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No seminário para formar

· Em diálogo com as irmãs Maria Daniela Cubadda e Paoletta Meloni ·

Inconfundíveis, esperam por mim no aeroporto de Cagliari vestidas de branco; semblantes jubilosos, afabilidade maternal. Dia 22 de Julho, e não é por acaso: festa de Maria de Magdala. O impacto com os seus olhares, o automóvel simples e muito usado, temperatura e luz do Mediterrâneo, um trajecto breve que se torna intercâmbio: tudo sabe de Evangelho; a atmosfera é certamente daquelas que agradava a Jesus. Começa assim o encontro com as irmãs Maria Daniela Cubadda e Paoletta Meloni, um dia para ouvir e narrar. Congregação feminina que teve o seminário como casa-mãe, as Filhas de São José de Genoni, desde 1888, são antes de tudo protagonistas da formação dos sacerdotes. A irmã Maria Daniela governa o instituto desde há vinte e quatro anos.

Cagliari, fim do século XIX...

A comunidade do seminário de Bosa durante uma excursão

«Para o novo arcebispo Berchialla tratava-se de reconstruir a partir de baixo uma diocese necessitada de estruturas, formação e impulso espiritual. Pediu aos superiores da sua ordem, os Oblatos de Maria Virgem, a presença do padre Felice Prinetti, que desde 1881 vivia nessa cidade, primeiro como secretário do arcebispo e depois como regente do seminário: preparava-se um grande investimento na formação do clero. Eis a urgência de prover ao serviço doméstico do seminário, que se concentra no programa de Prinetti, de gerar na Igreja sarda uma nova família religiosa.

Portanto, a partida é tradicional: religiosas para a cozinha, a lavandaria, o trabalho escondido, a oração de intercessão.

Não é correcto desprezar estes aspectos, considerando-os anacronisticamente em termos de sujeição e inferioridade: as religiosas transformaram imediatamente as suas tarefas numa atmosfera, mudando o lugar no qual a história parecia relegá-las, num ponto de partida. Aqui sobressai em todo o seu relevo o carisma, ou seja, aquele dom do Espírito com que o fundador transmitiu à comunidade um perfil que devia ser assumido com naturalidade. De modo particular, os textos de Prinetti indicam às religiosas a centralidade da compaixão. Trata-se de uma indicação mediante a qual ele volta a interpretar toda a economia salvífica à luz da propensão divina a ouvir, humilhando-se. Por conseguinte, as religiosas educarão levando ao seminário um estilo que deverá incidir nos futuros ministros da compaixão divina: assim, a ideia de mediação adquire contornos quotidianos de um serviço levado a cabo com inteligência e coração. «Nas vossas mãos tudo deverá transformar-se como o pão e o vinho na missa»: mulheres que demonstrem com a sua vida aos candidatos ao sacerdócio que a caridade realiza precisamente isto.

Muitas vezes o que falta não é a presença feminina, mas o facto de ser vista. Assim, grandes carismas acabam por falar a poucos e por transformar a Igreja demasiado lentamente.

Por si só, a vocação cristã não tem em vista o reconhecimento, mas entendo a questão. Na realidade, vai-se das manifestações de reconhecimento – que chegam quando menos esperamos da parte de eclesiásticos aparentemente rudes e indiferentes – ao muito mais frequente entendimento entre seminaristas e religiosas. As Filhas de São José, primeiro em Cagliari e sucessivamente nos seminários de Oristano, Nuoro, Lanusei, Iglesias e Bosa, foram mães para numerosíssimos jovens. E uma mãe, até nos bastidores, é central e está consciente disto: o que significa alegrias e preocupações, presença, correcção, referência no que diz respeito ao vestir-se, ao alimentar-se e à saúde, estímulo para a oração e para um estilo de vida ordenado. Em comunidades seminarísticas de pequenas e médias dimensões, historicamente isto pôs em acção de maneira concreta uma corresponsabilidade educativa. Era como se as famílias confiassem os seus filhos às religiosas: elas tornavam-se o interlocutor nas visitas aos filhos, o olhar feminino que acompanha e protege.

Foi-se mais além? Existe algum seminário que vos pediu para fazer plenamente parte da equipe formativa?

Com dez minutos de antecipação em relação ao documento A formação dos presbíteros na Igreja italiana, que no número 37 convida a acompanhar os sacerdotes educadores, «inclusive leigos, homens e mulheres, especialmente no âmbito do aconselhamento psicopedagógico», relevando que «o carisma feminino (...) pode servir de grande ajuda no itinerário formativo», em 1996 o seminário diocesano de Alghero-Bosa tomou a iniciativa de começar um novo tipo de colaboração com as Filhas de São José. O reitor daquela época, hoje bispo de Lanusei, D. Antonello Mura, esclareceu por escrito, no diálogo com o instituto, o desejo de uma nova presença das religiosas, «invocando um verdadeiro gesto profético», que valorizasse a sua consagração e permitisse um seu serviço educativo em todos os sectores, destinado aos jovens na sua formação, mas também um sinal vocacional para a cidade e a diocese. «Uma presença livre de compromissos manuais, como aqueles da cozinha, totalmente orientada para enriquecer a vida comunitária, como uma verdadeira companhia educativa, da oração ao estudo, animando os vários grupos que (...) têm necessidade de atenções específicas».

A Irmã Paoletta, foi protagonista desta nova história. Quais são as suas recordações a este respeito?

Eu tinha vinte e oito anos, quando me pediram para entrar no seminário segundo uma modalidade que então todos consideravam nova. Cheguei com receio: não tinha as ideias claras acerca do que poderia acontecer. Eu mesma estava a percorrer o caminho de uma maturidade vocacional. Sem dúvida, davam-se segurança a presença de uma irmã de hábito mais velha do que eu, mas tudo nos afastava dos esquemas habituais. A presença tradicional no seminário exigia que as religiosas dispusessem dos seus espaços e tempos, mas aqui entrava-se numa dimensão de comunidade diferente, sempre no meio dos jovens. No total éramos cerca de quinze pessoas entre seminaristas, o reitor e três religiosas – das quais duas estáveis e uma nova a cada ano – recém-chegada de alguma experiência missionária: uma grande família. Também os confessores e o padre espiritual vinham de fora, mas em casa as religiosas colaboravam estreitamente com o reitor: um grupo educativo harmonioso, que devia aproveitar os raros momentos de ausência dos seminaristas para saborear a paz e o silêncio necessários para momentos de partilha e de averiguação.

Quais foram os momentos mais significativos?

Alternavam-se uma vida diária compartilhada – recreação, pingue-pongue, leituras e desporto – com momentos de formação mais estruturados. Havia também uma notável abertura, cultivando-se de modo particular a relação com a cidade. Os seminaristas frequentavam as escolas do território, de modo que muitas vezes nós mesmas mantínhamos contactos com os professores e seguíamos o seu percurso de estudos. Em comunidade, conduzíamos a catequese semanal, a lectio divina em pequenos grupos e a hora da «consciência crítica», que tinha em vista uma verificação da vida pessoal e comunitária. Além disso, apresentávamos propostas culturais. Foram anos de incrível vivacidade: de forma particular, os «encontros de autor» levaram ao seminário grandes personalidades da política, da arte e da vida civil. Jantavam em nossa companhia, às vezes participavam na oração e depois davam início a diálogos abertos também aos outros.

Portanto, ponto final a trabalhos manuais?

Pelo contrário! Não obstante a cozinha fosse gerida por pessoas especialmente contratadas para isto, todo o trabalho de limpeza da casa era dividido entre religiosas e seminaristas. A vida no seminário era essencial de modo deliberado, e sob muitos pontos de vista até austera. A nível educativo, a novidade sobressaía da partilha da realidade, inclusive nos seus aspectos mais humildes. Ninguém era servido e não existiam tarefas secundárias. Desabavam os esquemas para os quais só vale quem faz, ou quem pensa: formativo era o gesto de estar uns ao lado dos outros em todos os aspectos da vida. Assim, o diálogo entre adolescentes e religiosas tornava-se permanente, com e sem palavras. Uma naturalidade que em vários casos suavizava a relação mais hierárquica entre seminaristas e reitor: a religiosa era diferente, claramente educadora, mas ao mesmo tempo confidente, portadora de tons e sensibilidades particulares. Uma complementaridade de atenções que se reflectia no grupo educativo, quando se tratava de interpretar, cada qual com os seus próprios olhos, o caminho de cada jovem, muitas vezes para elaborar decisões delicadas. Sentíamos que alguns fardos teriam sido deveras pesados para carregar em solidão, enquanto o intercâmbio entre as religiosas e o reitor gerava uma segurança cheia de reciprocidade.

O que permanece hoje daquela experiência?

O seminário de Bosa, como muitas comunidades de adolescentes, viu nos anos mais recentes uma drástica diminuição de presenças, até ao fechamento. Deste modo, o nosso programa concluiu-se em 2009, doze anos depois do seu início: contudo, um período suficientemente longo para que quanto se experimentou ainda esteja vivo. Em relação aos temores iniciais, aqueles anos plasmaram a minha vocação religiosa, de tal forma que agora, como mestra de noviças no meu instituto, vivo um património de sensibilidades e de competências formativas adquirido no meio de futuros sacerdotes. De resto, muitos presbíteros que encontrei quando eram jovens continuam a vir aqui para narrar as suas histórias, para procurar uma religiosa confidente, para superar momentos de desânimo ou para encontrar uma luz nas dinâmicas afectivas e comunitárias em que se encontram imersos: a relação educativa continua e enriquece-se, com uma característica extremamente original de complementaridade entre o masculino e o feminino.

A Irmã Paoletta citou a dimensão afectiva. O que a Irmã Maria Daniela vê da perspectiva que lhe permite o papel de madre de um instituto tão próximo dos sacerdotes?

Em Bosa as religiosas organizavam também percursos de vida afectiva, modulados em conformidade com as várias faixas etárias dos seminaristas. Mas em geral, como mulheres e por vezes com vigor materno, gostaríamos de ver crescer jovens interiormente completos, atentos não apenas à aparência, mas agarrados ao Senhor e não a certos aspectos da vida ou do ministério. Gostaríamos de vê-los tornar-se adultos: não se trata do fruto automático de uma formação teológica. Nas comunidades seminarísticas é necessário investir numa formação humana integral, que supere a fragmentação que os jovens têm cada vez mais em si mesmos, provenientes de mundos, com frequência também familiares, muito desordenados. O relacionamento com as religiosas, inclusive nas formas mais tradicionais da sua presença, pretende favorecer este crescimento no equilíbrio, que amanhã se traduzirá em proximidade positiva às pessoas, em escuta paciente, em respeito e talvez até em audácia e profecia. Sem dúvida, se faltar a maturidade, inclusive a relação com o mundo feminino será influenciada: pode ser áspera, de cima para baixo, desprovida de delicadeza ou, ao contrário, poder adquirir a forma de um apego doentio. Por isso, as mulheres presentes no seminário não podem olhar para o outro lado: elas incidem sobre dimensões repletas de consequências, sobre o clima que se respirará nas paróquias do futuro.

Depois da experiência de Bosa, há outras novas em curso?

Já há vinte anos, quando teve início o experimento com o padre Antonello Mura, o nosso instituto foi obrigado a avaliar uma reorganização das suas presenças. No entanto, tornou-se gradualmente claro que o investimento nos seminários e, em geral, na formação dos sacerdotes, nos relegava à origem, ao carisma e às intuições do nosso fundador. Hoje, no seminário de Cagliari a irmã Antonia Deidda, formada em psicologia, ocupa-se de maturidade psicoafectiva, intervindo especialmente na comunidade propedêutica. A irmã Nolly, de origem indiana, frequentou durante cinco anos juntamente com os seminaristas as lições de teologia, vivendo no meio das religiosas no seminário, mas compartilhando viagens, estudos e preparação dos exames com os futuros presbíteros; em seguida obteve a licenciatura em Ciências bíblicas e quem sabe quais novas experiências de colaboração poderiam derivar desta experiência. Em Oristano, a irmã Sandra Calia nos anos passados era superiora das Filhas de São José ao serviço do seminário menor mas, contemporaneamente, ensinava nas escolas superiores da cidade, frequentadas também por alguns seminaristas. Como se vê, não existe uma única direcção, mas uma evolução do carisma originário para responder às situações do presente. Mas, talvez, a grande novidade da última década é que numa realidade tão rápida e complexa como esta já ninguém acredita que pode realizar-se sozinho. Esta é uma verdadeira oportunidade para uma Igreja com um rosto evangélico e também que nela as mulheres cristãs exprimam mais amplamente toda a riqueza da própria originalidade. Hoje, mais do que nunca, a consciência de que elas oferecem uma contribuição singular tem razão de estar viva».

Para um sacerdote, deixar depois de poucas horas Cagliari e uma conversa tão importante significa voltar com outros olhos para junto das pessoas com as quais compartilha a sua missão missione diária. 

Sergio Massironi

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18 de Agosto de 2019

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