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Não ceder ao fracasso

· ​Missa em Santa Marta ·

É possível preferir o «fracasso», a «desolação» ou o «cansaço» em vez da «cura», da «consolação» e da «esperança»? Pode parecer estranho, mas é o que com frequência acontece na vida do cristão que se deixa levar pela lamentação e «insatisfação». Durante a homilia da missa celebrada em Santa Marta na manhã de terça-feira, 9 de abril, inspirando-se na primeira leitura do dia (Nn, 21 4-9) – com a narração da análoga experiência vivida pelos israelitas durante os tempos difíceis do êxodo e do deserto – o Papa afirmou que isto é uma verdadeira «doença» espiritual, analisando e comparando-a com os nossos dias esta dilacerante atitude do coração do homem.

De facto, o trecho bíblico faz realmente «refletir sobre o cansaço» do povo de Deus que, a caminho da terra prometida «não aguentou a viagem». A tal propósito o Pontífice recordou a evolução psicológica e espiritual dos israelitas em fuga do Egito.

«Começaram com entusiasmo», disse Francisco, acreditando em Moisés: «prepararam o cordeiro, os pães, tudo, para fugir: tinham esperança». Depois veio «a alegria da saída do Egito», e em seguida «à beira do mar, o medo». Com efeito, eles «viam o exército chegar e começaram a insultar Moisés: “Trouxe-nos aqui para nos matar!”». Mas o medo, rapidamente, graças ao «milagre do mar», transformou-se na «alegria da libertação, e foram em frente».

Depois, chegaram os tempos difíceis do deserto e com eles o «cansaço»: o povo não aguentou o caminho». Assim, se antes «no tempo da libertação» todos estavam contentes», naquele momento «começaram as murmurações contra Moisés: “Mas, ele fez-nos vir aqui para que morrêssemos no deserto – Mas nós no Egito estávamos mais felizes: comíamos aquela omeleta de cebolas tão boa e aqui só esta coisa estranha...”». Uma evolução explicada pelo Papa: «Tinham perdido a memória. O cansaço é seletivo: faz-nos ver sempre o lado negativo do momento que estamos a viver e esquecer os aspetos positivos que tivemos».

Com a murmuração chega também «o afastamento de Deus». Os israelitas esquecem-se até que precisamente o Senhor os tinha libertado: «eles implicam com Moisés, lamentam-se com o Senhor, e chegam até à apostasia». Também as «joias que as mulheres israelitas tinham – digamos – “roubado” com astúcia e dolo às egípcias, acabaram por ser um ídolo» Foi assim que «o dom de Deus» foi transformado «num ídolo». Tudo isto, frisou o Pontífice, porque o «espírito de cansaço nos tira a esperança».

Mas, acrescentou Francisco, o «que aconteceu aos nossos pais no deserto sucede a nós nos tempos da desolação, quando não se veem os resultados da promessa imediatamente». Então «o povo não aguentou a viagem»; e também hoje «nós, quando estamos na desolação, não suportamos a viagem e procuramos refúgio nos ídolos ou na murmuração, ou noutras coisas». De resto, o «espírito de cansaço» traz em si também «o espírito de insatisfação. Nada nos agrada, tudo corre mal...».

Também Jesus, observou o Papa, se referiu a este «espírito de insatisfação» (cf. Lc 7, 32) comparando-o com o que acontecia com algumas crianças que brincavam: «Tocámos flauta para vós, e não dançastes! Entoámos lamentações, e não chorastes!». Do mesmo modo, se exprime a «insatisfação do cristão» que se lamenta sempre: «Não, nada corre bem...». Uma atitude interior que, afirmou Francisco, «é um campo perfeito para a sementeira do diabo». Nesta situação o homem torna-se incapaz até de perceber «um sinal de esperança». Para fazer compreender melhor esta condição, o Pontífice deu o exemplo do que aconteceu aos discípulos de Emaús, que deixaram Jerusalém depois de as mulheres terem dito que o Senhor ressuscitou: «...vamo-nos embora, isto não está bem». Ou seja, preferiram a «desolação», como emerge da sua expressão: «“Ah, esperávamos, mas... Não está aqui, “mas”: vamos embora».

Esta, explicou o Papa, é precisamente a «desolação cristã»: ser tentado por «ceder ao fracasso», ter «medo das consolações, medo da esperança, medo das carícias do Senhor». E assim, acrescentou, muitos cristãos poderiam levar «uma vida de carpideiras»: eles «vivem a lamentar-se, a criticar, vivem na murmuração e insatisfeitos».

A narração bíblica afirma que «o povo não aguentou a viagem». E também «nós cristãos – disse Francisco – muitas vezes não suportamos a viagem. E a nossa preferência é o apego ao fracasso, isto é, à desolação. E a desolação é da serpente, a serpente antiga, a do Paraíso terrestre». A serpente, explicou o Pontífice, aludindo à serpente de bronze elevada por Moisés, é um símbolo: «a mesma serpente que seduziu Eva e este é um modo de mostrar a serpente que têm dentro» e que morde «sempre na desolação». Também os cristãos às vezes «não suportam até a ressurreição de Jesus. Não suportam a esperança. Muitas vezes preferem o fracasso. Acontece também a nós».

Assim o que Deus diz a Moisés – «fazer uma serpente e elevá-la» – «é uma profecia», porque também Jesus – lê-se no excerto do Evangelho do dia (Jo 28, 1-30) – «será elevado como a serpente. Ele assumiu sobre si todos os males».

Portanto, sugeriu o Papa, é preciso recordar bem a observação do trecho bíblico – «o povo não suportou a viagem» – para nos darmos conta que também os cristãos «não aguentam a viagem. Os cristãos não suportam a esperança. Não suportam a cura. Não suportam a consolação» e estão «mais apegados à insatisfação, ao cansaço, ao fracasso». Eis a invocação conclusiva de Francisco: «O Senhor nos liberte desta doença». 

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22 de Novembro de 2019

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