Nota

Este site utiliza cookies...
Os cookies são pequenos arquivos de texto que ajudam a melhorar a sua experiência de navegação no nosso site. Ao navegar em qualquer parte deste site você autoriza a utilização dos cookies. Poderá encontrar maiores informações sobre a policy dos cookies nas Condições de utilização.

Mulheres num contexto patriarcal

· ​No Antigo Testamento ·

Na longuíssima história das leituras e do sucesso dos textos bíblicos, a explicação e a apresentação dos personagens das Escrituras foram muito diversas. Como se sabe, com o passar do tempo e sobretudo em âmbito cristão, a exegese moveu-se entre letra e alegoria, chegando na era contemporânea ao chamado método histórico-crítico, que é indispensável ter presente mas que hoje é cada vez com mais frequência integrado por outras leituras, como por exemplo as que são oferecidas pela antropologia ou pela psicanálise. Ao longo de todo um ano os olhares variegados que compuseram esta breve galeria de dez figuras presentes nalgumas das narrações veterotestamentárias mais conhecidas – Sara, Agar, Tamar, Miriam, Débora, Ana, Betsabea, Rut, Ester, Judite – foram os das mulheres que leram histórias de outras mulheres, mesmo se estas figuras com frequência são fruto da criação literária e da necessidade simbólica. Quem leu estas dez mulheres foram outras dez mulheres, de proveniência e culturas diversas que, por conseguinte, quiseram dirigir-se em primeiro lugar ao sujeito feminino, considerando nesta ótica os textos sagrados do judaísmo e do cristianismo, sem negar a necessidade do olhar histórico-crítico.

As dez mulheres têm em comum, além da origem bíblica, o facto de serem personagens não históricas: por exemplo, Ester e Judite são as heroínas de duas narrações edificantes, enquanto Tamar é protagonista de uma breve novela, que é tudo menos que edificante, construída sobre um entrelaçamento de dois topoi literários característicos do romance erótico helenista, o da substituição de pessoa ou de identidade e o do reconhecimento (anagnorismos) final; outras mulheres talvez tenham na sua história tradições anteriores às suas, deixadas por escrito no texto bíblico, sobretudo Sara e Agar, mas nada mais. Neste último caso, não parece que as autoras dos retratos que as apresentaram de maneira tão aliciante tenham considerado devidamente esta característica basilar, razão pela qual diversas reflexões totalmente incongruentes, como quando se supõe que Agar, sendo egípcia, talvez tenha sido comprada por Abraão quando desceu ao Egito.

No contexto destas características unificadoras, as histórias destas mulheres são várias como nunca. As protagonistas das duas novelas são apresentadas de maneira muito diversa uma da outra: Ester é-nos descrita como modelo de fé em Deus e de amor pelo seu povo, que graças à sua coragem é salvo; em Judite deve ser realçado o propositado contraste entre a sua tradicionalmente modesta condição de viuvez e a capacidade de realizar com coragem e astúcia uma ação muito violenta, que pode parecer até moralmente discutível e que nos recorda o antigo ditado segundo o qual o fim justifica os meios. Tamar, ao contrário, é uma personagem totalmente secundária no vasto contexto escriturístico no qual a sua breve e bem construída novela está inserida, e a autora que a tratou, para a iluminar no espaço que lhe foi atribuído, teve que recorrer sobretudo à personagem de Judas, o outro protagonista da narração, e a detalhes suplementares.

De diversa consistência e complexidade são outras três personagens. Miriam é nomeada várias vezes no livro dos Números, mas sobretudo em contextos breves, e é uma personagem problemática: por um lado profetisa mas por outro autora de um gesto pelo qual recebe a punição divina, que não é leve. Se considerarmos que não só Aarão é apresentado de maneira análoga, mas que também de Moisés o texto bíblico releva atitudes por vezes poucos condizentes com o seu papel de chefe de Israel por vontade divina, podemos concluir que a irmã Miriam participa também ela, aliás de maneira marginal, da problemática dos irmãos. Encontramo-nos numa ambientação substancialmente edificante, na qual o narrador, relevando transgressão e imediata punição, quis significar da maneira mais explícita a presença invasiva da vontade divina, da qual os três irmãos são intérpretes.

Totalmente diferente é a apresentação de Sara e Agar, cujas histórias são de uma dramaticidade que vivifica as suas personalidades literárias. À exceção da função liberatória da vontade divina, que nos recorda o deus ex machina da época de Eurípides, deve ser relevado sobretudo o contraste entre o carácter remissivo – poder-se-ia dizer a abulia – de Abraão, escultor obediente dos mandamentos de Sara que contudo no seu coração não aprovava, e a áspera personalidade das duas mulheres em contraste entre elas: a escrava que quando está grávida aproveita deste status de certo modo privilegiado para pretender um papel de independência em relação à patroa; ela que, inicialmente era favorável à sua escrava, mas depois começa a odiá-la e comporta-se em consequência.

Escola de Rembrandt «Judas e Tamar»

Ao contrário da edificante capacidade literária das personagens de Ester e de Judite, deparamo-nos aqui com um conflito de situações e de caracteres que nada possuem de edificante, e precisamente por isto atraiçoam uma originária tradição mais distante da escrita, da parte de um narrador em que a iniludível tendência a relevar a intervenção da vontade divina não ofusca a problemática e, por conseguinte, a eficácia da narração. Também a antiga tradição exegética judaica, e em seguida a cristã, relevam a polivalente complexidade da história de Sara e de Agar para além da letra do texto. Temos assim Abraão considerado como símbolo da fé, Sara da sabedoria, Agar da cultura pagã, enquanto que o facto de Sara gerar o seu filho depois de Agar ter gerado o dela está a significar a contribuição da cultura grega ao progresso da verdadeira sabedoria: por conseguinte, também no respeitante a Agar se tem uma alegoria de tipo positivo. Por outro lado, os filhos das duas mulheres foram constantemente assumidos como significação positiva de Isaac como povo cristão e negativamente de Ismael como povo judeu.

Com efeito, mesmo se estas mulheres são apresentadas na Escritura numa ordem que não tem a mínima pretensão de ser cronológica, parece evidente que as narrações de Ester e de Judite são relativamente recentes, enquanto Miriam está inserida no contexto da história de Moisés, personagem em certos aspetos enigmático, cuja vicissitude com a sua evidente pervasiva intenção de edificação, deixa perplexos não só no respeitante à sua historicidade mas também ao seu remontar a uma tradição muito antiga. Certamente o mesmo não se pode dizer de Abraão e por conseguinte das suas duas mulheres, cujas histórias certamente afundam nas memórias mais antigas de Israel, não obstante evidentes reformulações: com efeito, a tradição mais antiga colocava Abraão em Damasco e não em Ur dos Caldeus.

Em síntese, corresponde a esta mais genérica colocação cronológica o carácter das diversas figuras femininas passadas em resenha neste livro. Sara e Agar são apresentadas com uma conotação que releva o carácter problemático delas, o seu constituir uma propositada afirmação de feminilidade – repare-se na debilidade de Abraão face à força de Sara – num contexto acentuadamente patriarcal, enquanto Judite e sobretudo Ester são representadas pelos autores das suas narrações com um olhar muito mais benévolo, indicativo de uma diversa consideração da mulher, agora julgada apta para agir eficaz e positivamente num âmbito, o político, tradicional apanágio do homem.

Com efeito na história de Sara e Agar a personagem de Abraão não faz certamente uma boa figura, mas em definitiva dele é exigida a tarefa de tomar a decisão; em contrapartida nas histórias de Ester e de Judite, como oportunamente frisam as autoras das respetivas apresentações, a presença masculina tem apenas a função de evidenciar ao máximo o protagonismo das duas mulheres. E, diante deste protagonismo, torna-se muito evidente a diferença de carácter na identidade do sexo: ambas decididas no seu propósito, Judite impõe-se aos olhos de quem lê pela força despiedada, enquanto Ester pela doçura e pela aceitação total da vontade divina.

A colocação destas histórias no andamento narrativo da Escritura é variada: Judite e Ester são protagonistas absolutas de livros de breve extensão dedicados exclusivamente às suas histórias, e a sua inserção no cânone cristão no final da secção dos livros históricos da Escritura, quase em forma de apêndice, realça a sua função de reforçar a presença feminina num contexto, precisamente o dos livros históricos, no qual anteriormente aquela presença era confiada apenas ao brevíssimo livro de Rut. Ao contrário, as histórias das outras mulheres estão inseridas em contextos narrativos de forte compromisso: Betsabé entra na vicissitude do rei David, Ana é mãe de Samuel, Débora integra como única mulher a série de juízes de Israel, Miriam pertence a pleno título à narração relativa a Moisés, a história de Tamar é um dos vários episódios que caracterizam a vicissitude dos filhos de Jacob, enquanto Sara e Agar constituem uma parte não secundária na história de Abraão, o mais importante entre os vários personagens do livro do Génesis.

Ter aqui, nesta recolha de figuras veterotestamentárias, abordado à parte e com grande amplidão cada uma delas, foi em função de uma finalidade de carácter extrínseco, ou seja, que tem por finalidade relevar a importância da presença feminina no contexto da Escritura judaica, expressão de uma cultura fortemente machista, como era a do antigo Israel e do judaísmo que se seguiu. Por isso, unicamente se tivermos bem presente este contexto ao mesmo tempo histórico e literário, poderemos avaliar de maneira equilibrada a incidência desta concentração de feminilidade na história de Israel como no-la propõe a leitura com tonalidades tão modernas, das nossas autoras, mesmo que seja com base na própria Escritura.

Manlio Simonetti

 

O autor

Filólogo e historiador do cristianismo (1926), ensinou nas universidades de Cagliari e de Roma e é sócio nacional dos «Lincei». Organizou edições críticas de autores latinos e gregos (Rufino, Gregório de Elvira, Cipriano, Orígenes) e escreveu muitíssimos ensaios e livros. Entre eles: Studi agiografici (1955), Letteratura cristiana antica greca e latina (1969), La crisi ariana nel IV secolo (1975), Lettera e/o allegoria. Un contributo alla storia dell'esegesi patristica (1985), Studi sulla cristologia del II e III secolo (1993), Ortodossia ed eresia tra I e II secolo (1994), Il Vangelo e la storia (2010).

Edição em papel

 

AO VIVO

Praça De São Pedro

15 de Novembro de 2019

NOTÍCIAS RELACIONADAS