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Mães para sempre

Tudo começou com as rondas das Mães de Plaza de Mayo. Em plena ditadura argentina, em 1976, algumas mulheres com a cabeça coberta com um lenço branco marchavam todas as quintas-feiras diante da sede do Governo para pretender notícias acerca dos seus filhos desaparecidos. Os militares chamavam-nas «as loucas». Estavam muito sozinhas, mas iam aumentando cada vez mais. No espaço de poucos meses, algumas começaram a reunir-se numa esquina da praça: muitas das suas filhas estavam grávidas quando foram sequestradas. Procuravam não só os filhos, mas também os netos. «No primeiro dia éramos um pequeno grupo ínfimo. 

as mães de Plaza de Mayo no quadragésimo aniversário do golpe de estado militar (24 de março de 2016)

Tínhamos necessidades diversas, não era suficiente pedir o habeas corpus à justiça, ir diante do Ministério do Interior, do exército. Fazíamos isso pelos nossos filhos. Mas íamos também aos tribunais dos menores, aos orfanatos», conta Mirta Acuña de Baravalle, uma das fundadoras das Avós de Plaza de Mayo, que com 92 anos ainda não deixou de procurar os netos. De cada vez chegavam mais avós e mães. Encontravam-se nos bares em volta da praça. Tinham só a si mesmas. Até os familiares, inclusive os de Mirta, lhes pediam para se renderem. Era demasiado perigoso. Um carro estacionado por muito tempo diante da porta de casa, um barulho, tudo as assustava. Mas insistiam. A ditadura assassinou a primeira líder das mães, Azucena Villaflor, cujo cadáver foi encontrado no Río de la Plata. Foi vítima dos chamados voos da morte.

O terror era a normalidade, mas não deixaram de se encontrar todas as quintas-feiras na praça. No início estavam paradas, mas isto foi-lhes proibido, por conseguinte começaram a marchar em círculo. «Na época ninguém nos ajudava, havia muito medo. Com a democracia [1983] começaram a apoiar-nos mais. As pessoas acorriam todas as quintas-feiras. Muitas eram curiosas, queriam saber o que tinha acontecido naqueles anos terríveis», conta Mirta. Como todas as manhãs, também hoje que com 92 anos começa o dia com a leitura dos jornais, como parte de um compromisso que, garante, «é tanto do corpo como da alma». 

uma fotografia das manifestações de 1979

O dia prossegue com leituras e debates, porque «há mães e avós que têm opiniões diversas», e no final, às cinco da tarde, volta para casa com um autocarro apetrechado para deficientes «a fim de despachar, se conseguir, algumas tarefas domésticas». Surpreende-se quando se lhe pergunta se continuará a marchar com as Mães em volta da Pirâmide de Plaza de Mayo, como há quarenta anos. «Nem sequer mo perguntes» brinca. «Cada um dos aspetos da minha vida está relacionado com o ir para a praça» afirma com as seus modos tranquilos, convicta de que o movimento das Mães «nasceu de uma caminhada silenciosa que se transformou no grito mais forte de todos os tempos». «É verdade que a batalha contra o tempo, contra o passar dos anos, contra o corpo que envelhece e deixa de te pertencer é a mais difícil de combater, mas não obstante tudo ainda somos mães!».

Mirta nunca se rendeu e nem sequer agora o quer fazer. Lamenta-se pelos «pés que tantas mães consumiram caminhando na Praça, mas hoje vamos em frente, algumas na cadeira de rodas e outras com um evidente declínio físico, mas vamos em frente». O sequestro da sua filha, Ana María, ocorrido a 28 de agosto de 1976, foi o ponto de rutura que impulsionou uma mãe «que não se interessava de política e se ocupava de cuidar da família» a dedicar a sua vida a uma busca partilhada. As mães tornaram social a maternidade. Foi só por amor, um amor infinito, que «passamos da luta pelo filho de uma à luta pelos filhos de todas», construindo a pouco e pouco uma consciência de género fundada na passagem da maternidade biológica para aquela associativa. Os filhos reclamados ultrapassavam o vínculo com os próprios pais porque eram considerados filhos desaparecidos de uma determinada comunidade social e política. Mirta afirma que estas mães, que têm hoje uma idade compreendida entre os 85 aos 95 anos, ao contrário de há quarenta anos, foram «dadas à luz pelos próprios filhos». Qual maior dor para uma mãe – acrescenta Mirta – do que perder o próprio filho? Talvez aquela de o ver desaparecer, no nada, sem saber o que lhe aconteceu e onde jaz o seu corpo. «Ainda temos que recuperar 350 netos sequestrados, mas vejo a luta com renovada esperança. Enquanto tivermos vida, nós mães e avós continuaremos a lutar. Além disso, agora os nossos netos ajudam-nos a levar por diante a organização, que não deixa de crescer. Estamos a abrir uma rede na França». Mirta está cheia de energia e de otimismo.

Silvina Pérez

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