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Lição de perdão feminina

Intitula-se '71 um bom filme inglês sobre a guerra na Irlanda – ambientado na Belfast dividida em duas partes, a católica e a protestante, em áspero conflito entre elas – no qual um soldado inglês ferido é acolhido e salvo por uma família católica, e também curado por um sacerdote e médico. Num contexto de extrema violência, no qual ambas as partes parecem ter perdido qualquer vestígio de humanidade, realiza-se um primeiro passo de reconciliação através de uma relação pessoal com o inimigo. De facto, são os encontros, o contacto humano, a única arma possível contra a violência, a única que tem a força de levar à reconciliação. E todos sabemos que no contacto humano, na relação empática, as mulheres são mestras inigualáveis.

O cinema contou-o várias vezes, mas talvez nada seja mais comovedor do que a história de reconciliação tecida por mulheres no centro do lindíssimo documentário The Heart of a Murderer (2012) rodado na Índia pela regista italo-australiana Catherine McGilvray. Numa hora, o filme conta a história de Samundar Singh, o jovem fanático hindu que em 1995, com vinte e dois anos, assassinou a irmã Rani Maria, missionária franciscana do Kerala. Depois de a ter esfaqueado 54 vezes, abandonou-a na berma da estrada. Uma morte lenta, lentíssima na solidão.

A irmã de Rani, também ela religiosa, juntamente com a mãe, soube encontrar um caminho de perdão e por conseguinte de reconciliação, conseguindo também no difícil empreendimento de traduzir conceitos cristãos na cultura hindu, a fim de se fazer compreender pelo assassino. Aprisionado e condenado à prisão perpétua, Samundar é em seguida perdoado pela família de Rani, que não só pede (e obtém) para ele a graça, mas chega a acolhê-lo como um filho e como um irmão.

Por conseguinte, no filme a regista conta um caminho feminino, uma capacidade de restabelecer relações dilaceradas pela violência, a criatividade de quem sabe construir relações ricas de humanidade onde há ódio, de colocar o bem no lugar do mal, interrompendo o hábito de responder com violência à violência.

A força desta proposta feminina de reconciliação divisou-se há cerca de um ano quando o documentário foi projetado na mesquita de Roma, por iniciativa do centro cultural islâmico, na presença da regista e da irmã de Rani, protagonista verdadeira da vicissitude. Diante de um público quase exclusivamente composto por homens, a doçura misturada com a força das suas palavras abriu novos cenários possíveis de convivência, fez compreender como se pode procurar uma reconciliação até depois de violências atrozes. Ensinou também que é indispensável fazer-se compreender entrando com respeito na linguagem do outro. É uma maneira de admitir que também em campo inimigo existe um desejo de paz, existe a vontade de reconhecer a humanidade profunda de cada um, independentemente da sua religião, raça ou sexo.

Lucetta Scaraffia

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8 de Dezembro de 2019

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