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​Nós nascemos de um encontro

· Com as Pequenas Irmãs de Jesus na confraria das Três Fontes para conhecer as origens de uma missão de braços abertos ·

Quando se chega às Três Fontes, onde vivem as Pequenas Irmãs de Jesus, a atmosfera muda: o barulho do trânsito rodoviário atenua-se, as casinhas de madeira bem conservadas estão cheias de flores, enquanto religiosas e leigos passeiam neste pequeno povoado simples e aconchegante. Antes de começar o diálogo, as Pequenas Irmãs levam-me à sala das recordações do beato Charles de Foucauld. Numa parede há um desenho sobre tela que representa a Visitação, à frente está pintado Jesus, jovem adolescente na bancada de trabalho com José e Maria, e no centro da última parede: Cristo, de braços abertos e revestido com uma túnica branca, que nos fita. Estes três desenhos realizados por Charles de Foucauld delineiam a espiritualidade das Pequenas Irmãs de Jesus: ser simples e pobres, visitar e deixar-se visitar. O diálogo tem início com a pequena irmã Daniela Chiara, próxima responsável da comunidade das Três Fontes.

Qual foi o seu percurso?

A Visitação num desenho de Charles de Foucauld, conservado na casa das Pequenas Irmãs das Três Fontes

Houve três etapas: a primeira com os ciganos em Bolonha, a segunda com a tribo dos Toubous na Nigéria e no meio dos muçulmanos, e a terceira em Turim, num bairro nos arredores da estação.

Que lugar ocupa o Evangelho da Visitação nestas experiências?

A confraria em si mesma, tal como a concebeu Magdeleine, nasceu do seu encontro com a população seminómada de Touggourt, no Níger. Durante um longo período ela viveu sozinha entre eles. E foi então que imaginou como podia ser a vida da confraria, e começou a escrever as constituições das pequenas irmãs. Portanto, nós nascermos precisamente de um encontro da pequena irmã Magdeleine com a espiritualidade de Charles de Foucauld, e também do seu encontro com os argelinos pobres de Touggourt.

Nasceu a confraria de todos estes encontros?

Sim, ela nasceu de tudo isto, e sobretudo continua a nascer sempre de novo, porque onde nós vivemos, somos pequenos grupos inseridos na vida da população, procuramos aprender e assimilar um pouco da «sua cor», do seu modo de viver e de trabalhar, da sua língua. Não existe uma confraria que se assemelhe à outra, e isto pareceu-me ainda mais evidente quando tive que encontrar um pouco o meu lugar no Níger. Quando cheguei àquele país, eu nada sabia da vida do seu povo e encontrei-me a «pedir autorização» para entrar. E a vida nasceu daqueles encontros. No início perguntavam-nos: «Por que vindes ao nosso encontro?». E uma das pequenas irmãs respondeu: «Vimos por causa de Deus, para poder viver convosco». E o imã, o chefe da tribo, responsável pela oração, afirmou: «Se é Deus quem vos envia, o que é que vos posso dizer?». A partir daquele momento foram eles que nos ensinaram tudo sobre a vida. Quanto a nós, oferecemos-lhes o que éramos. E a vida cresceu naquele dia a dia. Para mim, tratou-se de uma grande experiência a nível espiritual, porque quando nos encontramos com pessoas crentes de diversas religiões, despertam-se as «partes» mais importantes da fé. E esta é uma verdadeira visitação.

Recordo-me que monsenhor Gayot, no final de um retiro no Níger, a uma irmã que lhe tinha perguntado o que era para ele a missão, respondera: «Para mim, o Evangelho da missão é a Visitação». Duas formas de fecundidade que se encontram. É dali que a vida brota, sobressalta e dança. É verdade que em contacto com aquela vida simples e com aquela espiritualidade muçulmana aprofundei a minha própria fé. Com efeito, o clamor «Allahu Akbar», Deus é o maior, recitado cinco vezes por dia, me levou a descobrir de novo uma dimensão da minha fé pessoal, ou seja, a transcendência de Deus, que às vezes corro o risco de subestimar quando o olhar do coração contempla mais facilmente a maravilha de um Deus que se fez Homem em Jesus. E, ao mesmo tempo, durante aqueles momentos de adoração diante do pequeno pedaço de Pão exposto na areia, recordo que disse comigo mesma: «Olha, este pequeno pedaço de Pão é precisamente aquele “Deus maior do que todos”, que se tornou tão pequenino... que se pôs nas nossas mãos». Portanto, tornou-se ainda mais a boa nova de que por nós Deus se fez homem no meio dos homens e que caminha connosco.

 As Pequenas Irmãs de Jesus da comunidade das Três Fontes

Quando há uma Visitação, existem dois visitados que se despertam?

Sim. Narro-lhe uma história. Certo dia, fomos encontrar uma amiga numa tenda vizinha. Ela chamava-se Forey. A nossa irmã responsável regional estava connosco e não falava a língua local. Então, havia outra irmã que traduzia. Numa certa altura, ao traduzir da língua tubu para o francês, cometeu um erro. As duas pequenas irmãs puseram-se a rir e Forey perguntou: «Por que ríeis?». E aquela que traduzia respondeu-lhe: «Agora já não me recordo nem sequer da minha própria língua!». Aquela mulher, Forey, com a qual não tínhamos qualquer ponto em comum (ela era africana, idosa, muçulmana, e nós jovens, europeias e cristãs), retorquiu-lhe: «Quando vós chegastes, nós éramos “tubus” e vós éreis “nazaras”, ou seja, brancas consagradas. E agora eu já não sou “tubu”, mas também vós já nãos sois “nazaras” brancas, pois juntas construímos algo novo». Para mim foi um choque incrível, do qual me recordarei durante a vida inteira. Isto é, como um encontro em humanidade na fé (não obstante seja diferente) cria algo novo. É a nossa vida nova que começa! E poderia narrar-lhe numerosas outras histórias como esta.

Emanuela (ex-responsável da comunidade das Três Fontes), qual é a sua experiência?

Eu passei uma parte da minha vida em Cuba. Cheguei ali em 1985 e aí permaneci 22 anos. Era uma realidade completamente diferente: um país comunista, formado por todas as raças, negros, brancos e mulatos. Tratava-se de uma experiência totalmente nova para mim, que eu nunca tinha vivido antes; eu tinha 29 anos. Na teoria, naquele país todos eram ateus, mas na prática ninguém o era. Antes de tudo, descobri muito respeito pelo sagrado e depois um verdadeiro desejo de procurar compreender-nos, de criar um relacionamento connosco. Naquela época eu trabalhava num lar de idosos, onde lavava a roupa juntamente com uma senhora cubana. Ela ensinava-me o espanhol e como dobrar os lençóis, e dizia-me: «Tu és a minha filha branca!». Eram relacionamentos muito simples. Havia muita gratidão. Com efeito, em cada um dos nossos encontros dava-se importância à outra pessoa, valorizávamo-nos reciprocamente. Ou, por outras palavras, eles levavam-nos a pensar: «Cada vida é verdadeiramente importante». E eu dizia comigo mesma que em tudo aquilo havia algo de Deus. E tudo sem pronunciar uma palavra. Já se tratava de uma primeira Visitação. O facto de nos podermos encontrar a nível humano de modo tão simples, num plano de igualdade e de dignidade e respeito pelo outro que é teu semelhante, fazia nascer algo mais profundo, ou seja, algo daquela presença de Deus que existe em cada um de nós. Pois bem, quando penso em Maria que se encontra com Isabel, e nos filhos que elas trazem no próprio ventre e que nelas sobressaltam, penso que acontece o mesmo cada vez que se verifica um encontro. Porque no final de tudo está sempre Deus que sobressalta de alegria em cada um de nós, não obstante não nos demos conta disto.

Que deve suceder para que um encontro seja uma Visitação?

Nós chegamos com simplicidade para oferecer amizade. Por conseguinte, há uma gratuitidade da nossa parte, que as pessoas sentem. E para mim, que não sabia falar a sua língua e que me encontrava ali para aprender, isto conferiu imediatamente outra tonalidade ao relacionamento. Por exemplo, tive que aprender também a costurar, e por isso segui um curso de três meses. Certo dia, uma costureira sentou-se ao meu lado e disse-me: «Quem teria imaginado que um dia eu teria ensinado a uma religiosa!». É simples e, num certo sentido, é também o mundo ao contrário. Penso que foi isto que viveu a pequena irmã Magdeleine quando estava em Touggourt.

Que aconteceu com a pequena irmã Magdeleine em Touggourt?

A fundadora Magdeleine Hutin

Ela foi adotada pelos muçulmanos, como uma deles, vivia sozinha e devia aprender a viver ali. Ela foi acolhida por uma tribo argelina, e enquanto vivia aquela experiência escreveu as constituições. Conseguiu compartilhar aquilo que ia vivendo no mais profundo com todos aqueles muçulmanos, porque a sentiam como uma deles, como uma irmã. Assim como ela aprendia, também eles aprendiam dela: tratava-se de um verdadeiro intercâmbio de amizade. E isto permitiu autênticas correspondências de fé, ainda mais profundas do que Magdeleine pudesse esperar ou imaginar, com pessoas que pertenciam a um mundo tão diferente. Tudo isto abriu o caminho para que pudéssemos compartilhar a vida com simplicidade. E esta é a nossa riqueza.

O que diz a pequena irmã Magdeleine sobre a Visitação nas vossas constituições?

Nas nossas constituições uma realidade fundamental é o facto de vivermos misturadas com outros, num amor respeitoso e delicado, de nos colocarmos no seu próprio nível, nem acima nem abaixo, de sermos pequenas irmãs de todos. Magdeleine descreve tudo o que faz um encontro.

Inclusive Charles de Foucauld fala sobre isto, explicando como Deus se manifesta no encontro. Ele explica também como Maria foi impelida ao encontro pelo próprio Jesus, e de certa forma até “instigada” a ir ter com Isabel, levando Jesus a falar assim: «Do seio da minha Mãe, estimulei-a a ir rumo ao outro».

A vida de Charles de Foucauld está repleta de visitações, porque ele queria estar próximo das pessoas, vivia sempre em busca delas para imitar a vida de Jesus em Nazaré, ou seja, a sua proximidade em relação ao povo: estar perto, o mais próximo possível do outro. Na sua vida verificou-se um acontecimento importante. Procurava um lugar no qual se instalar no sul da Argélia e hesitava entre um lugar mais isolado e outro mais habitado. Então, perguntou a Jesus: «O que devo fazer?». Assim, escreveu como se o Senhor lhe tivesse respondido: «Não é o afastamento que te permitirá recolher-te em mim, mas o amor. Vive muito perto deles, perdido em Deus». Daqui a sua necessidade de visitar e de se deixar visitar. 

Catherine Aubin

A fundadora das Pequenas Irmãs

A fundadora das pequenas irmãs é Magdeleine Hutin (1898-1989), originária da Lorena, a poucos quilómetros da fronteira com a Alemanha, onde vive uma infância profundamente marcada pelo drama da guerra. Depois de ter cultivado prolongadamente o sonho de partir para a África, encontra na figura de Charles de Foucauld e na sua ideia de vida religiosa a inspiração que esperava e, em 1936, parte para a Argélia. Três anos depois, funda a Confraria das Pequenas Irmãs de Jesus. Em 1949 demite-se do cargo de responsável-geral para se dedicar totalmente à fundação de novas comunidades nos recantos mais remotos da Terra. Em 1959, as pequenas irmãs já são 800, com 184 comunidades disseminadas pelo mundo inteiro.

A partir de 1956, até poucas semanas antes do seu falecimento, ocorrido em 1989, Magdeleine atravessa numerosas vezes a cortina de ferro a bordo da «Estrela cadente», uma camioneta transformada em reboque, com o qual chega até à China. Nos países do bloco soviético, tece relações com as comunidades cristãs locais, funda comunidades e entrelaça profundos vínculos no campo do ecumenismo. Quase como sinal de uma profecia concretizada, o muro de Berlim desaba no dia do seu funeral. 

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12 de Dezembro de 2019

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