Nota

Este site utiliza cookies...
Os cookies são pequenos arquivos de texto que ajudam a melhorar a sua experiência de navegação no nosso site. Ao navegar em qualquer parte deste site você autoriza a utilização dos cookies. Poderá encontrar maiores informações sobre a policy dos cookies nas Condições de utilização.

No início só um sonho

No início eram apenas umas dez. Depois tornaram-se milhares. Reuniam-se no mercado porque era ali que as tropas do então presidente Charles Taylor recrutavam crianças para as levar para a frente de combate. Os camiões partiam cheios. E voltavam vazios.

Tawakkul Karman, Leymah Gbowee e Ellen Johnson Sirleaf durante a cerimónia de atribuição do Nobel para a paz (2011)

Estamos no ano de 2002 e na Libéria quando, depois de treze anos de sanguinolenta guerra civil que tinha ceifado mais de 150.000 vidas, Leymah Gbowee fez um sonho. Sonhou que presidia a uma reunião numa igreja e que iniciou a lutar pela paz no seu país. Quando acordou decidiu que tinha chegado o momento de fazer o que tinha sonhado. A assistente social liberiana, mãe de seis filhos, então reuniu um grupo de mulheres num mercado e, juntamente com outra mulher, a muçulmana Asatu Bah-Kenneth, deu início a um movimento que levou à paz na Libéria e à histórica eleição do primeiro presidente africano mulher, Ellen Johnson Sirleaf.

Nasceu assim o movimento das Mulheres pela Paz e a Reconciliação na Libéria. No início ninguém dava importância a estas mulheres. Diziam-lhes para ficarem em casa. Mas elas insistiram. Aliás, começaram a intensificar as reuniões e as marchas, enquanto a guerra continuava. No final decidiram uma greve matrimonial, recusando relações sexuais com os maridos. Durante meses Leymah Gbowee encorajou as mulheres do seu país a fazer pressão sobre os homens a fim de que pusessem fim à guerra civil. E depois de três meses, as mulheres obtiveram um encontro com Taylor obrigando-o a prometer que teria dado início a um diálogo com os grupos rebeldes no Gana. A luta delas voltou a trazer a paz ao país, abrindo o caminho para a eleição como presidente de Ellen Johnson Sirleaf. O novo chefe do Estado herdou uma Libéria aniquilada por uma guerra civil longa e cruel que tinha destruído a economia, o tecido social e o futuro de uma geração de jovens: mais de 25.000 guerrilheiros desmobilizados, aos quais o conflito tinha roubado a infância e a educação. O compromisso de Johnson Sirleaf foi o de promover a reconciliação, de lançar as bases para um país em paz, de restabelecer a autoridade dos idosos, da lei e de deixar para trás personagens tão desastrosas como Charles Taylor, ex-guerrilheiro e ex-presidente liberiano julgado pelo tribunal de Haia pelos seus crimes na vizinha Serra Leão.

A Libéria é um exemplo do lento mas inexorável progresso das mulheres em África e do papel decisivo que estão a desempenhar na construção de um continente mais pacífico, equitativo e reconciliado. Em quatorze anos este pequeno país viveu duas guerras civis. A determinação das mulheres foi tão firme que, quando o diálogo entre as diversas fações em guerra entrou numa fase de estagnação, barricaram a sala onde se estavam a realizar os colóquios de paz, para não permitir que os homens saíssem antes de terem alcançado um acordo. Finalmente, em agosto de 2003, o acordo foi assinado.

Em África, a maior parte das mulheres vive em contextos políticos pouco ou não democráticos, nos quais a desigualdade de género se perde entre problemas mais graves. As mulheres são vítimas de culturas tribais que as relegam para um papel de segundo plano. Não têm voz nas suas comunidades. Assim como não podem receber herança ou possuir uma propriedade. Em nome de tradições e crenças religiosas ancestrais são vítimas da poligamia e são submetidas à brutal mutilação genital. E são sempre elas que perdem o comboio da educação, da saúde e da política, e que se tornam alvo único da violência de género e do estupro como arma de guerra, com todas as consequências de horror, doenças sexuais e gravidezes indesejadas.

Mas este quadro tão duro e desolador não seria completo se não fosse frisado também que aquelas mesmas mulheres estão a lutar com todas as suas forças para deixarem de ser consideradas vítimas, para obter visibilidade social, económica e jurídica, e recuperar o controle do seu corpo e da própria vida. «As africanas dizem “não” ao afro-pessimismo – escreve no seu blog Nestor Nongo, sociólogo e professor congolês residente na Espanha – e restabelecem a esperança em todo o continente. Escorraçam ditadores, levantam o próprio país, influenciam as agendas políticas, lutam pelos direitos humanos e ocupam-se das pessoas abandonadas e dos órfãos. E reconciliam a sociedade, inovam e criam, chefiam empresas e tutelam o ambiente». Ellen Johnson Sirleaf e Leuman Gbowee em 2011 receberam o prémio Nobel para a paz devido ao papel decisivo desempenhado para pôr fim à guerra civil no seu país. Com elas, o reconhecimento foi atribuído também a uma jovem iemenita, Tawakkul Karman, chefe do grupo de Mulheres Jornalistas sem Correntes criado em 2005. A elas se reconhece o mérito de terem lutado com todas as forças pelos direitos das mulheres, de terem defendido os direitos humanos e de continuarem a representar a alma feminina de uma África que aspira pela paz e pela justiça.

Silvina Pérez

Edição em papel

 

AO VIVO

Praça De São Pedro

25 de Agosto de 2019

NOTÍCIAS RELACIONADAS