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Mansidão e humildade mudam o ultraje em bênção

· Homilia do cardeal Schönborn ·

Durante a missa celebrada pelo Papa para os seus ex-alunos em Castel Gandolfo, a seguinte homilia foi proferida pelo cardeal arcebispo de Viena (Áustria), Christoph Schönborn.

O trecho do Evangelho de hoje, um almoço de sábado na casa de um dos chefes dos fariseus, começa com uma observação recíproca. O anfitrião e os seus amigos olham para Jesus. «Prestam-lhe atenção», traduz Adolf Schlatter. Perscrutam-no de modo crítico. E têm a ocasião de confirmar os próprios juízos severos. De facto, Jesus cura um homem doente de hidropisia (a nossa leitura de domingo salta esta cura) e fá-lo no sábado!

E Jesus observa-os. Observa o seu comportamento durante o almoço, a competição para sentar nos melhores lugares. Aquele que é observado de maneira crítica se torna por sua vez espectador do comportamento pueril. Sob forma de parábola coloca um espelho diante deles e também diante de nós, que escutamos o Evangelho.

Como sempre as parábolas enfrentam experiências de vida quotidiana. Sentar-se no último lugar, antes de mais, não é uma questão de humildade, mas de sabedoria: melhor ser convidado para ir à frente que para retroceder com vergonha. Contudo esta sabedoria não é uma estratégia astuta para conquistar o lugar de honra. A verdadeira humildade possui sempre algo de realista. Mozart sabia, e às vezes dizia, que estava entre os melhores. Era verdade. A sua humildade residia no facto de que apreciava o seu génio, mas considerava-o sempre um dom de Deus e, portanto, uma tarefa. Não é preciso explicar a analogia com o nosso venerado mestre. A humildade é algo muito sóbrio. Relaciona-se com a veridicidade e a gratidão. A humildade, sobretudo, é o olhar agradecido, sóbrio e jubiloso ao nosso ser criaturas. Jesus disse a Santa Catarina de Sena: «Reconhece quem és tu e quem sou eu e serás feliz: eu sou aquele que é, tu és aquela que não é». O apóstolo diz: «O que possuis, que não tenhas recebido?». A humildade como atitude criatural fundamental! Para a compreender e viver de modo mais profundo, o Criador- Logos fez-se carne, servidor, ele próprio tornou-se criatura para nos mostrar do centro da nossa essência criatural qual deve ser a atitude de uma criatura. Convida-nos a aprender com ele, que é «manso e humilde de coração» ( Mt 11, 29).

Já Ben Sira recomendava mansidão e humildade: «Quanto maior fores, mais te deverás humilhar» (primeira leitura), literalmente é assim (contudo, na tradução oficial da bíblia em alemão é demasiado duro, não obstante a referência cristológica salte aos olhos).

Por conseguinte, o nosso olhar dirige-se a Cristo. Aquele que escolheu o último lugar, e era Deus (cf. Fl 2). Recorda-me a breve parábola do último lugar durante outro almoço, que Jesus partilhou com os seus discípulos. Segundo São Lucas, depois que Jesus instituiu a Eucaristia, nasceu uma discussão entre os apóstolos sobre quem deles deveria ser considerado o maior (cf. Lc 22, 24-30): uma luta clerical pelo predomínio no cenáculo, logo após a instituição do sacerdócio da Nova Aliança! É verdade, Senhor, tu observas de que modo lutamos pelo lugar de honra, aberta ou dissimuladamente. E recorda-nos: «Eu estou no meio de vós como aquele que serve» ( Lc 22, 27). Deveríamos envergonhar-nos constantemente, reconhecendo que ainda temos que aprender muito de ti. Senhor, tu mesmo consola-nos: sim, no cenáculo, não obstante a traição iminente, o Senhor prometeu aos apóstolos: «Vós sois os que permaneceram

sempre junto de mim nas minhas provações, e Eu disponho do Reino a vosso favor, como meu Pai dispõe dele a meu favor ( Lc 22, 28 s.). Que acto de confiança da parte do Senhor! Confiou-nos o Reino do seu Pai. Para que a grandeza da nossa vocação não nos torne soberbos, ele colocou-nos, e sobretudo os primeiros apóstolos, no último lugar. Pelo menos é assim que pensa São Paulo: «De facto, parece-me que Deus nos pôs a nós, apóstolos, no último lugar, como se fôssemos condenados à morte, porque nos tornámos espectáculo para o mundo, para os anjos e para os homens. Nós somos loucos por causa de Cristo, e vós, sábios em Cristo! Nós somos fracos, e vós, fortes! Vós, honrados, e nós, desprezados! Amaldiçoados, abençoamos: perseguidos, aguentamos; caluniados, consolamos! Tornámo-nos, até ao presente, como o lixo do mundo e a escória do universo» ( 1 Cor 4, 9-13).

Santo Padre! Que estas palavras do Apóstolo lhe sejam de conforto, quando os ultrajes derivam dos próprios fiéis, dos cristãos e quando lhe mostram o «cartão vermelho». A humildade transforma o ultraje em bênção. Obrigado, santidade, por nos ter mostrado a atitude de Jesus, que é manso e humilde de coração.

Porventura não existe algo de maravilhoso na fé cristã, na experiência cristã? A alegria pelo facto de que os critérios do reino dos céus são tão diferentes. Quem é verdadeiramente grande no reino dos céus? Como enche de alegria poder intuir, já aqui na terra, nas pessoas que vivem segundo o coração de Jesus, quem são os grandes no reino dos céus! E esta alegria não falta ao Santo Padre, nos numerosos encontros com pessoas que são grandes segundo os critérios da «ecclesia», da comunidade dos «primogénitos cujos nomes estão inscritos nos céus», embora para o mundo não tenham significado.

Agora o próprio Senhor convida-nos à sua mesa. Ele não teme convidar pobres, aleijados, coxos e cegos. Convida-nos a nós, humildes pecadores, com todas as nossas faltas e defeitos e está no meio de nós como aquele que serve. Felizes os convidados ao banquete do Cordeiro!

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23 de Setembro de 2019

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