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​Modernidade de uma mística

· Entrevista com a intelectual ateia Julia Kristeva, que estudou longamente a santa de Ávila ·

Encontrei Teresa – conta-nos Julia Kristeva – por solicitação de um editor: passei uma dezena de anos com a extravagante monja espanhola, da qual mal tinha ouvido falar, que para mim se tornou uma figura imprescindível da cultura europeia. Sinto-me feliz por ter encontrado, graças a ela, aquele impulso barroco que transfigurou o catolicismo medieval e abriu as portas ao humanismo do iluminismo».

A intelectual ateia Julia Kristeva, de origem búlgara naturalizada francesa, é uma estudiosa que se move entre linguística, psicanálise, filosofia e narrativa. Ensina Semiologia na State University of New York e na Université Paris 7 Denis Diderot. Entre os seus livros, Thérèse mom amour (2008). Presidente honorária do Conselho nacional Handicap: sensibiliser, informer, former, desde 2015 é Commandeur da Legião de honra.

Como enfrentou a fé de Teresa?

Projectei-me na escritura desta mulher, que viveu e descreveu uma fé que é chamada mística, na qual celebra assim a sua união com Jesus: «A alma consuma-se de desejo e contudo não sabe pedir, porque sente claramente que o seu Deus está com ela» (Castelo interior). «A dor da ferida era tão viva que me fazia emitir aqueles gemidos dos quais falei, era tão grande a doçura que me infundia este enorme sofrimento, do qual não desejava o fim, nem a alma podia satisfazer-se com outra coisa a não ser com Deus. Não é uma dor física, mas espiritual, mesmo se o corpo não deixa de participar um pouco dela, aliás, muito» (Vida). «Não somos anjos mas temos um corpo» e «o Senhor como homem». E assim por diante. Acompanhei-a também na arte barroca que a aproxima ainda mais de nós modernos, começando pelo êxtase de Bernini, que faz vibrar aquele êxtase no mármore: liquefaz-se sob o meu olhar na igreja de Santa Maria da Vitória em Roma. Mas também a missa que lhe dedicou Haydn ou o quadro do Tiepolo em Veneza. Dado que não sou crente, procurei familiarizar com o seu modo de sentir e de pensar, isto é, interpretá-la. Teresa convida o mundo secularizado a reavaliar, incansavelmente e sem preconceitos, a necessidade de crer que é subjacente ao desejo de saber.

E a sua extraordinária escritura?

Com efeito, através do recolhimento das leituras e do fervor das orações, mas também deixando-se invadir pela música, pintura e escultura, a escritura desta mulher sem fronteiras oferece-nos o seu corpo físico, erótico, apreciador e anoréctico, histérico, epiléptico, que se faz verbo e se faz carne, que se faz e se desfaz em si fora de si, jorros de imagens sem caixilhos, constantemente em busca do Outro e da palavra justa. Matriz aberta que palpita pelo amado sempre presente sem nunca ali estar. Os êxtases de Teresa são ao mesmo tempo e sem distinção, palavras, imagens e sensações físicas, espírito e carne, ou talvez precisamente carne e espírito: «O corpo não deixa de participar no jogo, e até muito». Objecto e sujeito, perdida e reencontrada, dentro e fora e vice-versa, Teresa é um fluido, um fluxo constante. A água será o seu elemento: «Sinto-me atraída de modo particular por este elemento, portanto observei-o com uma atenção especial»; e a metáfora fluida é o seu modo de pensar. Trata-se de uma fulguração íntima ou do regresso ao tema evangélico do baptismo? O estilo de Teresa está intrinsecamente radicado nas imagens, elas mesmas destinadas a transmitir aquelas visões que não são perceptíveis à vista (ou pelo menos não só à vista), mas residem no corpo-e-espírito inteiro, no psique-soma. Tais «visões» podem-se obter inicial e essencialmente ao tacto, ao paladar e ao ouvido, para depois alcançar a vista. Se a água é o emblema da relação entre Teresa e o Ideal, compreende-se por que o seu Castelo interior não se eleva como uma fortaleza, nas se deixa arranjar como um puzzle de habitações, moradas, com os muros permeáveis que o divino não domina mas habita. Significa apenas que a transcendência segundo Teresa se revela também imanente: o Senhor não está além, mas está nela! Isto é causa de previsíveis complicações com a Inquisição. Em síntese, mais do que naqueles arrebatamentos, o enigma de Teresa consiste na narração que ela mesma faz deles: os seus êxtases fora daquelas narrações? Disto ela tem plena consciência: «Que eu me sirva desta imagem (hacer esta ficción) para que compreendais o que digo», escreve no Caminho de perfeição (28, 10). Nega ser uma teóloga, e reivindica apenas – com modéstia ou com corajosa modernidade? - ser a autora de uma ficção («A ficção, aquele elemento vital das ciências do espírito», dirá depois Husserl). Uma escritora.

Qual é o papel testemunhal de Teresa no humanismo de hoje?

A narradora do meu livro Thérèse mon amour, a psicanalista Sylvia Leclercq, que se parece comigo, conclui a sua coabitação com Teresa enviando uma carta a Denis Diderot que, no seu tempo, fustigava os abusos da religião no seu célebre romance incompleto A religiosa. Mas Diderot, ex-cónego e escritor-filósofo do iluminismo, chora reconhecendo-se incapaz de terminar a sua história: porque, libertada dos abusos da vida monástica, a sua religiosa é lançada numa vida privada de sentido. Estou convencida de que a psicanálise freudiana, que interroga os mitos e a história das religiões, abrindo ao mesmo tempo as portas da vida interior dos seres modernos, seja a via-mestra para avaliar, justamente, esta tradição que nos precede e com a qual cortamos as pontes. Nós, os não crentes. Mas também nós, os crentes muitas vezes reduzidos a «elementos de religião». A leitura que lhe devemos não deve ser só abstracta, uma visão do alto. Ela envolve a memória afectiva particular, a intimidade de cada um. O seminário de Lacan faz dela uma descobridora do «prazer feminino», com o sugestivo título: Mais. Seria por conseguinte insaciável o «prazer feminino»? Mais e mais... Porque não se limita aos orgasmos sexuais, mas inflama todos os sentidos e transporta o corpo para o infinito dos sentidos, e faz precipitar o mesmo sentido no não senso, sintomas e loucuras. Um prazer do qual Teresa é a maior exploradora, e que a exila de si mesma: arrebatamento perpétuo para o Impossível, o Inominável. Que contudo não deixa de a convidar para falar, pensar, corpo e alma, paixão da escritura. Um testemunho extraordinário, se dele houvesse necessidade, do facto que existe um humanismo cristão intenso e ainda incompreendido, e que a cultura europeia se deve reinterpretar continuamente, se quiser sobreviver ao pensamento-cálculo e refundar-se constantemente.

Porque tratou uma mulher do século XVI, que continuou a conhecer e a estudar?

Espero tê-la convencido da modernidade desta mística, tal como sai da minha leitura. Mas posso esclarecer talvez melhor a sedução que Teresa exerce sobre mim, recordando duas características da sua obra que prefiro. A primeira seria aquela santa ironia que se aproxima do ateísmo. Num excerto pouco recordado do Caminho de perfeição, Teresa aconselha as suas irmãs a jogar xadrez nos mosteiros, mesmo se o jogo não era consentido pelo regulamento, para fazer «xeque-mate a este Rei divino». Uma impertinência que faz eco à célebre fórmula do Mestre Eckart: «Peço a Deus que me deixe livre de Deus». A segunda é formulada por Leibniz, que numa carta a Morell de 10 de Dezembro de 1969 escreve: «No respeitante a santa Teresa, tem razão em apreciar as suas obras; nelas encontrei aquele bom pensamento segundo o qual a alma deve conceber as coisas como se houvesse só Deus e ela no mundo. O que leva até a uma importante reflexão em filosofia, que usei apropriadamente numa das minhas hipóteses». Teresa inspiradora das mónades leibnizianas que contêm o infinito? Teresa precursora do cálculo infinitésimo? Seja qual for a modéstia do escrever, este acto da linguagem amorosa é ainda hoje – e sê-lo-á sempre – uma experiência que não ignora estes arrebatamentos, estes êxtases. A carmelita não inventou a psicanálise, nem sequer a escritura moderna mas, cinco séculos antes de nós, esclareceu aquela estranha experiência que é o pensamento nos limites do sentido e do sensível, corpo e alma juntos: os segredos da escritura. Teresa é nossa contemporânea.

Diz-nos alguma coisa hoje a sua feminilidade?

E se a feminilidade de Teresa fosse pós-moderna? Esta santa barroca é de uma sensualidade hiperbólica mas também sublimada, sem precedentes e única entre as místicas, orientadas (mulheres e homens) mais para o sofrimento e para o abandono puro, do que para a penitência dos sentidos. Mas Teresa é também «a monja mais viril» (Huysmans): ou seja, de uma bissexualidade psíquica – retomando a terminologia freudiana – quase reivindicada, exigente.

Qual é o sentido de maternidade desta santa que escorre há séculos?

A secularização é a única civilização privada de um discurso sobre a maternidade. Enquanto Teresa, nas suas orações, mas também na sua obra de refundadora do Carmelo descrita pormenorizadamente nas suas Fundações, faz sobressair uma visão e uma prática da sua maternidade simbólica como «madre superior». Por muito surpreendente que isto possa ser, algumas das suas reflexões a este propósito podem iluminar – ainda hoje! - as genetrizes (as mulheres que geram os filhos no seu útero) quando se tornam mães: quando vivem a paixão e a imparcialidade deste primeiro vínculo pelo outro, que é o vínculo com a criança, e se tornam capazes de transmitir a ternura, a linguagem e o pensamento. Teresa começa glorificando o sofrimento como caminho rumo a Deus, e também como vereda obrigatória da maternidade. Mas tem também o génio de se desapegar do afecto mudo, quer ele seja dor ou alegria. E recomenda que «não se goze mais» (quer se trate de gozar de dor ou de prazer), mas que «seja feita a vontade de Deus», que consiste em «considerar os outros sem prender as mãos». Extraordinária esta indefectível dedicação aos outros, apoiada pela alteridade do Outro! Por conseguinte, é a isto que se chama dependência materna: não contentar-se com a vontade de respeitar e apoiar os outros, e nunca prescindir! Hannah Arendt tinha diagnosticado, depois do Shoah, que o «mal radical» começa no momento em que os humanos se tornam incapazes de «pensar sob o ponto de vista do outro». Pois Bem, para Teresa, ser mãe seria, em síntese, exactamente o contrário: a capacidade de pensar sob o ponto de vista do outro. Hoje o vigor de Teresa permite redescobrir que existe um catolicismo complexo, insólito, que «fala à intensidade da nossa necessidade de crer e do nosso desejo de saber. Para os quais estamos privados de amparos.

Cristiana Dobner

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22 de Agosto de 2019

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