novo Povo de Deus, cântico de ação de graças pela plenitude de graças distribuídas na Economia da salvação, cântico dos “pobres”, cuja esperança é satisfeita pela realização das promessas feitas a nossos pais» ( Catecismo da Igreja Católica , 2619). Em um gesto de reconhecimento ao seu Senhor e de humildade da sua serva, a Virgem Maria eleva a Deus o louvor por tudo o que Ele fez em favor do seu povo Israel. Deus é Aquele que merece toda a honra e glória, o Poderoso que fez maravilhas pela sua fiel servidora e que hoje continua mostrando o seu amor por todos os homens, particularmente aqueles que enfrentam duras provas.

«Eis que o teu rei vem a ti; ele é justo e vitorioso, humilde, montado num jumento» ( Zc 9, 9), ouvimos na primeira leitura. Desde a encarnação do Verbo, o Mistério divino revela-se no acontecimento de Jesus Cristo, que é contemporâneo de todas as pessoas humanas em qualquer tempo e lugar por meio da Igreja, da qual Maria é Mãe e modelo. Por isso, nós podemos continuar hoje a louvar a Deus pelas maravilhas que realizou na vida dos povos latino-americanos e do mundo inteiro, manifestando a sua presença no Filho e a efusão do seu Espírito como novidade de vida pessoal e comunitária. Deus escondeu estas coisas «aos sábios e doutos» e revelou-as aos pequeninos, aos humildes, aos simples de coração (cf. Mt 11, 25).

Pelo seu «sim» à chamada de Deus, a Virgem Maria manifesta entre os homens o amor divino. Neste sentido, Ela, com simplicidade e com um coração de mãe, continua a indicar a única Luz e a única Verdade: o seu Filho Jesus Cristo, que «é a resposta definitiva à pergunta sobre o sentido da vida e às questões fundamentais que assediam também hoje tantos homens e mulheres do continente americano» (Exort. apost. pós-sinodal Ecclesia in America, 10). De igual modo, ela «continua a obter-nos os dons da salvação eterna. Com o seu amor de Mãe, cuida dos irmãos de seu Filho, que ainda peregrinam e se debatem entre perigos e angústias, até que sejam conduzidos à Pátria feliz» ( Lumen gentium, 62).

Actualmente, enquanto se comemora em diversos lugares da América Latina o Bicentenário da sua independência, o caminho da integração nesse querido continente progride, enquanto se sente o seu novo protagonismo emergente no concerto mundial. Nestas circunstâncias, é importante que os seus diversos povos salvaguardem o seu rico tesouro de fé e o seu dinamismo histórico-cultural, sendo sempre defensores da vida humana desde a sua concepção até ao seu ocaso natural e promotores da paz; devem tutelar igualmente a família na sua natureza e missão genuínas, intensificando ao mesmo tempo uma vasta e minuciosa tarefa educativa que prepare rectamente as pessoas e as torne conscientes das suas capacidades, de modo que enfrentem digna e responsavelmente o seu destino. De igual modo estão chamados a incrementar cada vez mais iniciativas concretas e programas efectivos que propiciem a reconciliação e a fraternidade, incrementem a solidariedade e o cuidado do meio ambiente, fortalecendo ao mesmo tempo os esforços para superar a miséria, o analfabetismo e a corrupção e erradicar qualquer injustiça, violência, criminalidade, insegurança urbana, narcotráfico e extorsão.

Quando a Igreja se preparava para comemorar o quinto centenário da plantatio da Cruz de Cristo na boa terra do continente americano, o beato João Paulo II formulou no seu solo, pela primeira vez, o programa de uma nova evangelização, nova «no seu ardor, nos seus métodos, na sua expressão» (cf. Discurso à Assembleia do celam, 9 de Março de 1983, III: aas 75, 1983, 778). Na minha responsabilidade de confirmar na fé, também eu desejo animar o afã apostólico que actualmente estimula e pretende a «missão continental» promovida em Aparecida, para que «a fé cristã se arraigue mais profundamente no coração das pessoas e dos povos latino-americanos como acontecimento fundante e encontro vivificador com Cristo» (v Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e do Caribe, Documento final, 13). Assim se multiplicarão os discípulos e missionários do Senhor e se renovará a vocação da América Latina e do Caribe para a esperança. Que a luz de Deus brilhe, portanto, cada vez mais na face de cada um dos filhos dessa amada terra e que a sua graça redentora oriente as suas decisões, para que continuem a progredir sem desanimar na construção de uma sociedade cimentada no progresso do bem, no triunfo do amor e na difusão da justiça. Com estes profundos desejos, e amparado pelo auxílio da Providência divina, tenho a intenção de empreender uma Viagem apostólica antes da santa Páscoa ao México e a Cuba, para ali proclamar a Palavra de Cristo e para garantir a convicção de que este é um tempo precioso para evangelizar com fé firme, esperança viva e caridade fervorosa.

Recomendo todos estes propósitos à amorosa mediação de Santa Maria de Guadalupe, nossa Mãe do céu, assim como o actual destino das nações latino-americanas e caribenhas e o caminho que estão a percorrer rumo a um amanhecer melhor. Invoco igualmente sobre elas a intercessão de tantos santos e beatos que o Espírito suscitou ao longo da história desse continente, oferecendo modelos heróicos de virtudes na diversidade de estados de vida e de ambientes sociais, para que o seu exemplo favoreça cada vez mais uma nova evangelização sob o olhar de Cristo, Salvador do homem e força da sua vida. Amém!

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19 de Setembro de 2019

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