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A mulher que gera o profeta

O primeiro livro de Samuel começa apresentando a história de uma das mulheres mais fascinantes do Antigo Testamento, Ana, a mãe do futuro profeta que dá o nome a todo o livro. A sua figura ocupa somente os primeiros dois capítulos, todavia o narrador traça um seu retrato intenso e, através da sua vicissitude, delineia uma modalidade de intervenção ativa mas não violenta numa situação complexa e dolorosa, que não parece ter uma saída. O leitor, que ouviu a história dos patriarcas, reconhece algumas características das narrações relativas aos primeiros antepassados de Israel que Ana assume; até mesmo deste ponto de vista a sua figura parece interessante, porque a mulher não somente assume aquelas características, mas também as volta a interpretar de uma maneira nova.

As esposas de Elcana (1250 aprox., miniatura da Bíblia de Maciejowski, folha 19)

A história começa apresentando Elcana, um habitante de Ramataim, de quem são mencionados os antepassados, como se se tratasse de um personagem importante. Todavia, a sua história interrompe-se imediatamente, porque o narrador dá espaço à situação da sua família e de modo particular das suas duas esposas, Ana e Fenena, a primeira sem filhos porque estéril, mas a segunda muito fecunda. Não é uma circunstância inédita para o leitor, que conhece outras duplas de mulheres deste modo caracterizadas: Sara e Agar (cf. Génesis 16; 21, 1-14), Lia e Raquel (cf. Génesis 29, 30; 30, 2).

A esterilidade de Ana é sublinhada com a repetição por duas vezes da expressão «o Senhor tornou-a estéril» ( 1 Samuel 1, 5.6). A sua condição recorda a de Sara, Rebeca e Raquel, que só conseguiram conceber através da intervenção de Deus (cf. Génesis 18, 10-12; 25, 21; 30, 22); provavelmente, o narrador deseja evocar aquelas histórias, deixando intuir um resultado análogo, mas a modalidade com a qual isto acontecerá constitui o aspeto original desta vicissitude.

Além disso, a maternidade é uma temática relevante na Bíblia: os filhos são vistos como um dom de Deus, um sinal da sua bênção, a esperança de um futuro que consegue superar o limite da morte: são eles que podem levar a cumprimento aquilo que foi começado pelo pai, e é na sua existência que continua a vida dos pais. Por estes motivos, ser estéril era sentido como uma desgraça, a consequência da contrariedade divina; a palavra «estéril» indica tudo isto de maneira muito forte, porque deriva de uma raiz que significa desarraigar: a mulher que não gera é desenraizada e erradicante, e como tal padece a vergonha, é considerada insignificante e desprovida de valor. Não obstante seja amada pelo seu marido, Ana vive esta situação e o narrador faz compreender o seu drama. No contexto da peregrinação anual que Elcana realiza ao santuário de Silo, é apresentada a forte tensão que permeia os relacionamentos entre as duas esposas. Com efeito, Ana é objeto de humilhações contínuas por parte de Fenena, a esposa prolífica, em relação à qual o marido não manifesta nem carinho e nem sequer generosidade: mostra-se justo (atribui as porções do sacrifício devidas tanto a ela como aos filhos), mas a sua verdadeira benevolência é destinada à esposa estéril, à qual concede uma parte especial (cf. vv. 4-5). A uma primeira leitura, Ana parece apenas uma vítima, mas o narrador delineia também a condição de tristeza de Fenena, útil somente porque é fecunda, mas desprovida de um valor real aos olhos do marido; os ciúmes e a mortificação dos quais Ana se torna objeto são as modalidades com que reage, projetando sobre a rival a situação que ela mesma padece.

Ana reza para ter um filho (1250 aprox., miniatura da Bíblia de Maciejowski, folha 19)

Ana, ao contrário, escolhe um caminho diferente e não responde às ofensas, não obstante sinta uma grande aflição interior que a leva a deixar de comer (cf. v. 6). Reagir aos insultos, ou censurar a rival por não ser amada teria desencadeado um grande mal; deste modo, não põe em ação nenhum gesto de violência em resposta à humilhação e ao desprezo, não se põe em competição, distinguindo-se nisto de Sara e de Raquel. Ao contrário, a mulher prefere deter a ofensa em si mesma, «padecê-la», para não a duplicar, para não fazer aumentar a dor sem encontrar uma solução autêntica. Ana assume esta mesma modalidade em relação a Elcana, que procura consolar a esposa amada com palavras que revelam como permanece cego diante de uma situação que ele mesmo contribuiu para criar, e como não consegue compreender o sofrimento de uma esposa que contudo ama, transformando o seu sofrimento em algo que diz respeito a ele próprio (cf. v. 8).

Ana parece fechar-se no seu desgosto, numa forma de debilidade, mas a renúncia a reagir transforma-se na sua força. Com efeito, prefere falar e dirigir a sua lamentação, a sua amargura e o seu sofrimento a Deus, o único que não a entende de forma equívoca. Diante do esmorecimento da vida, ela sente que só lhe resta refugiar-se no clamor da oração (cf. vv. 9-10).

Ana desce ao âmago da sua miséria, aceita-a sem a padecer, sem atribuir a outrem a responsabilidade da sua situação, e revela que nutre esperanças e desejos que, sendo impossíveis, exigem a intervenção do Senhor. Não se contenta, não procura soluções intermediárias para resolver o seu problema (como Sara tinha feito com Agar). Abre o seu olhar e o seu coração, deixando que o seu desejo de fecundidade, de futuro e de sentido se manifeste e permite que este desejo seja satisfeito por um Deus que concede para além de quaisquer expetativas.

Por conseguinte, Ana vai ao templo, onde não apenas pede um filho, mas também emite o voto de o consagrar ao Senhor. Dirige um olhar e procura uma solução fora da sua família, pede um filho que lhe permitiria desempenhar um papel social diferente, ter um poder até então negado, mas não conserva este dom para si mesma. Precisamente esta decisão terá implicações decisivas não somente para ela, mas para todo o povo: o menino que nascerá tornar-se-á a esperança de Israel numa época de grande confusão e incerteza política e social, restituirá a Israel a palavra do Senhor, será o profeta que ungirá o rei Saul e sucessivamente David. A modalidade que Ana escolhe, as palavras que pronuncia e o olhar dirigido para a realidade adquirem tonalidades proféticas: na sua história convoca o Senhor e vê-o presente nas vicissitudes abertas ao futuro.

Com efeito a sua oração, que contudo nasce de um coração amargurado e é acompanhada por muitas lágrimas, é formulada com grande lucidez: «Senhor dos exércitos, se vos dignardes olhar para a aflição desta vossa serva e se vos lembrardes de mim; se não vos esquecerdes da vossa escrava e se lhe derdes um filho varão, eu consagrá-lo-ei ao Senhor durante todos os dias da sua vida, e a navalha não passará pela sua cabeça» (v. 11).

A oração é uma súplica que invoca o «Senhor dos exércitos», um título que celebra o agir vitorioso de Deus, uma vez que se põe ao lado da sua fiel que se define uma serva, um epíteto que evoca a adoração e a confissão da grandeza divina, que alude à relação de dependência que Ana reconhece para si mesma. A suplicante pede que Deus se recorde dela, que tenha em consideração a sua situação de infelicidade e que lhe conceda um filho varão. É nesta altura que a mulher promete oferecer, por sua vez, o menino que lhe for concedido. As suas palavras não têm a finalidade de obrigar o Senhor, mas sobretudo de manifestar que o seu desejo só terá uma atuação efetiva no momento em que ela puder agir como o divino doador. O seu olhar não se detém na realização daquilo que ela deseja mais do que qualquer outra coisa, mas consegue ver em tal cumprimento o sinal de uma bondade maior, a afirmação da fidelidade divina em relação à vida dos seus fiéis.

A prece de Ana tem uma testemunha, o sacerdote Heli que, vendo o movimento silencioso dos lábios da mulher, subentende o seu comportamento, acusa-a de embriaguez e repreende-a de maneira severa (cf. vv. 13-14). Ana torna-se novamente objeto de uma ofensa, mas desta vez, considerando que depois mediante a oração já tinha encontrado a verdade acerca de si própria e do seu desejo perante Aquele, o Único que a compreende, não permanece emudecida mas tem a coragem de responder ao sacerdote, reivindicando a justiça do seu agir e o valor da sua pessoa. As suas palavras ressoam autênticas e recebem a bênção de Heli.

O narrador não diz imediatamente que o Senhor atende a sua oração, mas menciona que Ana se transformou, recomeça a comer e o seu rosto já não é o mesmo de antes, porque passa das lágrimas à alegria, da amargura à tranquilidade e à paz. A mudança é o produto da certeza de que será atendida. Assim como a recordação da promessa de Deus tinha impelido Ana a confiar-se totalmente ao Senhor, do mesmo modo a certeza de que Deus concederá a sua dádiva é suficiente para transformar o seu olhar e a sua expetativa.

O desejo irrealizável de Ana é cumprido: o Senhor visita a mulher estéril, tornando fecunda a sua relação com o marido. Assim nasce o menino, ao qual a mãe chama Samuel, «porque — dizia — foi ao Senhor que eu o pedi» (v. 20), e ela leva-o ao templo para cumprir o voto, depois de o ter desmamado. Ana fala mais uma vez ao sacerdote, revelando-lhe que o seu desejo de oferecer o próprio filho ao Senhor corresponde ao dom recebido e está em conformidade com a promessa.

Nesta circunstância, Ana dirige-se novamente ao Senhor, mas desta vez através de uma prece de louvor, de um cântico para exaltar o Senhor e a sua obra; trata-se de um texto famoso, que no Novo Testamento ressoa nas palavras do Magnificat.

Este hino celebra o Deus que inverte os destinos, altera as situações que parecem não ter saída e oferece uma salvaguarda particular àqueles que são mais indefesos; o olhar alarga-se a toda a história e contempla toda a obra de salvação, reconhecendo e exaltando o modo como o Senhor sempre age (cf. 2, 1).

Ana manifesta na sua oração o sofrimento e a vergonha que a circundam, interpretando na situação de todos também a sua angústia e opressão pessoal, sem uma referência explícita à sua situação. Assim, a sua oração abre-se a uma intercessão total, enquanto se recorda do agir de Deus. Não é apenas uma ação de graças por aquilo que ela recebeu, mas um louvor que, beneficiando do bem que é para todos e do qual também outras pessoas podem beneficiar, faz nascer uma verdadeira comunhão.

O louvor é plasmado pela súplica. É como se Ana tivesse acolhido na sua oração a própria esterilidade e a de todo o povo; e é como se tivesse feito seu o clamor de todos aqueles que sentem esmorecer a sua vida, que sofrem devido a uma existência desprovida do que lhe confere um sentido verdadeiro. Precisamente porque se sente fortalecida pela oração precedente, na qual oferece ao Senhor toda a sua vida, ela pode proclamar também que o bem, a vida e a salvação se encontram em Deus e duram para sempre, porque estão em toda a parte.

Ana louva, como um profeta, o caminho escolhido pelo Senhor, constante ao longo de toda a história da salvação. O Senhor dirige-se a quantos são pequeninos, àqueles que não têm pretensões, a quantos reconhecem a sua pobreza, o seu limite e a sua falta, não porque se trata de um Deus que se compraz com o próprio poder, que quer exercer o seu domínio sobre quem é frágil e indefeso, mas para o poder cumular com os seus dons e com a sua plenitude, para realizar desejos impossíveis. Ana reconhece que este é o sentido da sabedoria divina: aquela que atribui a vitória a quantos estão derrotados desde o princípio, àqueles que não têm o vigor para enfrentar o inimigo, aquela que confunde a soberba e a arrogância de quantos não veem no faminto e na estéril o irmão. O Senhor, a quem pertence toda a terra, que faz viver e faz morrer, não escolhe o poderoso nem o rico, mas prefere para si o pequenino, o pobre, e transforma a sua vida, velando sobre os seus passos, para que se mantenha fiel.

Ana celebra isto e em seguida experimenta-o concretamente na sua vida; a sua história acaba com uma última anotação: torna-se fecunda, e a dádiva por ela oferecida ao Senhor, em vez de provocar uma nova falta, suscita uma renovada fecundidade: «O Senhor visitou Ana e ela concebeu, dando à luz três filhos e duas filhas» (2, 21).

Grazia Papola

A autora

A irmã Grazia Papola faz parte das religiosas ursulinas de São Carlos. É biblista e ensina Pentateuco no Instituto superior de ciências religiosas e no Estúdio teológico de Verona. Vive em Desenzano del Garda (Itália). 

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26 de Agosto de 2019

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