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Maria de Nazaré no coração ardente da aliança

 Todos sabem que a Virgem Maria está associada, no coração da Igreja, a uma imensa tradição espiritual que medita sobre a sua figura, canta a graça da sua pessoa, celebra a sua participação na obra de salvação, encontra apoio no seu acompanhamento materno. As figuras mais ilustres da história cristã apoiam os crentes mais humildes numa igual confiança e piedade filiais para com aquela que o concílio de Éfeso declarou solenemente theotokos. Todavia, sem minimizar esta realidade que é parte integrante do património cristão, não é impróprio voltar um pouco à fonte da fé e da piedade, ou seja, ao testemunho das Escrituras. Sabe-se que, pela sua sobriedade, este testemunho contrasta incrivelmente com a superabundância, ou melhor a exuberância, da teologia e da piedade marianas. O facto é que a presença de Maria na narração evangélica é parcimoniosa e discreta. Trata-se de um paradoxo evidente que seria lamentável descuidar e não indagar. Talvez se pudesse chegar a um maior conhecimento de Maria, conseguindo inclusive superar o desconforto que alguns cristãos sentem hoje em relação a uma certa espiritualidade mariana. Na realidade, a exaltação da Virgem Maria está longe de proteger contra a misoginia. Prova disso são os discursos que contrapõem Eva – débil e tentadora, que representa a mulher de sempre – à Virgem pura e santa, apresentada como modelo de uma feminilidade feita de obediência, serviço e anulação, modelo do qual os homens abusaram amplamente.

«Anunciação» Vittorio Corcos (1904)

Recordemos em síntese alguns elementos dos documentos escriturais. É um dado adquirido que os Evangelhos de Lucas e de João mencionam Maria em dois pontos decisivos da narração evangélica. Maria é apresentada desde o início em Lucas, na Anunciação e na Visitação, e em João, no início do ministério público, com as bodas de Caná. Em seguida, é mencionada de novo no momento final da paixão, quando em João 19, 25-27 são referidas as palavras de Jesus que entregam o apóstolo João nas mãos de Maria e confiam Maria a João. O epíteto inesperado, no quarto Evangelho, da mãe de Jesus como «mulher» (gyne) sublinha a aposta teológica atribuída aqui na sua presença. Depois da ressurreição, o livro dos Atos dos apóstolos indica a sua presença na câmara alta, onde receberam a efusão do Espírito Santo. Mas, além destas referências, o corpus mariano é constituído somente por breves menções, colocadas na boca de adversários que tencionam desacreditar Jesus fazendo notar que é apenas «o filho de Maria» (Mateus 13, 55 e paralelos). A tudo isto acrescenta-se o episódio em que Jesus reage à pergunta da sua mãe e dos seus «irmãos» que vieram para falar com ele: «Quem é minha mãe, e quem são meus irmãos?» (Mateus 12, 46-50 e paralelos). A sua resposta, geralmente considerada brutal, na realidade é muito instrutiva pelo deslocamento que realiza: «quem faz a vontade de meu Pai que está nos céus, este é meu irmão, minha irmã e minha mãe». A asserção é confirmada em Lucas 11, 27-28, quando Jesus recusa as palavras da mulher que celebra o ventre materno que o deu à luz, deslocando de novo a bem-aventurança para «quantos ouvem a palavra de Deus e obedecem», portanto, distante de considerações sobre a maternidade física de Maria. Estes últimos episódios, sem dúvida desconcertantes, encerram contudo uma lição importante: a identificação de Maria, a explicitação do seu papel e da sua preeminência no mistério da salvação podem dar origem a interpretações erradas. Por conseguinte, convidam a ser prudentes e a prestar atenção.

«Bendita entre as mulheres»: este epíteto dado a Maria por Isabel, que conhece o segredo da sua prima enquanto ela própria recebe a graça de um nascimento impossível, deve chamar a atenção. A expressão é magnífica, mas deve ser compreendida corretamente, ou seja, abstendo-se da interpretação segundo a qual ela, «única entre as mulheres, soube agradar a Deus», como julgava um autor do século V e como a subentendia uma longa tradição. O texto evangélico, na sua versão quer grega quer latina, designa-a bem como aquela que está «entre», «entre as mulheres», que encontra lugar no rico cortejo das gerações femininas que se sucedem desde o princípio do mundo. E, naturalmente, neste contexto Maria encontra-se em primeiro lugar próxima das suas contemporâneas, parentes, vizinhas, amigas, que vivem ao ritmo de uma aldeia da Galileia do século I. A nossa memória histórica tem dificuldade em fazer reviver estas vidas de mulheres, dado que se dedicam culturalmente à anulação. Exegetas e historiadores esforçam-se hoje por restituir algo delas, algo que contudo não vai além daquilo que diz de maneira alusiva o Salmo 128: «A tua esposa será como videira frutífera em tua casa».

«Visitação» (vitral da Igreja de Taizé)

Contudo, no caso de Maria, esta condição humilde é arrancada da banalidade. Em primeiro lugar porque aquela vida escondida, onde nada parece digno de especial atenção, faz experimentar o mistério da encarnação do próprio Jesus, descrito em Gálatas 4, 4 «nascido de uma mulher», que se faz próximo da condição humana com a sua maior modéstia. Em segundo lugar, porque a narração evangélica ressoa com fortes referências bíblicas, que relacionam Maria com as mulheres de Israel das quais as Escrituras conservam e celebram a memória. A presença de Isabel, a estéril, que dá à luz na sua velhice, inscreve no Evangelho, desde o início, esta história feminina, que serve de apoio ao cumprimento do desígnio de Deus. Precisamente como o Magnificat, que retoma as palavras de Ana, mãe de Samuel. Assim Maria a parece no final de uma longa descendência de mulheres que, a partir das matriarcas e passando por Rute, Judite, Ester e muitas outras, conceberam, no poder de Deus, as gerações de Israel ou que, neste mesmo poder, foram as garantes do futuro do povo nos momentos de perigo. Enfim, Maria é evocada nas palavras que a associam à Filha de Sião, cujos traços a tradição profética exalta antecipadamente a partir do exílio, associando-a à obra de salvação que Deus realizará. E é aquilo que exprime a saudação do anjo da Anunciação, onde o termo grego chaîre deve ser considerado como se fosse um “alegra-te” que retoma Sofonias 3, 14, Zacarias 9, 9 e ainda Joel 2, 21-33, convidando a Jerusalém messiânica à alegria de se saber revestida por Deus com as vestes da salvação. Desta vez é evidente, a figura de Maria transpõe as gerações femininas de Israel e iguala-se ao povo inteiro, gerado por Deus para a santidade, a partir do pequeno resto que se manteve humildemente na esperança.

Portanto, é possível celebrar Maria como o verus Israel, no sentido que tudo o que a define é de facto cumprimento da vocação do povo eleito. Assim Maria é colocada, como nenhum outro ser humano, no coração ardente da aliança, ali onde Deus leva ao ponto extremo a sua vontade de salvação para a humanidade e ali onde esta humanidade acede a uma justiça que cumpre a sua verdade divina. O mesmo verifica-se quando Maria consente ao anúncio inaudito do anjo, definindo-se ela própria «serva do Senhor». Longe de uma interpretação negativamente ancilar, sabe-se que este é o título que Moisés recebe de Deus e que conserva até a Apocalipse 15, 3, e é também o título dado ao rei David, e naturalmente ao povo que, no parecer dos profetas, tem muita dificuldade em honrá-lo na história veterotestamentária. A humildade associada à palavra «serva» encontra por sua vez o seu verdadeiro significado à luz da revelação: antídoto ao orgulho que conduz à morte, é aquilo ao que o Deus de Israel exortou constantemente o seu povo, ensinando-lhe que é esta a via mestra, a arma do verdadeiro poder, que confunde e derrota os soberbos. As palavras do Magnificat, que celebram o Deus que «derrubou do trono os poderosos» exprimem bem isso.

Maria é mais do que nunca verus Israel, como «aquela que escuta». Também nisto, cumpre, ou seja, leva à sua plenitude, a tarefa que foi confiado ao povo da aliança no shema Israel (cf. Deuteronómio 6, 4), ela que sabe perceber a voz de «delicado silêncio» do anjo da Anunciação. E é precisamente esta “escuta” que Jesus realça para retificar a bem-aventurança que exalta o ventre que o carregou. De qualquer modo, ouvir significa também guardar a palavra recebida, como faz Maria em Lucas 2, 19 e 51, cumprindo a injunção que define igualmente a vocação de Israel na tradição deuteronómica. E enfim ouvir e guardar significa acreditar, algo pelo qual Isabel presta homenagem a Maria: «feliz é aquela que creu que se cumprirá aquilo que o Senhor lhe disse» (Lucas 1, 45). É precisamente este acreditar que o Evangelho de Lucas ressalta em duas ocasiões. Um acreditar que devemos questionar e contemplar, perguntando-nos como Maria acreditou no que era justo. De facto, não se deveria eludir a pergunta com o pretexto que, como Mãe de Deus, concebida sem pecado, teria vivido com uma clarividência que lhe evitou a obscuridade da fé e que no final a teria dispensado de acreditar. Mas não é assim que os Evangelhos a reevocam. Ao contrário, desde a Anunciação que suscita a sua pergunta «como é possível», a sua vida é repleta de maravilhas. A narração da natividade em Lucas descreve-a enquanto guarda no seu coração a recordação de realidades bastante inquietantes. Como se pode pensar que as palavras de Simeão, durante a apresentação do menino no templo, não tenham suscitado a sua perplexidade? Perplexidade expressa claramente no episódio em que Jesus, adolescente, permanece no templo, enquanto os seus pais partiram de novo. A frase «filho, porque nos fizeste isto?» não é absolutamente esclarecida pela enigmática resposta de Jesus, que diz que deve ocupar-se das coisas do seu Pai. O texto comenta com sobriedade que Maria «guardava todas estas coisas no seu coração». E ainda, como imaginar a provação vivida por Maria durante os trinta anos de vida no escondimento de Jesus, que parecem anular tudo o que ela tinha ouvido profetizar acerca do seu filho? E durante aquele longo período não experimenta porventura Maria o mistério da kenosis de Jesus de modo como a explicita o hino na carta aos Filipenses? E ainda mais quando esta kenosis culmina no Gólgota. Deveríamos acreditar que a mãe foi poupada da consternação do filho: «meu Deus, porque me abandonaste?»? O facto é que Maria permanece presente, até ao fim. Stabat mater. Permanece ali a noite inteira, na provação da contradição, «reunindo» (segundo o significado da palavra grega simballousa em Lucas 2, 19) a evidência da falência absoluta e a confiança sem palavras que Deus salva, também naquela perda. Carlo Crivelli, «Piedade» (detalhe, 1476)

Esta é a fé do «coração sensato» de Maria, segundo a expressão de Provérbios 14, 33, que é também o coração que Salomão pedia a Deus na sua oração (1 Reis 3, 9). E é deste coração – que escuta e guarda, aderindo ao desígnio escondido de Deus no meio das trevas que parecem desmenti-lo – que Jesus é gerado. E é para esta fé que Maria gera a Igreja: fé corajosa, resistente, que enfrenta a queda de todas as imagens idiolátricas de Deus que a cruz contradiz e denuncia. Assim, vivendo e gerando a partir desta fé, Maria de Nazaré transcende completamente o modelo de feminilidade que demasiadas vezes se pretendeu atribuir-lhe. É nesta mulher, associada à obra divina da recriação da humanidade, como a cantava santo Anselmo, que toda a Igreja é convidada a reconhecer-se maternalmente gerada, para trazer ao presente obscuro em que vivemos o testemunho da vitória do ressuscitado, a despeito de todas as provas em contrário.

Anne-Marie Pelletier

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A autora

Professora universitária, atualmente ensina exegese bíblica na faculdade Notre-Dame, Collège des Bernardins (Paris). Muitas vezes está empenhada em cursos de antropologia bíblica no mundo monástico, é membro da Association catholique française pour l’étude de la Bible (Acfeb) e do Institut Lustiger. Em 2014 foi galardoada com o prémio Ratzinger. Entre as suas publicações Lectures du cantique des Cantiques. De l’énigme du sens aux figures du lecteur (1989); O cristianismo e as mulheres (2001), e Le signe de la femme (2006).

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22 de Outubro de 2019

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