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No banco da nossa igreja

 Mexes-te. Sobressaltas. Estremeces. Demostrando-me, mais uma vez, que a Palavra é capaz de falar, cada vez de forma diferente, ao eu que somos naquele preciso momento da vida. Mulheres, homens, crianças ou idosos, frágeis, fortes, crentes, céticos, doentes. É domingo 20 de dezembro, ouvimos sentados no banco da nossa igreja – eu que me esforço para estar de pé, tu que já tens 6 meses e estás exatamente no ponto em que Ele se encontrava. É um Evangelho que conheço, e não porque eu seja particularmente perita em escritura, mas porque é um trecho importante: duas mulheres grávidas encontram-se e reconhecem-se, uma belíssima página de amizade feminina que sobressai numa história da humanidade, que medita pouco sobre a profunda proximidade entre mulheres, pois acredita pouco. Hoje, porém, estás presente tu e a minha escuta renova-se. Hoje a visitação já não fala dirigindo-se a mim, mas a nós. Agora a narração não é mais verdadeira ou menos autêntica (estou convicta de que a maternidade não coincide com o facto de ser mulher; nem sequer é uma sua possível declinação, mas não a esgota), é simplesmente diferente. Assim como agora tudo é diverso. O meu corpo que muda porque muda o teu; o meu passo obrigado a diminuir, pois acompanhar-te não é tão fácil, meu pequenino.

Penso n’Ela que se pôs a caminho para ir visitar Isabel. Como estava? Com quem estava? Quanto fôlego lhe foi necessário? Será que tinha medo? O que terá dito ao seu pequenino enquanto prosseguia? Só um narrador homem, e não pai, pode ignorar aspetos tão decisivos. E, no entanto, nem sequer eu tinha pensado nisto anteriormente. Refleti sobre a dança, no final do percurso, entre Maria e Isabel: mas a cena, agora dou-me conta, é mais rica. Porque entre aqueles braços que se apertam há também Jesus e João, antes que se tornassem o Jesus e o João que conhecemos.

Durante os primeiros meses não havia correspondência entre a alegria de saber que estavas connosco e o meu corpo que sofria. Esperava estar melhor, mas contudo eu era grata porque existias, embora ainda não te sentisse. Depois cresceste e fizeste com que te conhecesse: já há meses que o meu ventre é atravessado por ondas maravilhosas; passando da condição de estar cheia de protuberâncias como um dromedário, até adquirir a forma de um «Bacio perugina». Por vezes fazes bolhas (lanças beijinhos, explico aos sobrinhos eufóricos pela chegada do primo) e como Jesus ao ouvir as palavras de Isabel sobressaltas quando, regressando, o teu pai te saúda; pergunto-me quantas mãos, quantos pés terás, considerando o caos que fazes.

Gostaria de te perguntar, um dia, o que sentias quanto sobressaltavas, quando me falavas com os teus movimentos, quando procuravas fazer com que te conhecêssemos, quando reconhecestes o teu Jesus, quando participastes da alegria de Maria e Isabel. Ninguém recorda, depois: eu sei. E então a minha memória será a nossa memória; a minha voz será a nossa voz. É precisamente isto o que me comunica hoje a visitação. É isto que ela nos comunica, meu pequenino.

Giulia Galeotti

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24 de Outubro de 2019

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