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Mecânicas divinas

· Na amizade entre mulher e homem ·

É opinião geral pensar que não é possível a amizade entre homem e mulher se não há (ou não se houver) entre eles também uma relação sexual. Uma amizade só espiritual seria portanto algo artificioso, enganador sobretudo em relação a si mesmos. Esta opinião pressupõe que a plenitude do amor entre homem e mulher se manifeste na relação sexual, rumo à qual tenderia inexoravelmente o próprio amor como o seu cumprimento e, neste sentido, a amizade seria apenas uma fase inferior, mais pobre e modesta.

Francisco de Sales e Joana de Chantal

A difusão desta opinião depende do predomínio daquela à qual Platão no Banquete chama a Vénus Pandemia, ou seja, vulgar, no dúplice significado da palavra em italiano: amplamente difuso entre o povo e também distante da elegância do que é nobre. Mas a Vénus Pandemia existe, não devemos negá-lo, porque é verdade que uma corrente erótica existe necessariamente nas relações entre homem e mulher. Este demónio, mediador entre homem e Deus, evoca incessantemente a beleza e impele a procurar a união com ela, e a primeira forma com a qual isso se manifesta é, exactamente, o desejo sexual. Por conseguinte, em todos está presente a Vénus Pandemia que, seja claro, é uma deusa e como tal deve ser honrada. Ou seja, fora do mito, devemos reconhecer que no fundo da natureza humana existe, insuprível, o Eros, o amor, que é em primeiro lugar desejo de união com um corpo. Este reconhecimento honesto é o ponto de partida para compreender aquele mistério do amor que Diotima, sacerdotisa de Mantineia, revela a Sócrates. Porque o desejo sexual é só a primeira manifestação mais comum da potência do demónio, que muda a forma, tornando-se mais rico e mais jubiloso na medida em que cresce. Sublinhemos este ponto. Como observava Simone Weil, só uma época miserável como a nossa pode levar a sério Freud, o antiplatão por excelência, e a sua concepção pela qual o Eros sexual é primário, em relação ao qual as outras formas de amor são diminuições.

Na realidade, quando o amor é forte, move-se gradualmente em direcção do mais, e deixa o menos, como afirma a mística medieval Margherita Porete, repetindo, sem o saber minimamente, o ensinamento ministrado a Sócrates por Diotima, como testemunho de que realmente as mulheres têm “intelecto de amor”. Assim também Agostinho, nas suas Confissões, recordando a juventude, agora que é grande e que deveras sabe o que é o Amor, que é Deus, reconhece que então estava procurando o amor: não sabia o que era, não sabia amar, mas era o amor que estava a amar. Amare amabam porque é o amor que se ama verdadeiramente: o amor é o sujeito que ama, o objecto amado e, ao mesmo tempo, o próprio acto de amar. A criatura, com a finitude, é aquilo que desperta em nós aquela “divina loucura” com a qual chegam ao homem todos os dons mais bonitos da parte de Deus: então a Vénus Pandemia cede o lugar à Vénus Urânia, que conduz o homem rumo ao céu. A amizade não é uma forma imperfeita de Eros, mas, ao contrário, o seu grau mais elevado.

Meister Eckhart escreve que o amor por uma criatura é na realidade amor de si mesmo e deste amor nada mais se obtém do que amargura, dado que todas as criaturas são nada, a partir do momento em que recebem todo o seu ser de Deus, e o contacto com o nada faz simplesmente mal. O amor por uma criatura é um milagre, do qual não há nada de mais bonito mas nem de mais dilacerante, porque coloca na nossa frente a finitude, a multiplicidade, e assim a distância do Uno, no qual, unicamente, está a paz. Neste sentido, escreve ainda Eckhart, onde entra a criatura, sai Deus. O amor que tem um porque não é puro, pois onde há o porque existe o útil, contudo configurado. O amor puro é sem porque. Com efeito, a alma tem dois olhos: um olha para a criatura, e ama-a com um amor cheio de ternura e compaixão precisamente pela sua finitude; o outro olha para o eterno, o Uno, e no Uno ama todas as criaturas com um amor que já não é pelos corpos, mas pelas almas que procura tornar melhores, assim como ele próprio se torna melhor por este amor.

Isto é válido, independentemente do sexo. A amizade não é algo que se deve procurar, pedir ou esperar: é uma virtude, e como tal é exercitada e basta, como escreve Simone Weil. A amizade não é um estado de espírito que vai e vem, não é um sentimento, mas diz respeito àquilo que os místicos denominam o fundo da alma, muito mais profundo do que os sentimentos mutáveis, inacessível a tudo, excepto a Deus na sua essência nua. Refere-se não tanto à alma, mas ao espírito, e ali já não existe homem ou mulher, como escreve são Paulo, onde o sexo já não conta.

Por outro lado, porém, não há dúvida de que o ser humano é sexuado, e sexo significa divisão (sexus deriva de secare): somos homens e mulheres, e por natureza procuramos aquela metade que nos falta, sem a qual permanecemos não psicologicamente pacificados, repletos de incompreensão e ressentimento. Por isso, é numa amiga que o homem encontra o complemento perfeito, assim como uma mulher o encontra num amigo: sem dúvida, existe uma corrente de Eros, e deve existir, porque o espírito não pode ser perfeito se antes o corpo e a alma não forem perfeitos, volta a ensinar Eckhart, referindo-se àquilo que em seguida os alemães (como Goethe e Nietzsche) denominaram Vergeistigung, espiritualização, ou Sublimation, mas num sentido oposto àquele em que o utiliza Freud (que o roubou de Nietzsche): não mistificação do instinto sexual, mas sim a sua realização.

Por conseguinte, é precisamente na amizade, rica do Eros entre homem e mulher, que mais do que nunca se manifesta a graça daquele «sentimento popular que nasce de mecânicas divinas», como se diz numa canção dos nossos dias, o Amor «que move o sol e as outras estrelas». Daqui podemos aduzir testemunhos infinitos: desde a antiguidade até hoje, a história está cheia deles. Daqueles célebres, como Clara e Francisco, Teresa de Ávila e João da Cruz, Joana de Chantal e Francisco de Sales, aos intelectuais como Madame Guyon e François de Fénelon, Adrienne von Speyr e Hans Urs von Balthasar, ou Raïssa e Jacques Maritain, que foram também esposa e marido. Portanto, não se trata de algo que é válido somente para religiosos e religiosas, para santos e intelectuais. Que valha o exemplo de dois nossos contemporâneos: o dominicano Antonio Lupi e a jovem Tilde Manzotti, cuja correspondência (Amare infinitamente. Epistolario 1938-1939, por Elena Cammarata, San Leolino, Editore Féeria, 2014, 90 páginas) mostra, mais uma vez, a beleza e a profundidade da amizade entre homem e mulher. 

Marco Vannini

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21 de Outubro de 2019

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