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Livre pensamento crítico sobre a ideologia do gender

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Sem dúvida o Papa Francisco goza dos favores dos meios de comunicação, e às vezes quase nos surpreendemos que os principais jornais internacionais deixem passar sem reagir frases que, ditas por outros, teriam suscitado ataques indignados. Mas desta vez não, desta vez não deixaram correr quando criticou com vigor a teoria do gender. Antes de tudo isto revela que o gender constitui um ponto sensível sobre o qual se pretende fazer descontos, sobretudo se se toca o coração da transmissão da ideologia: o ensino nas escolas.

Mas revela também que o ensino do gender não é o que se diz, isto é, uma necessária preparação dos jovens a fim de que a homossexualidade não seja exorcizada. De facto, o Papa acompanhou o seu discurso sobre o gender com uma clara aceitação dos homossexuais, com uma abertura que na Igreja nunca se tinha manifestado com tanta coragem.

Depois, as reações mostram também as dificuldades nas quais se encontram os promotores de tal ensino. Não tanto por causa dos seus opositores quanto pelo motivo do bom senso e da experiência diária vivida por cada um, que constituem um antídoto natural – nada ideológico – contra estas ideias.

Antes de mais, os críticos repreendem o Papa por ter usado o termo «teoria», esquecendo que, sob um certo ponto de vista, tudo o que é ensinado abstratamente é uma teoria e ainda mais o gender que, não encontrando comparação na experiência concreta, é só um exemplo teórico. Contudo, sob outro ponto de vista, é verdade que o gender tentou estabilizar-se como teoria, e além do mais como teoria científica – recordemos apenas o caso muito conhecido do médico John Money – mas ela esvaneceu no nada com as primeiras verificações.

Então, surge a pergunta: o que é o gender que se ensina nalgumas escolas? Não é uma teoria mas uma ideologia, ou melhor, uma ideologia utópica semelhante àquelas que no século passado prometeram a realização do paraíso na terra se conseguíssemos alcançar uma verdadeira igualdade entre os seres humanos. Também o gender promete felicidade se se cancelar a diferença entre homem e mulher, com grande desprezo pela realidade biológica, por conseguinte pela maternidade entendida não só como procriação mas como criação de uma relação humana única desde a conceção. Substancialmente, a ideologia do gender promete felicidade – graças a esta igualdade – contanto que se escolha a liberdade de realizar todos os desejos, de privilegiar sempre a si mesmo e não a construção de vínculos humanos fundados na realidade. E por conseguinte prejudicando a família.

Francisco explicou com grande clareza que podemos amar e acolher os homossexuais e os transexuais sem recorrer a este recurso ideológico, e num certo sentido desmascarou os objetivos da ideologia: desestruturar a família e não tanto ajudar os homossexuais a ser aceites como iguais.

Com as palavras do Papa a Igreja mais uma vez se revela impermeável às utopias de igualdade, mesmo se foi precisamente o cristianismo que, paradoxalmente, trouxe ao mundo, pela primeira vez, o princípio de igualdade de todos os seres humanos. Mas a igualdade pregada e praticada pelo cristianismo funda-se na partilha entre todos os seres humanos da condição de filhos de Deus. Portanto, é um conceito flexível, aberto à presença de diferentes no seu interior, que não significam – ou melhor, não deveriam significar – desigualdades.

Pelo contrário, o conceito de igualdade hoje na moda é muito mais frágil, não se baseia em princípios fortes e partilhados, e é continuamente posto em crise pela constatação evidente da diferença entre os seres humanos. Eis então as tentativas de criar a igualdade: por exemplo, eliminando a propriedade privada (com o comunismo), a doença (com a eugenética) e hoje a diferença sexual (com o gender). Resumindo, as palavras de Bergoglio confirmam, mais uma vez, que o ponto de vista católico constitui um iniludível e livre pensamento crítico em relação aos lugares-comuns aceites passivamente. 

Lucetta Scaraffia

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25 de Agosto de 2019

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