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Na Igreja, escondido do mundo

· Aos sacerdotes de Roma, o Papa falou da sua experiência no Vaticano II e garantiu a sua presença espiritual contínua ·

Na homilia de quarta-feira de Cinzas, o forte convite a converter-se a Deus para superar hipocrisias, rivalidades e divisões

Existe um concílio «virtual», veiculado pelos mass media e construído segundo categorias «políticas» alheias à fé, que nestes cinquenta anos provocou não poucos problemas e dificuldades para a Igreja. E que hoje começa a ceder o caminho ao verdadeiro  concílio «dos padres», cuja força espiritual constitui o motor da autêntica renovação eclesial.

Aquela que devia ser uma «pequena conversa» sobre o Vaticano II transformou-se num testemunho iluminador que os sacerdotes de Roma, reunidos na sala Paulo VI na manhã de quinta-feira 14 de Fevereiro, ouviram da voz do «esperto conciliar» Joseph Ratzinger. Ele aproveitou a ocasião do encontro quaresmal anual com o clero da diocese para evocar a sua experiência pessoal durante os quatro períodos da assembleia ecuménica. A reflexão do Papa foi cadenciada pelos temas principais, que foram objecto do debate dos padres: liturgia, eclesiologia, Palavra de Deus, ecumenismo e  diálogo com as religiões, relação entre Igreja e mundo, e concluída pelo convite a viver o Ano da fé — proclamado precisamente no quinquagésimo aniversário da inauguração dos trabalhos conciliares — como ocasião para fazer voltar à luz o «concílio real», o «da fé», no qual é possível realizar a verdadeira reforma da Igreja.

Foram numerosas as sugestões e indicações apresentadas por Bento XVI, que por mais de 45 minutos evocou com simplicidade e sem hesitações o espírito de um acontecimento vivido com entusiasmo e esperança, na convicção firme de que o mesmo teria dado início a uma nova era na vida da Igreja. Segundo o Papa, foi sobretudo o desejo de participar e de ser sujeitos activos que motivou as opções fundamentais dos padres: a começar por aquela realizada no primeiro dia, quando a assembleia decidiu não votar imediatamente os membros das comissões, com base nas listas já preparadas, pedindo mais tempo para favorecer os encontros e o conhecimento entre os vários grupos nacionais presentes. Um sinal evidente, na opinião do Pontífice, da dimensão universal da Igreja, chamada a viver e crescer além de quaisquer diferenças de língua, raça e cultura.

Foi com este mesmo espírito que Bento XVI leu os resultados da renovação litúrgica do Vaticano II, fundada na exigência dúplice da «inteligibilidade» da linguagem — que no entanto não significa «banalidade», avisou — e da participação concreta dos fiéis. Assim como evocou a eclesiologia conciliar encerrada na expressão «Nós somos Igreja», ou seja corpo vivo de Cristo e não mera organização ou estrutura jurídica, acrescentando que a categoria da «colegialidade» evidenciou o papel dos bispos como sucessores dos apóstolos e elementos-chave na «complementaridade» dos factores que constituem o corpo da Igreja.

Não menos significativos foram os destaques do Papa sobre o tema da relação entre sagrada escritura e tradição — a Igreja obedece à Palavra de Deus mas, ao mesmo tempo, representa o seu sujeito vivo — e sobre o diálogo com as outras religiões, a propósito do qual o Pontífice não deixou de evocar a vivacidade do debate que deram vida à Nostra aetate e à Dignitatis humanae que, juntamente com a Gaudium et spes, constituem uma espécie de «trilogia» cuja importância se vai revelando e confirmando cada vez mais com o passar dos anos.

Não faltou da parte de Bento XVI uma referência à decisão de renunciar ao papado, anunciada na segunda-feira passada. Agradecendo aos presbíteros a sua coral manifestação de carinho, o Papa assegurou que também no retiro da oração, escondido do mundo, ele estará sempre próximo da sua diocese e da Igreja.

Palavras que evocaram as expressões com que o Pontífice encetou a homilia da missa de quarta-feira de Cinzas, celebrada no final da tarde de 13 de Fevereiro. «É uma ocasião propícia para agradecer a todos, enquanto me preparo para concluir o ministério petrino, e para pedir uma lembrança especial na oração», disse aos fiéis que apinhavam a basílica de São Pedro para lhe prestar uma comovida manifestação de afecto. Uma celebração, a última presidida publicamente por Bento XVI, durante a qual ressoou o vigoroso convite a «se converter a Deus» através de um caminho interior que actue «no coração, na consciência e nas intenções, deixando que o Senhor transforme, renove e converta». Em particular, o Papa lançou uma admoestação severa contra a «hipocrisia religiosa», os «individualismos», as «rivalidades» e as «divisões» que deturpam o rosto da Igreja.

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23 de Setembro de 2019

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