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​Lágrimas de força

· As mulheres diante da pobreza ·

«Haverá sempre pobres entre vós» dizia Jesus, não para que nos resignássemos com a sorte deles, mas para nos advertir que, em qualquer lugar do mundo e em qualquer período da história humana, haverá sempre pessoas mais fracas, vulneráveis e necessitadas que convidarão a viver o amor preferencial pelos pobres. Nenhum estado social, nem sequer o mais avançado, pode prescindir da interdependência e da solidariedade entre os homens. O facto que o rosto da pobreza se torne feminino em muitas cidades do mundo, não se deve somente à crise económica, mas também à crise da família: quantas mulheres são obrigadas a carregarem sozinhas o peso da educação dos filhos?

Edward Hopper, «Young Women in a Studio» (1901-1902 aprox.)

O individualismo da nossa sociedade faz aumentar o número dos pobres. O envelhecimento, fenómeno de escala mundial típico do século XXI e fenómeno na sua maioria feminino, que numa visão bíblica da vida deveria ser concebido como uma graça e um dom de Deus, é muitos vezes sentido como um problema, que pesa nos balanços onde se deveria poupar. Não produzindo mais, os idosos são facilmente expulsos das famílias, dos bairros, das redes humanas, para serem condenados a uma vida anónima num instituto, como se a velhice fosse uma doença. Quantos idosos sozinhos há no Ocidente atrás dos muros dos asilos? A solidão e o desespero de muitas pessoas idosas tornam-se uma nova forma de pobreza na nossa sociedade materialista.

Ao mesmo tempo esta pobreza revela o deficit de cultura da proximidade e da espiritualidade nas mentalidades. A secularização dos corações não alienou os nossos contemporâneos só de Deus, mas também das suas famílias e dos concidadãos mais fracos. Não se aprende a viver com eles, tem-se medo, tenta-se evitá-los. Por fim, tem-se receio da própria fraqueza e tornamos-nos incapazes e enfraquecidos no âmbito humano.

Não é por acaso que no Evangelho as pessoas que primeiro aceitam o caminho da fraqueza são as mulheres. Ao ver o sofrimento de Jesus, entendem que não têm nenhuma capacidade de decisão, mas estão ali e velam aos pés da cruz. Que poder representam diante dos olhos da sociedade? As mulheres têm um carisma particular no que respeita a aceitação da própria fraqueza e da própria fragilidade. Quando no Evangelho, pela primeira vez, nasce uma comunidade ao redor de Jesus, há mulheres: estão aos pés da cruz. Apesar de todos os discípulos terem fugido, elas têm a coragem de permanecer ao lado de Jesus: «Também ali estavam algumas mulheres a contemplar de longe; entre elas, Maria de Magdala, Maria, mãe de Tiago Menor e de José, e Salomé, que o seguiam e serviam quando Ele estava na Galileia; e muitas outras que tinham subido com Ele a Jerusalém» (Marcos, 15, 40-42).

Aos pés da cruz nasce uma família nova, que podemos considerar a primeira comunidade cristã. Quando não se evita o sofrimento, quando se aceitam com confiança as próprias fraquezas, quando a fragilidade e a impotência se transformam em oração ao Senhor, surgem energias inesperadas.

O grande filósofo e teólogo ortodoxo russo Evdokimov no seu livro A mulher e a salvação do mundo diz: «Mais interiorizada, mais ligada às raízes, a mulher sente-se logo à vontade nos limites do seu ser e esforça-se por utilizar os próprios dons para criar uma sinfonia clara e límpida da sua pessoa. Enche o mundo com a sua presença a partir de dentro. (…) O homem excede o seu ser, com o seu carisma de expansão. Aspira a alcançar o máximo da sua potência com a qual enche o mundo (…). O instinto masculino de destruição “pai da guerra” pode ser ”limado” pelo feminino e sublimado em instinto de vida, de construção da cultura e do culto. (…) O homem de hoje desumaniza o mundo em todas as formas de objectivação; pois bem, para o instinto materno, toda a objectivação é organicamente impossível. (…) A mulher humaniza e personaliza o mundo (…). Defende sempre o primado do ser sobre a teoria».

O rico deve aprender novamente a viver com a própria fraqueza, que é real apesar de tudo o que faz para escondê-la. O encontro com uma pessoa idosa ou doente ajuda-nos a aceitar a nossa fraqueza. Estas realidades obrigam-nos a interrogarmos-nos sobre o que somos, sobre o que esperamos, sobre onde procuramos e encontramos a nossa alegria. O encontro com o pobre é um mistério que nos abre a Deus.

«A guerra é a mãe de todas as pobrezas» diz Andrea Riccardi, fundador da comunidade de Santo Egídio. A paz, este bem precioso da humanidade, é ameaçada por todos os lados, uma parte importante do mundo hoje está em chamas. Quantos corações não são habitados por um capital de ódio e de vingança que esperam para poder explodir, semeando morte e destruição? Hoje vemos o deficit de um mundo que não investiu muito no viver juntos e que se habituou à doença da violência e da guerra. Os cristãos, apesar de terem recebido de Jesus a missão de serem construtores de paz, muitas vezes sentem-se condenados a serem espectadores de um mundo injusto e ingovernável, e por fim resignam-se ao pessimismo.

Barbara Ehrenreich no seu livro Ritos de sangue: um estudo sobre as origens da guerra especifica que a guerra é uma das actividades mais abertamente sexistas da humanidade, devido à estreita ligação entre guerra e virilidade. As mulheres, as mães, as esposas, as filhas vêem a dor da guerra, a perda das pessoas queridas, as destruições. As mulheres choram durante a guerra, choram mesmo por aqueles que não são seus filhos, também a Igreja chora durante as guerras. Nos tempos difíceis de guerra, a Igreja mostra, por antonomásia, a sua maternidade, o seu lado materno, enquanto os homens se matam uns aos outros. Durante a guerra, a Igreja mostra o seu perfil de mãe. Ama a paz porque é mãe.

Maria é a figura materna que chora durante a guerra. Maria chora durante a guerra e resplandece nos tempos de paz. É feliz quando nasce o Salvador e chora aos pés da cruz. As lágrimas exprimem o seu desespero, mas ao mesmo tempo também a força desta mulher frágil, que é a mãe de Deus. As suas lágrimas mostram que a humanidade não aceita a guerra. Maria é venerada como a Rainha da paz que representa a esperança do nosso mundo.

As lágrimas, os gritos de desespero tornam-se um pedido de ajuda. Os soluços são uma súplica diante da qual Deus não fica surdo. Na oração entregamos a Deus a nossa fragilidade que nos torna fortes na fé e no amor ao serviço dos outros. A oração é a arma dos fracos e dos pobres. Estamos aqui perante um grande paradoxo da vida cristã: a força dos fracos e a fraqueza dos fortes. Como diz são Paulo, «quando sou fraco, então é que sou forte» (2 Coríntios, 12, 10).

Estar presente entre os que sofrem é oração, é escuta. Como diz Jesus, é Maria que escolheu a parte melhor, que não lhe será tirada. A presença ao lado de Jesus, o ouvir a palavra (confira Lucas 10, 38-42). O nosso mundo, que está doente de violência, de guerra e de solidão, tem sede de amor, de consolação, de paz, tem necessidade de mulheres fortes, de mulheres de fé. Evdokimov escreve: «A mulher salvará o mundo só se sentirá um tremor diante do mistério das virgens sábias da parábola evangélica, se, gratia plena, tornar-se-á realmente, seguindo o exemplo da Virgem, a porta do Reino».

As virgens sábias encontraram a força para conservarem as suas lâmpadas acesas. Tinham como reserva uma grande confiança no Senhor que tinham alcançado da fonte da esperança. Estas mulheres mostram o caminho, testemunham que o Deus da ternura não abandonou o mundo. As mulheres junto do sepulcro tornam-se as primeiras testemunhas de Jesus ressuscitado, as primeiras testemunhas da Boa Nova. Aquelas mulheres que ficaram aos pés do sofredor, que velaram estando presentes, que não fugiram da fraqueza, são fortes. Vêem um caminho de esperança e de ressurreição e comunicam-no aos outros. Na escola do sofrimento aprende-se a não ter medo das lágrimas e das súplicas e sente-se consolo ao entrever o caminho da ressurreição, da esperança e da paz.

de Hilde Kieboom


Diaconia e espiritualidade

Hilde Kieboom nasceu no dia 7 de Maio de 1965 em Wilrijk (Antuérpia). Estudou grego e latim, depois línguas e literatura germânica na universidade de Antuérpia e teologia no Centro Teológico e Pastoral de Antuérpia e na universidade católica de Lovaina. É casada e tem dois filhos. Em 1985 fundou, na sua cidade, a comunidade de Santo Egídio, que tinha conhecido dez anos antes em Roma. Em 21 de Julho de 2003 o rei Alberto II concedeu-lhe o título de baronesa pelo seu empenho e dois anos depois a universidade de Utrecht conferiu-lhe um doutoramento honoris causa, pelo modo como colocou em prática a diaconia e a espiritualidade na sociedade moderna. Em 2007 recebeu do patriarcado da Igreja russa ortodoxa a condecoração da ordem de Santa Olga pelos seus méritos na Igreja e na sociedade. Em 2014 tornou-se vice-presidente da comunidade de Santo Egídio.

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