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​No mundo para levar a luz divina

Santa Isabel da Hungria num retrato do pintor flamengo Jan Provoost

A sala de estar de um mosteiro beneditino numa manhã de um dia de trabalho. A luz penetrante do sol de montanha desce sobre alguns papéis que a madre prioresa tinha acabado de colocar nas minhas mãos para que me acompanhassem numa viagem especial. Não consigo resistir e começo a ler, fazendo imediatamente uma descoberta: a 28 de janeiro de 1932 em Zurique uma mulher de quarenta e um anos, Edith Stein, prepara-se para falar sobre outra mulher, Isabel da Hungria, falecida sete séculos antes com apenas vinte e seis anos, e fá-lo com uma inteligência e uma profundidade que conduzem o leitor de hoje para outro mundo, na dimensão atemporal da graça de Deus em ação. «Quanto mais profundamente uma pessoa estiver absorvida em Deus – escreveu em 1928 à Irmã Callista Kopf, a jovem filósofa alemã batizada já havia alguns anos – tanto mais deve de certa forma “sair de si mesma” para penetrar no mundo e levar a luz divina». Talvez seja devido a este “sair” de si mesma que as duas santas, separadas por séculos, acabam por se encontrar uma próxima da outra, a trabalhar nas trevas do mundo. No caso de Teresa Benedita da Cruz, arrancada do Carmelo de Echt, a poeira e o vento de Westerbork, esperando a morte como filha do povo judeu, e para a jovem Isabel, filha do rei André II da Hungria, pobreza e doenças incuráveis.

Descendente de Carlos Magno pelo lado materno, a princesa parece preparada para uma vida de cortesã. Nascida em 1207, transferida da Hungria para Eisenach no castelo de Wartburg, a jovem húngara estava destinada a casar-se com Luís IV da Turíngia, descendente de uma família nobre. «Todos os factos relatados sobre santa Isabel, todas as palavras sobre ela que chegaram até nós – escreve Edith Stein – só nos revelam só uma coisa: um coração ardente que abraça tudo o que a rodeia com um amor profundo, tenro e fiel. «Com efeito, o Espírito Santo tem outros projetos para esta menina. Impaciente em relação às injustiças que vê perpetrar-se em detrimento dos pobres, incapaz de se conformar com uma vida nobre caraterizada por etiquetas falsas, mas sobretudo completamente inflamada de amor pela Eucaristia, Isabel, já mãe de três filhos e jovem viúva, abandona o castelo de Wartburg e na Sexta-Feira Santa de 1228, a menina de vinte e um anos «coloca as suas mãos sobre o altar despojado da igreja franciscana de Marburg» e começa a viver plenamente o ideal de São Francisco. O amor «ardente e misericordioso que se abre a todos os infelizes e aflitos», contagiando quem dele se aproxima, e uma alegria espontânea e infantil, são as duas caraterísticas que nunca mais a abandonarão no seu percurso terreno: oferecia habitualmente às crianças mais pobres, narra-nos Edith Stein, alguns brinquedos simples e, em seguida, entretia-se a brincar com elas. Em pouco tempo todos lhe chamavam “mãe”, e ela costumava dizer: «Sempre disse, é necessário unicamente fazer feliz os pobres!».

numa pintura de Pietro Nelli (1365)

Em Isabel, fundadora de um hospital para os últimos entre os miseráveis, parecem coexistir, na opinião da Stein, a «espontaneidade» natural e «a luta implacável contra o próprio temperamento»: por outras palavras, «a amável santa da felicidade mais suave, tão encantadora por sua própria natureza, é ao mesmo tempo uma ascética austera». Sob a direção espiritual de Corrado de Marburg, ao qual permanecerá obediente até à morte, Isabel gradualmente aprende a dominar a sua natureza e a amenizar, pelo menos parcialmente, a sua vontade. Ao longo dos últimos três anos de vida, permanecerá no seu hospital ao lado dos doentes e dos pobres desempenhando as tarefas mais humildes e ficando até altas horas da noite inclusive com aqueles «demasiado fracos e cansados para voltar para casa». É difícil não dar um salto para a frente nos séculos, relendo o precioso testemunho de um certo senhor Marcan, preso em 1942 em Westerbork com Edith Stein: «Irmã Benedita passava entre as mulheres como um anjo de consolação, levantando algumas, cuidando de outras. Muitas mães – continua a testemunha ocular – pareciam ter caído num estado de prostração que beirava a loucura: permaneciam ali gemendo, como atordoadas, abandonando os seus filhos. Irmã Benedita ocupava-se imediatamente das crianças mais pequeninas, lavava-as, penteava-as, dando-lhes as refeições e os tratamentos necessários».

É a própria Edith Stein quem nos revela um pormenor impressionante acerca da obediência que a jovem princesa húngara tinha em relação ao seu diretor espiritual: «Apenas sobre um ponto nunca cedeu completamente: deixar que ficasse com ela, para além do serviço que já desempenhava no hospital, uma criança que sofria de uma doença particularmente terrível e ser a única que cuidava dela». Corrado de Marburg referiu pessoalmente ao Papa Gregório IX que quando Isabel morreu uma criança que sofria de sarna «estava ainda ali sentada à sua cabeceira». Isabel da Hungria «elevada a esta humanidade realizada – conclui Edith Stein – expressão pura da natureza libertada e transfigurada pela força da graça», tornar-se-á santa em 1235, apenas dois anos após a sua morte.

FERDINANDO CANCELLI

 

Ferdinando Cancelli

Nasceu em Turim, em 1969, e depois dos estudos clássicos hesitou entre letras, história e medicina. Tornou-se médico e obteve o pós-doutoramento em medicina paliativa na Universidade Claude Bernard de Lião (França) e a especialização em bioética na Universidade Católica do Sagrado Coração. Depois de ter passado um período de trabalho como Chef de clinique no Hôpital de Bellerive (Genebra), exerce a profissão de médico paliativo em Turim, para a Fundação f.a.r.o. onlus. Casou-se com Clara em 1997, compartilhando com ela o caminho para se tornar oblato secular da abadia Mater Ecclesiae na ilha de São Júlio e deve muitíssimo à sua família monástica. Para «donne chiesa mondo» escreveu a história de Juliana de Norwich (novembro de 2015). 

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23 de Agosto de 2019

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