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Kippot e perucas

· Motivos diversos para homens e mulheres no mundo hebraico ·

«Cobre a cabeça porque a presença divina está sempre por cima dela» prescrevem os textos hebraicos. Para os homens, a prescrição de ter a cabeça coberta é muito mais estrita e vinculante que para as mulheres.

Os hebreus observantes têm uma barrete com a forma de solidéu, a kippah. Esta é determinada para todos os homens, casados e solteiros, e usam-na também as crianças muito pequenas. É considerada obrigatória na sinagoga, quando se estudam os textos sagrados e quando se come, mas os ortodoxos usam-na sempre. Não é uma prescrição de origem bíblica, ainda que já esteja presente nos textos posteriores, a Mishnah e o Talmud babilónico.

Muito diversa, como motivação, é a obrigação para as mulheres de cobrirem-se a cabeça. De facto, se para os homens é um sinal de respeito diante da presença divina, para as mulheres é um sinal de pudor e de modéstia. Muitas mulheres hebraicas andam livremente com a cabeça descoberta e não cobrem a cabeça nem sequer para rezar, como é costume em muitas comunidades, por exemplo nas italianas.

A fazê-lo são as mulheres ortodoxas e ultra-ortodoxas. De costume usam um lenço amarrado com um nó atrás, na nuca, chamado tichel ou mitpachat, ou então barretes ou também atraentes chapéuzinhos.

Em outros casos, por cima dos chapéus cortados muito curtos, usam perucas, normalmente penteadas de modo antiquado para que revelem imediatamente que se trata de perucas e não de cabelos verdadeiros. Lemos sobre isso nos contos e nos romances de Singer e em toda a narrativa que nos chega do mundo do shtetl, a povoação hebraica da Europa oriental onde viviam muitos judeus antes da Shoah. Ainda hoje se veem muitos nas comunidades ultra ortodoxas americanas ou israelianas, em Brooklyn ou em Meah Shearim. A regra exige que quem deve cobrir a cabeça sejam só as mulheres casadas, não aquelas ainda solteiras. A partir do dia do matrimónio, a cabeça descoberta pode ser consentida só em família ou na intimidade com o marido. Fora os cabelos nunca devem ser mostrados.

Nenhuma proibição ou uso impediu, no mundo hebraico, de mostrar o rosto, que sempre permaneceu sem algum véu em todos os momentos históricos. Só de recente um grupo de mulheres ultra ortodoxas tentou introduzir, sem sucesso, o burqa em Israel.

Como no caso da kippah, a cabeça coberta das mulheres não é uma prescrição bíblica, ainda que a questão seja controversa, mas parece que pertença àquele amplo conjunto de regras que a Mishnah e o Talmud elaboraram a partir do texto bíblico até erguerem aquele «muro ao redor da Torah» que segundo as intenções dos rabinos devia servir para preservar a identidade hebraica das perseguições e das adulações da integração.

No caso da cabeça feminina coberta, o Talmud inspira-se em um texto bíblico (Números 5, 18), onde os sacerdotes soltam os cabelos de uma mulher como sinal de humilhação e penitência, para deduzir que as mulheres normalmente tinham a cabeça coberta.

Segundo outras interpretações, a necessidade de cobrir a cabeça mais que a verdadeiras regras escritas, pertence a um conjunto de prescrições que tomam o nome de costume, em hebraico minhag, e que obedecem à exigência de manter a modéstia, a tzniut.

O conceito de tzniut é essencial no mundo hebraico e refere-se ao comportamento, ao modo de vestir-se e de pentear-se. Na origem, era uma expressão que se aplicava aos homens e às mulheres, para implicar modéstia e humildade. Sucessivamente passou a designar de modo especial um comportamento e um modo de vestir-se, por parte das mulheres, de modo a desencorajar o olhar e o desejo dos homens.

O carácter intensamente erótico dos cabelos é muitas vezes evidenciado nos textos, com frequentes referências ao Cântico dos Cânticos e é atribuída uma grande importância, no mundo ortodoxo, à obrigação de cobrir também os braços. A tzniut varia de acordo com a situação, de lugar para lugar, e pertence ao uso de cada comunidade. De modo que em algumas comunidades orientais, de modo especial no Iémen, as mulheres costumavam cobrir a cabeça com um verdadeiro e próprio véu, sob a influência muçulmana do externo, contudo deixando sempre o rosto descoberto.

Anna Foa

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20 de Agosto de 2019

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