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No mundo em ponta de pés

· O livro de Bento XVI que completa a trilogia sobre Jesus de Nazaré, em confronto com o início da encíclica «Deus caritas est» e com «Introdução ao cristianismo» ·

Há sempre um nó para desatar que se apresenta a cada geração, como aconteceu com os discípulos: «Quem dizeis vós que eu sou?». E há sempre o risco de considerar Deus como um obstáculo para eliminar

Para Bento XVI Jesus Cristo não é um episódio intermitente na vida mas um modo de viver. A infância de Jesus, o volume que completa a trilogia sobre Jesus de Nazaré, resume um percurso intelectual de pesquisa teológica e de sentido do estudioso de teologia que não acabou com a eleição para sucessor de Pedro.

Mais que uma mensagem sobre Jesus, Ratzinger resume o seu testemunho sobre quem é para ele Jesus, a figura decisiva da fé cristã. E fá-lo porque está convicto de que para renovar a credibilidade da fé no mundo moderno é necessário que cada cristão procure confrontar-se seriamente com os Evangelhos e responda pessoalmente à pergunta acerca de quem é Jesus de Nazaré na própria vida. Da resposta a esta pergunta e do compromisso que dela deriva depende em grande parte a consecução de um mundo mais justo, fraterno e humano como também o bom êxito das vidas individuais.

O Jesus proposto pelo Papa não é uma figura mínima e devocional, mas a pessoa que representou no máximo grau o amor a Deus e ao próximo traçando o caminho de uma possível humanidade nova. Compreende-se melhor esta figura na continuidade com outro grande tema ratzingeriano, o amor, que completa a busca cristológica, arrancada deste modo do mero exercício intelectual e tornando-se, de facto, princípio animador do dia-a-dia ao alcance de cada cristão, mas também de quantos mesmo não acreditando procuram razões de vida. A infância de Jesus relaciona-se portanto idealmente com a introdução da encíclica Deus caritas est , distante no tempo, do famoso texto Introdução ao cristianismo de 1968.

Na sua encíclica, a da surpresa geral porque dedicada ao amor como linha-guia do pontificado, Bento XVI escreve entre outras coisas: «No início do ser cristão não há uma decisão ética ou uma grande ideia, mas o encontro com um evento, com uma Pessoa, que dá à vida um novo horizonte e com isto a direcção decisiva. Num mundo no qual com o nome de Deus por vezes está relacionada a vingança ou até o dever do ódio e da violência, esta é uma mensagem de grande actualidade e de significado muito concreto. Por isso na minha primeira Encíclica desejo falar do amor, com o qual Deus nos enche e que deve ser comunicado por nós aos demais».

A infância de Jesus narra como aconteceu que o amor de Deus se tornou uma pessoa concreta, um menino, por isso amável, mas frágil e indefeso como os pobres do mundo que o presépio perpetuou na figura dos pastores. Pessoas à margem da cidade onde se luta pelo poder e não pelo serviço, imergida no ruído e por isso não atenta a aliviar o sofrimento da maioria e a amparar a debilidade de tantos. Os pobres são importantes no livro do Papa Ratzinger. Eles representam a atitude justa do homem diante de Deus, esvaziados de presunção, abertos a receber e a dar ajuda; cientes da própria debilidade e limites, mas ao mesmo tempo da própria dignidade humana que sabem que receberam em doação gratuitamente.

A figura do menino recorre na reflexão teológica e homilética do Papa. Jesus Menino tem o olhar justo para ver com ternura o mundo circunstante, mas é um menino igualmente consciente do sofrimento que o espera. É um Menino que já vive em perspectiva da cruz antes de completar na ressurreição a sua obra redentora. Um menino que vem ao mundo em ponta de pés e, não obstante o estilo leve, difícil de acolher porque é alternativo à sabedoria do mundo. Desde o nascimento, com o seu simples estar submete-se ao juízo do mundo, no sentido que inaugura um tempo novo no qual em vez da força, do dinheiro, da subjugação terão valor as bem-aventuranças desarmadas.

É difícil ler a infância de Jesus assinada por Ratzinger e imaginar que se trate de um Papa nostálgico de formas superadas pelo tempo ou menos amigo do homem contemporâneo de quanto o Menino Jesus o era na sua época, não obstante os seus não o tenham recebido e acolhido. Amar na contradição é uma das questões maiores do nosso presente que é tempo de grandes contradições e desequilíbrios. O livro do Papa chega no meio deste momento de transição do mundo, e volta a pôr no centro do debate a questão de Deus vista como necessária para encontrar uma saída humana para a grande história e para as pequenas crónicas da vida diária. Há sempre o nó para desatar que se apresenta a cada geração, como se apresentou aos discípulos de Cristo: quem dizeis vós que eu sou? Há sempre que escolher se considerar Deus uma companhia libertadora ou um obstáculo que se deve eliminar. E para sair bem desta situação um simples homem, por muito virtuoso que seja, não é suficiente. Explica-se com esta convicção a decisão do Pontífice de dedicar os últimos dez anos – compativelmente com outros compromissos gravosos – a uma reflexão articulada sobre Jesus de Nazaré, ponto de encontro único e irrepetível de Deus e do homem. Ele permanece o caminho e a verdade para dar solução à antiga questão de Deus e à pacificação da busca intelectual e vital do homem acerca de si, da vida e da morte.

No ensaio introdutório ao volume com o título Introdução ao cristianismo publicado com uma nova edição em 2000, Ratzinger escreveu entre outras, sobre uma questão que é basilar na trilogia sobre Jesus de Nazaré: «A figura de Jesus é explicada em termos completamente diversos não só em relação ao dogma, mas em relação aos próprios Evangelhos. Ou seja, o que é posto de lado é a fé que Cristo é o único filho de Deus, que nele Deus se fez realmente homem entre os homens e que o homem Jesus está eternamente em Deus, é o próprio Deus, portanto não uma forma de manifestação de Deus, mas o Deus único e insubstituível. Ou seja, Cristo, sendo homem, torna-se homem que experimentou Deus de modo especial. Ele é um iluminado e, como tal, já não substancialmente diverso em relação aos outros iluminados, como Buda». No caso de Jesus, é a sua pessoa que é importante e posta em questão. Ele disse que era o caminho, a verdade e a vida. «Ele mesmo é o caminho; não existe caminho algum independentemente dele; não existe um caminho longo no qual ele não conte nada». A mensagem de Jesus não é uma doutrina mas a sua própria pessoa. «Se a figura de Jesus é subtraída a esta ordem de grandeza, que certamente causa sempre escândalo, se for separada do ser Deus, então torna-se contraditória: permaneceriam apenas fragmentos que nos deixariam perplexos ou se traduziriam em pretextos para condescender à auto-afirmação».

Naquela época como hoje – escreve o Papa na introdução ao primeiro volume da trilogia – tinha-se determinado uma situação dramática na consciência comum da cristandade: sabemos pouco – afirma-se de várias partes – de Jesus e só posteriormente a fé na sua divindade plasmou a sua imagem (de certa forma um Jesus inventado, correspondente aos nossos desejos mas não ao Jesus histórico). Isto torna incerto o ponto de referência autêntico da fé cristã: a amizade íntima com Jesus da qual tudo depende, ameaça emaranhar-se no vazio.

A infância de Jesus finalmente completa o projecto inicial de escrever sobre Jesus de Nazaré. Foi terminado pelo Papa a 15 de Agosto de 2012, festa da Assunção. Data que não foi escolhida por acaso, considerando o papel de Maria nos Evangelhos da infância. Falou-se muito de um excerto do texto no qual se afirma que não é uma certeza que estivessem o boi e o jumento junto da manjedoura, mas nas publicações até agora feitas não foram minimamente mencionadas as coisas importantes escritas em relação ao papel e ao estilo de Maria. Esperança do Papa, precisamente a partir do Evangelho da Anunciação, é que a leitura do livro possa ajudar muitas pessoas no caminho rumo a e com Jesus.

Há páginas deste livro que realçam com especial força a intenção do autor: ele pretende oferecer aos cristãos uma ajuda sobre como ser cristãos hoje, fiéis a Jesus. Se a meditação sobre os Evangelhos não se torna vida, de facto, a própria Encarnação de Deus no Menino de Belém é vã também para quantos hoje não o acolhem.

Um longo caminho interior amadurecido através dos estudos e da experiência espiritual convenceu Bento XVI a fazer algo importante a fim de contribuir para superar a ruptura entre o Jesus histórico e o Cristo da fé. Cada cristão está chamado a esclarecer na sua consciência se o Cristo da sua fé é o mesmo Jesus do qual narram os Evangelhos, ou o Jesus do qual fala hoje a Igreja é um Jesus inventado e idealizado pelos seus discípulos depois da sua morte.

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22 de Setembro de 2019

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