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Livre de ser quem era

· A santa do mês apresentada por Francesca Romana de’ Angelis ·

Roma, 9 de Março de 1440. Hoje a noite desce devagar, Sentada ao lado da janela olho para a última luz deste dia doce que traz em si a promessa de uma primavera próxima. Uma tela tecida com fios de ouro mostrou-me o meu anjo da guarda. Desde então não contei o tempo mas esta manhã percebi que a minha tela está terminada. Depois de ter passado alguns dias ao lado do meu filho doente, preparava-me para voltar para Tor de’ Specchi, a pequena comunidade religiosa que fundei e onde vivo há alguns anos, quando o padre João, a minha preciosa guia espiritual, me disse: estais cansada, ficai aqui. Aceitei o seu convite e fiquei porque as suas palavras soaram-me como um sinal. Nesta casa de Trastevere, a minha casa conjugal, passei grande parte da minha vida e talvez esteja certo que o último nó se desfaça entre estes muros. Não tenho medo do fim porque espero de alcançar a plenitude daquele bem que tive o dom de ver nas minhas êxtases: um mar de luz infinita, os anjos como flocos de neve no céu, Maria que me protegia com o seu manto e punha a Menino nos meus braços. Não tenho medo mas o destaque é sempre difícil. Além do filho que tive do meu ventre deixo muitos outros, porque senti como se fossem filhos todos os que amei. Não os poder socorrer quando tiverem necessidade de consolo, é somente este pensamento a cauda da minha melancolia.

Para o alto, entre as estrelas, levo alguns arrependimentos – as palavras que não disse, os gestos que não fiz, o muito que era pouco demais – e tantas recordações. A cor rosa do céu de Roma com o verde dos pinheiros; a voz da minha mãe que me lia os Evangelhos e a Divina Comédia; o coração generoso do meu marido Lourenço; as risadas de alegria dos meus três filhos quando eram crianças; o perfume do poejo que floresce entre as pedras ao longo da via Sacra que eu percorria até Santa Maria Nova, a minha igreja preferida; o burro que carregado com comida e lenha foi o meu fiel companheiro pelas ruas da cidade. De todas as palavras do mundo levarei uma só, mansidão, porque é uma daquelas que contêm infinitas outras: amor, consolação e ternura. Como a palavra fome, que não é só fome, mas sofrimento, humilhação, solidão e medo.

Vivi em tempos muito tristes. Papas, anti-papas, Roma invadida pelos estrangeiros ou nas mãos de famílias potentes decididas a conquistar o poder. E lutos, violências, carestias, a sombra maligna da peste. Vivi também muitas dores. A maior a perda de dois filhos, João e Inês, uma ferida cruel daquelas que nada no mundo consegue curar. Contudo se penso na vida, vejo o dom de tanta graça. Os meus primeiros anos foram um período feliz e protegido, um tesouro precioso de forças intactas onde as ir buscar quando a vida ameaçava tirar-me a limpidez dos sonhos. Ainda não tinha deixado a infância e já imaginava um futuro de solidão e oração, quando o meu destino tomou uma outra estrada. Linda demais para ser monja, disse o meu pai. Tentei protestar, mas foi inútil. Por fim disse que sim, somente por amor filial.

Foi durante o cortejo nupcial, quando ia para o palácio Ponziani, que algo mudou para sempre na minha vida. Lembro-me que depois que passei a ponte Santa Maria – sempre gostei das pontes, aquelas faixas de terra suspensas que unem margem com margem e os homens com os homens – pensei que aquela que estava a atravessar era uma Roma que não conhecia, uma cidade desolada e paupérrima, que tinha consumido tanto passado e tanta beleza. Monumentos em ruína, barracas miseráveis, estradas estreitas e lamacentas, crianças esfarrapadas e poucas casas nobres, fechadas e protegidas como fortalezas. Alguns meses depois, quando me curei de uma doença que talvez fosse somente a confusão de uma esposa adolescente, aquele novo modo de ver o mundo tornou-se uma ideia. Tinha que fazer alguma coisa. E alguma coisa consegui fazer graças ao coração amoroso da minha cunhada Vannozza, da incansável serva Clara, mas sobretudo de Lourenço. Depois das perplexidades dos primeiros tempos, o meu marido compreendeu e deixou-me livre de ser o que eu era. Todos os que batiam à nossa porta eram bem-vindos no meu coração. Comecei a distribuir farinha, azeite, vinho, dinheiro e a divina providência voltava sempre a encher aquilo que eu esvaziava. Celeiros cheios e adegas cheias para que outras bocas fossem tiradas à fome. Com o tempo vendi as jóias e as roupas descobrindo a alegria de transformar o supérfluo em necessário: pedras e tecidos preciosos transformaram-se em comida, pão e remédios. Aprendi que se pode rezar a amassar o pão, a recolher a fruta e a verdura na horta, ao cortar lenha nas vinhas fora dos muros para queimar, ao inventar pomadas para curar os males do corpo e palavras e gestos que curam os da alma. E aprendi que também não é suficiente dar. Acolher, proteger, amar e tentar levar alegria onde não a há. Porque o coração dos homens – tinha razão o poeta que amei desde criança – é como aquelas pequenas flores que, dobrados e fechados pelo gelo nocturno, voltam a reviver com a tepidez do Sol.

Até a última luz já foi embora. Através da janela encostada chega-me o murmúrio dos tantos que vieram despedir-se de mim. Encher-se de coragem quando se pode. O que disse aos outros infinitas vezes, esta tarde digo-o a mim mesma. Tenuisti manum dexteram meam diz o Salmo.

A mão direita apertada na tua, Senhor, assim será mais fácil despedir-me de quem amei.

Francesca Romana de’ Angelis nasceu em Roma, onde vive e trabalha. Depois da licenciatura em letras, ensinou no liceu. Pesquisadora de literatura italiana do século XVI, publicou ensaios e edições de textos. Durante anos colabora com programas culturais e escreveu guiões para a Rai [Rádio Televisão Italiana]. Entre as suas obras, recordamos a maravilhosa biografia de Torquato Tasso, Solo per vedere il mare (2005, Premio Massarosa), Storie del Premio Viareggio (2008), Con amorosa voce (2008). Para nós escreveu a história de santa Martina (Janeiro de 2013).

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