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Não chores por mim, ó mãe

O ícone intitulado «Não chores por mim, ó mãe» apareceu na tradição russa a partir do século XVI. Trata-se da imagem de Cristo morto, cujo busto se eleva ereto do sepulcro, diante da cruz, e de Maria sua mãe, que parece ampará-lo com um abraço. Esta imagem da «Pietà» tem origens antigas e é particularmente interessante, tanto pelo seu tema — uma testemunha privilegiada da manifestação e do desenvolvimento da expressão dos sentimentos na arte religiosa — como também pela sua história, exemplo instrutivo do intercâmbio cultural entre Oriente e Ocidente.

«Pietà» (Mosteiro de Iviron, Monte Athos, séc. XVI)

Tendo surgido no mundo bizantino inicialmente apenas como representação de Cristo Homem das dores (séc. XI) — e sucessivamente posta em paralelo com uma imagem da Virgem com o Menino (associação que levará ao nascimento da iconografia da Eleusa, a Virgem da Ternura na qual Cristo Menino abraça a Mãe) ou então, como num díptico do grande mosteiro da Transfiguração de Metéora, com a imagem de Maria afligida pelo sofrimento — chegou à Itália por volta do século XIII e aqui conheceu um sucesso notável, transformando-se e propagando-se ao norte, na França e na Alemanha. Paralelamente, também na área bizantina a iconografia do Homem das dores (chamada Akra Tapinosis, Grande Humilhação) chegou a tornar-se mais complexa, emprestando elementos próprios às imagens da crucificação e da deposição da cruz, e provavelmente também sofrendo a influência dos desenvolvimentos ocidentais. Um ícone de Tessalonica, datado aproximadamente de 1400, mostra Maria que abraça Cristo morto e tem o título de «A descida». Talvez se trate do primeiro exemplo deste tema. A mesma imagem aparece depois no Monte Athos, no início do século XVI, e foi a partir dali, a meu parecer, que chegou à Santa Rússia, tornando-se ali muito popular. Quando, na segunda metade do século XX, os ícones russos foram descobertos pela cultura ocidental, sentimos esta imagem como nossa.

Na tradição bizantina Maria que abraça Cristo deposto da cruz e que se eleva do sepulcro já é um anúncio da vitória sobre a morte e um compêndio dos três dias santos, como justamente sobressai do tropário das preces matutinas do Sábado Santo, do qual o ícone recebeu o nome: «Não chores por mim, ó mãe, vendo no sepulcro o filho que, virginalmente, concebeste no teu ventre: ressuscitarei e serei glorificado e, dado que sou Deus, elevarei incessantemente na glória aqueles que, com fé e afeto, te magnificarem». Uma longa tradição patrística e hinográfica contribuiu para transformar em texto litúrgico este diálogo entre Cristo morto e a Virgem, que aparece como tropário da Ode ix, aquela correspondente ao Magnificat, e que é retomado na sucessiva liturgia das Lamentações (Enkomia 164-166):

«Ó luz dos meus olhos, ó meu dulcíssimo filho, como podes agora esconder-te num túmulo?

Sofro esta paixão para libertar Adão e Eva, ó mãe, não chores!

Glorifico, meu filho, a imensidão da tua misericórdia; é por ela que tu padeces».

O elemento do diálogo entre Cristo e a Mãe na hora da Paixão — testemunhado pela liturgia unicamente nestas breves sequências para o Sábado Santo — parece que foi introduzido por Romano o Melodista (na primeira metade do século vi) no hino Maria aos pés da cruz. Através de um estilo dramático, ele consegue enunciar com clareza e com força o significado da paixão e da morte, interpretando-as à luz da grande misericórdia de Cristo: «Mais um pouco de paciência, mãe... para que tu possas cantar: “Com o sofrimento o meu filho e meu Deus destrói o sofrimento”» (13).

A lamentação diante de Cristo morto remete para a lamentação de Adão e para a misericórdia de Cristo que, a fim de libertar Adão e Eva, se apressa na paixão, vai em busca da pequena ovelha tresmalhada e, como o bom samaritano, inclina-se sobre as suas feridas e cura-as. A imagem de Cristo Homem das dores é, já por si só, a imagem do abraço de Cristo à humanidade, na sua carne. Simbolicamente, ele corresponde àquele primeiro abraço cheio de arrebatamento do Menino à Mãe, meditativa e quase presciente em relação ao mistério da Paixão, fixado no ícone da Virgem da Ternura.

A expressão dos sentimentos de alegria, dor e carinho é testemunhada na arte cristã somente depois da controvérsia iconoclástica. A partir dos séculos ix-x, em Bizâncio, os artistas começaram a pintar Cristo morto na cruz, a sua deposição e a sua sepultura, impelidos pela influência dos textos homiléticos e pelas inovações litúrgicas do tempo dos Comnenos. Mas significativamente o título que aparece tanto na imagem da crucificação como naquela da Grande Humilhação é Rei da glória, título que voltaremos a encontrar também quando for introduzido o abraço da Virgem ao Filho morto, come no ícone de Iviron. Uma grande paz, principalmente na face de Cristo, promana deste ícone, tão distante das expressões extremas do sofrimento, então conhecidas no Ocidente. Os sinais da dor não são anulados, mas trata-se de um sofrimento interiorizado, expresso nos olhos fechados de Cristo morto e nos traços dolentes da Mãe. É necessário observar que Maria não inclina a cabeça, mas eleva-a na direção do rosto de Jesus. Talvez se possa pensar na frase evangélica: «As próprias forças dos céus serão efetivamente abaladas... Então, verão o Filho do Homem vir sobre uma nuvem com grande glória e majestade... levantai as vossas cabeças, porque se aproxima o dia da vossa libertação» (Lucas 21, 26-28). Esta passagem adapta-se bem ao espírito e à época de Teófanes, o Cretense. Pouco mais de meio século depois da trágica queda de Constantinopla nas mãos dos otomanos (1453), a pintura de Teófanes constitui um sinal de resistência e um meio para preservar o grandioso património espiritual bizantino. Linhas interrompidas e ásperas, luzes e sombras que convivem na sua obra, testemunhas de uma tensão ascética exigente, mas portadora da luz da Ressurreição. «Não chores por mim, ó mãe — mais precisamente: não faças a lamentação fúnebre — Sofro... para libertar Adão e Eva». Sim, «Com o sofrimento o meu filho e meu Deus destrói o sofrimento».

Raffaela D'Este

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20 de Agosto de 2019

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