Nota

Este site utiliza cookies...
Os cookies são pequenos arquivos de texto que ajudam a melhorar a sua experiência de navegação no nosso site. Ao navegar em qualquer parte deste site você autoriza a utilização dos cookies. Poderá encontrar maiores informações sobre a policy dos cookies nas Condições de utilização.

Mulher de palavra desconcertante e misteriosa

· A beata Maria Clementina Anuarite Nengapeta narrada por Rita Mboshu Kongo ·

A beata irmã Maria Clementina Anuarite Nengapeta nasceu em 1939 de pais pagãos na periferia de Wamba, na República Democrática do Congo. Tensido baptizada juntamente com a mãe e com as irmãs, desde criança sabia bem o que queria: certo dia, na escola primária, durante a recreação, aproximou-se da professora e disse-lhe: «Quero o trabalho de Deus». Dito e feito: não só levou a cabo este trabalho, mas levou-o em frente até ao fim, dando a sua vida por Cristo.

Como todas as jovens africanas, Anuarite estava intimamente à sua família e era ávida de fecundidade: com efeito, a maternidade ocupa um lugar predominante na cultura africana. Uma maternidade inclusive espiritual: sentindo-se chamada por Cristo no caminho de celibato, Anuarite respondeu: «sim», tornando-se deste modo, depois de ter completado o ensino médio, religiosa na congregação belga das irmãs da Sagrada Família, onde desempenhou diversas funções: foi professora escolar, sacristã e ajudante de cozinha.

O drama consumou-se a partir de 29 de Novembro de 1964, quando—juntamente com outras irmãs de hábito—Anuarite foi capturada pelos rebeldes Simbas. Transportada de camião para Isiro na madrugada de 1 de Dezembro, será assassinada por não ter atraiçoado a sua vocação. Com efeito, quando o capitão Olombe pretendeu para si da madre-geral «uma moça bonita», escolhendo a irmã Anuarite, a jovem religiosa não teve dúvidas: «Não quero, não quero—gritou ela—pois prefiro morrer do que ser sua». Em contrapartida, o homem tornou-se furioso: murros, bofetadas e pancadas em todo o seu corpo. E no final, empunhando um revólver, assassinou-a. Maria Clementina Anuarite Nengapeta foi beatificada por João Paulo II no dia 15 de Agosto de 1985, durante a sua viagem apostólica à Africa.

Anuarite é um exemplo para todos: para os cristãos, para os não-cristãos e para os governantes, na sua capacidade de permanecer sempre fiel aos compromissos assumidos, até ao martírio. Na terrível preocupação de ver violentada a sua pureza, diante da ameaça contraa própria vida, encontra em Jesus, seu Esposo, a força de dizer com Ele: «Agora a minha alma está perturbada». Além disso, para defender a superiora, ameaçada de morte por causa da sua rejeição, Anuarite dirige-se aos soldados com as seguintes palavras: «Matai-me só a mim». E depois, ao ser atingida pelos tiros mortais, acrescenta: «Perdoo-vos, porque não sabeis o que fazeis. Era assim que eu queria, era assim que eu queria!».

Anuarite é uma mulher de palavra desconcertante e misteriosa. Pertence à grande plêiade de mulheres africanas que se revelaram testemunhas, educadoras, mestras de vida e portadoras da cultura local. Como muitas outras jovens conguesas, foi educada segundo o espírito mais puro do seu povo e não permitiu que ninguém, descaradamente, obtivesse prazer da sua carne. Alguns brincam com a África negra, proclamando aos quatro ventos que a única coisa virgem e pura é a floresta equatorial. Isto significa que conhecem muito pouco da nossa África.

Anuarite e a sua história descrevem que a virgindade pré-matrimonial deve ser respeitada, porque constitui um valor quase absoluto. E uma garantia para o crescimento da fecundidade, da felicidade no matrimónio e de cada vocação. O martírio desta jovem religiosa convida-nos a lutar contra o tribalismo, o etnicismo, o regionalismo e todas as divisões que põem o mundo a ferro e fogo. No seu ambiente, a irmã Anuarite era portadora de perdão, de paz e de comunhão. E foi precisamente no contexto da vida de todos os dias que ela aprendeu a santificar-se, entregando-se inteiramente ao Senhor no serviço humilde aos irmãos. Realizou coisas ordinárias, com um amor extraordinário por Jesus Cristo e pela humanidade.

Não obstante vivesse radicada numa cultura que atribui grande importância à comunhão entre os clãs e as tribos, Anuarite soube ir mais além deste género de comunhão, superando todas as discriminações. A sua espiritualidade é uma espiritualidade de comunhão, do «estar com». Uma espiritualidade que se abre à transparência recíproca do sensível e do espiritual.

Teóloga conguesa nascida no ano de 1966, em Luebo, Rita Mboshu Kongo faz parte das Filhas de Maria Santíssima Co-Redentora. Depois de ter completado os estudos em medicina na universidade de Kinshasa, obteve em Roma a licenciatura em teologia espiritual e o doutoramento no Pontifício instituto de espiritualidade «Teresianum». Ensina na Pontifícia universidade urbaniana e faz parte da redacção de «donne chiesa mondo».

Edição em papel

 

AO VIVO

Praça De São Pedro

24 de Outubro de 2019

NOTÍCIAS RELACIONADAS