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​A maternidade no feminismo

· A partir do ensaio da jovem nigeriana Adichie ·

Por que motivo a sociedade ocidental de hoje, filha de uma geração de mulheres que fez o feminismo dos anos setenta, ainda é tão machista? Sem dúvida, não o é no plano legislativo — pelo menos no Ocidente — e, decerto, a nível social, seguramente menos do que há várias décadas, mas é um dado de facto que o caminho para uma igualdade concreta ainda é em subida. Por que ainda estamos neste ponto? A pergunta é complexa, as respostas entrelaçam-se. Mas provavelmente na base deste fracasso está também a difícil relação que o feminismo dos anos setenta teve com a maternidade.

Um dos grandes temas com que se relacionou aquele movimento no Ocidente — tanto na fase relativa ao século XIX como naquela, mais conhecida e recente, do século passado — foi a relação com a maternidade. Ao longo do tempo, as soluções foram diametralmente opostas: enquanto para as feministas de Oitocentos a ideia de fundo consistia numa espécie de superioridade moral da mulher, em virtude da maternidade, para as suas bisnetas — ou pelo menos para uma boa parte delas — ser mãe era a encarnação do impedimento que, desde há séculos, limitava as mulheres aos bastidores, uma espécie de diminuição do seu ser mulher.

Quando eu era criança, não entendia muito acerca desta posição: sentia que era uma visão que relegava as mulheres às margens da sua natureza. A sua especificidade tornava-se um obstáculo: não era, porventura, uma teoria negativa que, sobre novas bases, voltava a propor antigas gaiolas, capazes de as sujeitar cada vez mais? Não é que gostamos da retórica de quem, fazendo um processo inverso, simplifica todo o ser mulher com a maternidade — e sobre isto o cardeal Ratzinger escreveu palavras extremamente claras: «Não obstante a maternidade seja um elemento-chave da identidade feminina, isto não autoriza de modo algum a considerar a mulher apenas sob o perfil da procriação biológica. Neste sentido, pode haver graves exageros que exaltam uma fecundidade biológica em termos vitalistas, muitas vezes acompanhados por um perigoso desprezo pela mulher» — mas o problema da relação entre maternidade e feminismo permanece.

Foi precisamente por isto que nos impressionou o recente panfleto que Chimamanda Ngozi Adichie, escritora nigeriana (nascida em 1977) publicou, alcançando um sucesso mundial. Escrito com verve, entre autobiografia e o claro distanciamento em relação a quem considera o feminismo uma embaraçosa herança do século passado, We Should All Be Feminists, publicado pela primeira vez em 2012 (na Itália, a editora Einaudi traduziu-o este ano, com o título Dovremmo essere tutti femministi), não apenas reivindica o direito de continuar a batalha de saltos altos, sem odiar os homens, mas deseja um mundo mais justo, feito de homens e mulheres todos de igual modo verdadeiramente fiéis a si mesmos. E às suas especificidades («Homens e mulheres são diferentes, temos hormónios diferentes, órgãos sexuais diferentes e capacidades biológicas diferentes: as mulheres podem ter filhos, os homens não»).

Neste escrito, fruto da adaptação do que foi pronunciado durante uma conferência, Adichie traça um retrato impiedoso — e lúcido — da sociedade contemporânea. Nós, mulheres, ainda somos invisíveis, no sentido que não somos consideradas como pessoas que têm um olhar diverso do masculino; ainda «passamos demasiado tempo a ensinar as moças a preocupar-se com aquilo que pensam os rapazes», enquanto «o contrário não acontece. Não ensinamos os rapazes a esforçar-se para agradar»; a nós mulheres, desde a infância, é sugerido que ocultemos a raiva, porque uma mulher zangada que se escandaliza com as injustiças contra o seu sexo ainda é considerada uma histérica chata.

Se tudo isto é verdade, sem reclamar e com grande ironia, Adichie dirige o seu olhar para as nossas responsabilidades maternas. «Cometemos uma grave injustiça contra os homens, educando-os como os educamos. Sufocamos a sua humanidade. Damos uma definição muito limitada da virilidade. A virilidade é uma jaula pequena e rígida, na qual aprisionamos os homens. Ensinamo-los a ter medo do medo, da debilidade e da vulnerabilidade. Ensinamo-los a mascarar quem eles realmente são, porque devem ser, para usar uma expressão nigeriana, homens duros” (...). Mas a pior coisa que fazemos contra os homens — impelindo-os a acreditar que devem ser duros — é torná-los extremamente frágeis. Quanto mais o homem se sentir obrigado a ser duro, tanto mais frágil será a sua auto-estima. E além disso cometemos uma injustiça muito mais grave contra as mulheres, porque as ensinamos a cuidar do ego frágil dos homens».

Portanto devemos rever, antes de tudo nós mulheres, uma vez que ainda somos nós que nos ocupamos primariamente das crianças, todo o nosso sistema educativo, mudando aquilo que ensinamos às nossas filhas e aos nossos filhos. Se quisermos chegar a um mundo que seja verdadeiramente mais feminista — ou seja, «um mundo mais justo, um mundo de homens e mulheres mais felizes e mais fiéis a si mesmos» — devemos passar pela maternidade. É quanto no-lo recorda uma jovem mulher, filha do continente mais jovem do mundo sob o ponto de vista civil. 

Giulia Galeotti

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20 de Agosto de 2019

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