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​Mártir dos direitos humanos

Foi silenciada já há trinta e três anos a voz de Marianella García Villas, advogada dos pobres e dos camponeses, filha privilegiada da rica burguesia de El Salvador, mas eleita no parlamento pelas mulheres do povo. Foi esquecida desde aquele dia de março de 1983, quando a junta militar no poder no seu país decidiu torturá-la brutalmente e assassiná-la. As suas denúncias e as suas tomadas de posição em defesa dos direitos humanos tornaram-se inaceitáveis para o poder. Portanto, como aconteceu três anos antes com Óscar Romero, com quem ela colaborou por muito tempo, também a sua voz foi silenciada para sempre. Assassinado a 24 de março de 1980, enquanto celebrava a missa, Romero tinha denunciado por anos as injustiças do seu país e as violências da polícia e dos militares contra os mais débeis. Viu morrer, debaixo dos tiroteios dos paramilitares um dos seus mais estreitos colaboradores, o sacerdote jesuíta Rutilio Grande. O homicídio abalou profundamente Romero, que mais tarde disse: «Quando olhei para Rutilio morto na minha frente pensei: “Se o assassinaram por causa daquilo que fazia, então devo seguir o seu caminho”». Aquele caminho tem uma data específica, 24 de novembro de 1977, dia em que se cruza o percurso de D. Romero com o da jovem Marianella García Villas. Foi na altura em que a assembleia legislativa do país aprovou a Lei de defesa e garantia da ordem pública que de facto deixava plena liberdade ao governo na atividade de repressão. Além das detenções começam a verificar-se também os desaparecimentos: de modo que o fenómeno dos desaparecidos se torna um problema também salvadorenho. Nesta situação de violência generalizada, o arcebispo de San Salvador promove, juntamente com seis jovens advogados, a criação de um grupo de «socorro jurídico», uma organização que presta assistência aos réus e, simultaneamente, prepara para o arcebispo notícias específicas e pormenorizadas para denunciar durante as homilias. Todos os fins de semana Marianella entrega a Romero um relatório detalhado sobre o que acontecia no país: assassinatos, torturas, massacres, desaparecimentos. De modo que Romero pudesse preparar a homilia dominical.

As homilias de Romero são muito longas, podem durar até duas horas e são seguidas através da rádio em todo El Salvador e nos países vizinhos, difundindo o conhecimento da situação de degradação que a guerra civil estava a causar ao país. A rádio católica Y.s.s.x. «A voz pan-americana», mediante a qual o arcebispo Romero transmitia as suas homilias, tornou-se rapidamente um ponto de referência. Cada homilia era dividida em três partes: a primeira dedicada aos textos da liturgia da Palavra com aplicações ao tempo litúrgico e à vida cristã dos fiéis que o escutavam; uma segunda mais pastoral e diocesana; e por fim uma terceira parte com a análise sobre a situação do país e com a denúncia específica e pormenorizada dos episódios de violência e sequestros. Para a preparação desta última parte das homilias, Romero consultava-se diariamente com o grupo de socorro jurídico coordenado por Marianella e com os vários organismos diocesanos criados para a defesa dos direitos humanos. Por este motivo, a rádio sofreu dois atentados à bomba. No dia 23 de março de 1980, o arcebispo convidou abertamente os oficiais e todas as forças armadas a não cumprir as ordens, se elas fossem contrárias à moral humana. No dia seguinte, Óscar Arnulfo Romero foi assassinado brutalmente enquanto celebrava a missa. Durante as exéquias o exército abriu fogo contra os fiéis, perpetrando um novo massacre.

Detalhe do monumento à memória e à verdade (San Salvador)

Levou trinta e cinco anos para reconhecer que o arcebispo de San Salvador foi martirizado in odium fidei e, portanto, digno de ser proclamado beato, enquanto a figura de Marianella foi praticamente esquecida. No primeiro aniversário do assassinato de D. Romero, Marianella recordou o arcebispo no boletim da Comissão para os direitos humanos, pedindo com vigor que «juntamente com o profeta não se deixasse enterrar também as suas palavras». Ameaçada de morte várias vezes, visitou diversos países europeus de 1981 a 1982. Durante uma viagem à Itália, em 1981, participando numa manifestação na cidade de Pádua, testemunhou o drama vivido pelo seu povo, sublinhando o compromisso insuficiente e inadequado a nível internacional em defesa dos direitos humanos. O compromisso para com os marginalizados levou-a de volta ao seu país. Regressanda clandestinamente em El Salvador, foi brutalmente assassinada a 13 de março de 1983. O batalhão Atlacatl do exército salvadorenho torturou-a até à morte para evitar que denunciasse o uso de armas químicas, entre as quais napalm e fósforo branco, em massacres de camponeses salvadorenhos.

Permanece apenas o livro Marianella e os seus irmãos, publicado em 1983, resultante de algumas conversas com Marianella de 1981 a 1982, durante a sua estada na Europa. Inicialmente os autores queriam intitulá-la Antígona e os seus irmãos, considerando as afinidades com a figura mitológica. Mas Marianella não precisa de ser comparada com um mito, ela mesma era um mito, pela sua coragem, pela sua morte.

SILVINA PÉREZ

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23 de Outubro de 2019

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