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Nossa Senhora de Raffaello

· O que diz à mulher de hoje ·

Harmonia, serenidade e obediência são ainda considerados dotes na mulher moderna? Quer em casa quer no trabalho, a nossa época parece estimular as mulheres para a auto-afirmação e para o multi-tasking activo e não para a contemplação e a tranquilidade. Portanto não nos deve surpreender se hoje as Nossas Senhoras de Raffaello Sanzio, outrora desejadas para todas as casas ou altares do Renascimento, perderam a simpatia do povo, rendendo-se aos modelos de feminilidade contemporâneos.

Para além das modas actuais, o estilo envolvedor de Raffaello ainda obriga quem olha para as suas obras a deter-se e a confrontar-se com a sua intuição de que a Mãe de Deus pode ensinar lições preciosas a todas as mulheres de todos os tempos.

Não obstante a morte prematura com 37 anos em 1520, Raffaello deixou uma rica herança de imagens marianas, que vão das obras meditativas domésticas aos grandiosos retábulos de altar. Neles, a sua atenção concentrava-se invariavelmente na beleza interior e não nas suas acções exteriores.

Maria deu a Cristo a sua natureza humana e trouxe-o ao mundo para a humanidade. Portanto, as Nossas Senhoras devocionais mais bonitas de Raffaello são colocadas em ambientes paisagísticos amenos; na sua Bella Giardiniera (hoje no Louvre), Maria é colocada, juntamente com os meninos Cristo e João, entre as agradáveis colinas da paisagem toscana. As figuras, compactas e todavia volumosas, dominam o espaço, mas aos seus pés estende-se uma natureza morta de folhas e plantas. A cabeça e os ombros da Virgem são emolduradas pelo céu azul e por nuvens delicadas, e a sua pele resplandece de luz celeste. As colinas reflectem a curva das suas costas, criando uma linha perfeita. O ligeiro movimento do seu véu e a veste avolumada servem para ressaltar a estrutura da igreja à sua direita. Aqui, e muitas outras vezes, Raffaello indicou Maria como pórtico da graça: Mãe quer de Cristo, quer do seu corpo, a Igreja.

Mas Raffaello não estava ligado só à natureza. Estava à vontade também quando transportava Maria para longe da esfera terrena, para o reino da aparição. A sua Madonna Sistina (agora na Gemäldegalerie de Dresden), constitui uma incursão numa nova iconografia. As cortinas abertas revelam Nossa Senhora com o Menino que flutua no ar por cima de um parapeito. Nuvens carregadas parecem segurar os seus pés, enquanto a luz revela os semblantes de querubins entre o nevoeiro que a envolve. Santa Bárbara olha para baixo com indulgência, para dois meninos colocados aos pés de Maria, enquanto o Papa São Sisto chama a atenção de Maria para as nossas súplicas. Mas a Virgem olha para quem observa a obra, serena e tranquilizadora, oferecendo esperança. A sua graça tranquila é fruto do estudo incansável e da meditação do artista sobre Maria como intercessora.

Mesmo se Raffaello é conhecido de modo particular por ter pintado a serena calma da maternidade de Maria, aventurou-se também com os momentos mais dolorosos da sua vida. Na Deposição, o pintor, com vinte e cinco anos, rompeu uma tradição separando Mãe e Filho, colocando-os nos lados opostos do quadro. Contudo, mesmo quando está distante de Jesus, Maria colma o espaço com a sua empatia. Quando a cabeça de Cristo cai para trás sem vida, Maria prostra-se na dor, com um ombro para a frente, o pescoço inclinado. Eles são o reflexo um do outro através da divisão, criando um vínculo tão estreito e íntimo quanto o contacto físico.

Com todas as suas experiências na arte – inspirado pelas relações dinâmicas entre as figuras de Leonardo ou das torções esculturais de Michelangelo – Raffaello nunca perdeu de vista o seu objectivo particular de reforçar a união entre a Mãe e o seu Filho.

Como as tranquilizadoras orações do Rosário, as Nossas Senhoras de Raffaello permitem que quem as observa medite sobre a alegria, a tristeza ou a exaltação, participando ao mesmo tempo da profunda serenidade da escrava do Senhor. Talvez, entre o levar para casa as compras e o acompanhar os filhos aos treinos de futebol, as mulheres de hoje ainda poderiam obter benefícios do ideal sem tempo proposto por Raffaello.

Elisabeth Lev

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22 de Outubro de 2019

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