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Na origem de cada injustiça está a falta de amor

· Bento XVI presidiu à celebração da Quarta-Feira de Cinzas na Basílica romana de Santa Sabina ·

Na origem de cada injustiça material e social existe aquilo que a Bíblia denomina «iniquidade», ou seja o pecado, que «consiste fundamentalmente numa desobediência a Deus, quer dizer, numa falta de amor», recordou o Sumo Pontífice durante a homilia da celebração eucarística que presidiu na tarde do dia 17 de Fevereiro, Quarta-Feiras de Cinzas, na Basílica romana de Santa Sabina, na colina do Aventino.

«Tendes compaixão de todos, Senhor... Não aborreceis nada do que fizestes... não olhais para os pecados dos homens a fim de os trazer à penitência... Mas perdoais a todos, porque todos são vossos, ó Senhor nosso Deus» ( Antífona da entrada ).

Venerados Irmãos no Episcopado

Queridos irmãos e irmãs

Com esta comovedora invocação, tirada do Livro da Sabedoria (cf. 11, 23-26), a liturgia introduz a celebração eucarística da Quarta-Feira de Cinzas. São palavras que, de certa forma, abrem todo o itinerário quaresmal, pondo como seu fundamento a omnipotência do amor de Deus, o seu absoluto senhorio sobre todas as criaturas, que se traduz em indulgência infinita, animada por constante e universal vontade de vida. De facto, perdoar alguém equivale a dizer-lhe: não quero que tu morras, mas que vivas; desejo sempre e só o teu bem.

Esta certeza absoluta apoiou Jesus durante os quarenta dias transcorridos no deserto da Judeia, depois do baptismo recebido de João no Jordão. Aquele longo tempo de silêncio e de jejum foi para Ele um abandonar-se completamente ao Pai e ao seu desígnio de amor; foi ele mesmo um «baptismo», isto é, uma «imersão» na sua vontade, e neste sentido uma anticipação da Paixão e da Cruz. Adentrar-se no deserto e permanecer nele por muito tempo, sozinho, significava expor-se voluntariamente aos assaltos do inimigo, o tentador que fez cair Adão e por cuja inveja a morte entrou no mundo (cf. Sb 2, 24); significava travar com ele a batalha em campo aberto, desafiá-lo sem outras armas a não ser a confiança ilimitada no amor omnipotente do Pai. Basta-me o teu amor, alimento-me com a tua vontade (cf. Jo 4, 34): esta convicção habitava na mente e no coração de Jesus durante aquela sua «quaresma». Não foi um acto de orgulho, um empreendimento titânico, mas uma escolha de humildade, coerente com a Encarnação e com o baptismo no Jordão, em continuidade com a obediência ao amor misericordioso do Pai, que «amou de tal modo o mundo que lhe deu o Seu Filho único» (Jo 3, 16).

O Senhor Jesus fez tudo isto por nós. Fê-lo para nos salvar, e ao mesmo tempo para nos mostrar o caminho para o seguir. De facto, a salvação é dom, é graça de Deus, mas para fazer efeito na minha existência exige o meu consentimento, um acolhimento demonstrado nos factos, ou seja, na vontade de viver como Jesus, de caminhar atrás d'Ele. Seguir Jesus no deserto quaresmal é por conseguinte condição necessária para participar na sua Páscoa, no seu «êxodo». Adão foi afastado do Paraíso terrestre, símbolo da comunhão com Deus; agora, para voltar a esta comunhão e portanto à verdadeira vida, a vida eterna, é preciso atravessar o deserto, a prova da fé. Não sozinhos, mas com Jesus! Ele – como sempre – precedeu-nos e já venceu o combate contra o espírito do mal. Eis o sentido da Quaresma, tempo litúrgico que todos os anos nos convida a renovar a opção de seguir Cristo pelo caminho da humildade para participar na sua vitória sobre o pecado e sobre a morte.

Nesta perspectiva, compreende-se também o sinal penitencial das Cinzas, que são impostas sobre a cabeça de quantos iniciam com boa vontade o itinerário quaresmal. Essencialmente é um gesto de humildade, que significa: reconheço-me por aquilo que sou, uma criatura frágil, feita de terra e destinada à terra, mas também feita à imagem de Deus e destinada a Ele. Pó, sim, mas amado, plasmado pelo seu amor, animado pelo seu sopro vital, capaz de reconhecer a sua voz e de lhe responder; livre e, por isto, também capaz de lhe desobedecer, cedendo à tentação do orgulho e da auto-suficiência. Eis o pecado, doença mortal que muito depressa começou a poluir a terra abençoada que é o ser humano. Criado à imagem do Santo e do Justo, o homem perdeu a própria inocência e agora só pode voltar a ser justo graças à justiça de Deus, a justiça do amor que – como escreve São Paulo – «se manifesta por meio da fé em Cristo» (Rm 3, 22). Inspirei-me nestas palavras do Apóstolo para a minha Mensagem, dirigida a todos os fiéis por ocasião desta Quaresma: uma reflexão sobre o tema da justiça à luz das Sagradas Escrituras e do seu cumprimento em Cristo.

Também nas leituras bíblicas da Quarta-Feira de Cinzas está muito presente o tema da justiça. Em primeiro lugar, a página do profeta Joel e o Salmo responsorial – o Miserere – formam um díptico penitencial, que evidencia como na origem de cada injustiça material e social existe aquilo que a Bíblia denomina «iniquidade», ou seja o pecado, que consiste fundamentalmente numa desobediência a Deus, quer dizer, numa falta de amor. «Reconheço – confessa o Salmista – de verdade as minhas culpas / o meu pecado está sempre diante de mim. / Contra Vós apenas é que eu pequei / pratiquei o mal perante os vossos olhos» ( Sl 50 [51] 5-6). Portanto, o primeiro acto de justiça consiste em reconhecer a própria iniquidade e admitir que ela está arraigada no «coração», no próprio cerne da pessoa humana. Os «jejuns», os «prantos» e as «lamentações» (cf. Jl 2, 12) e cada expressão penitencial tem valor aos olhos de Deus, só se for sinal de corações sinceramente arrependidos. Também o Evangelho, tirado do «sermão da montanha», insiste sobre a exigência de praticar a própria «justiça» – esmola, oração e jejum – não diante dos homens, mas unicamente aos olhos de Deus, que «vê o segredo» (cf. Mt 6, 1-6.16-18). A verdadeira «recompensa» não é a admiração dos outros, mas a amizade com Deus e a graça que dela deriva, uma graça que confere paz e força de realizar o bem, de amar até quem não merece, de perdoar quem nos ofendeu.

A segunda leitura, o apelo de Paulo a deixar-se reconciliar com Deus (cf. 2 Cor 5, 20), contém um dos célebres paradoxos paulinos, que remete toda a reflexão sobre a justiça ao mistério de Cristo. São Paulo escreve: «Aquele que não havia conhecido o pecado – ou seja, o seu Filho que se fez homem – Deus O fez pecado por nós, para que nele nos tornássemos justiça de Deus» ( 2 Cor 5, 21). No Coração de Cristo, isto é, no âmago da sua Pessoa divino-humana, desenrolou-se de maneira decisiva e definitiva todo o drama da liberdade. Deus levou às extremas consequências o seu desígnio de salvação, permanecendo fiel ao seu amor, mesmo à custa de entregar o seu Filho unigénito à morte, e morte de Cruz. Como escrevi na Mensagem quaresmal, «é aqui que se descerra a justiça divina, profundamente diferente da justiça humana... Graças à acção de Cristo, podemos entrar na justiça “maior”, que é a do amor (cf. Rm 13, 8-10)».

Estimados irmãos e irmãs, a Quaresma amplia o nosso horizonte, orienta-nos para a vida eterna. Estamos em peregrinação nesta terra, «não temos aqui uma cidade permanente, mas vamos em busca da futura» ( Hb 13, 14). A Quaresma faz compreender a relatividade dos bens desta terra e assim torna-nos capazes de fazer as renúncias necessárias, livres para realizar o bem. Abramos a terra à luz do Céu, à presença de Deus no meio de nós.

Amém!

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16 de Setembro de 2019

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