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Junção epocal

· Teologia ·

Seria realmente estranho que a nova sensibilidade da Igreja para a questão feminina não tivesse reflectido – e até mesmo uma reflexão exemplar – dentro da própria Igreja. Naturalmente, reflectir não significa um puro e simples olhar-se ao espelho. «Examinemtudo e fiquem com o que é bom» (1 Tessalonicenses, 5, 21). A questão feminina de hoje, na sua totalidade, é um território vasto, frequentado por esforços de aprofundamento teórico meritórios de todas as atenções, mas também de incursões ideológicas de constrangedor perfil intelectual.

Para não falar do facto que, no terreno prático das políticas e dos costumes, a menção da questão feminina inscreve-se um pouco de modo confuso entre os extremos: por um lado, como elemento qualificador das lutas civis contra as diferenças penalizadoras, ou seja aquelas que indicam um elevado grau de marginalização e de exclusão (o tema dos direitos dos pobres, dos deficientes, dos imigrantes, das mulheres); por outro lado como indicador de desigualdades no acesso às diferenças gratificantes, isto é para entrar aos níveis mais altos e exclusivos das elites profissionais (da liderança, da cultura, da economia, da política). Certamente há verdade em ambos os extremos. No entanto, fazê-los valer como o centro da questão feminina expõe também a traiçoeiros desvios e inconscientes reduções da mais ampla e profunda questão antropológica que implica. Em todo o caso, há quanto é suficiente para recomendar que o tema, também no âmbito da reflexão eclesial, não seja reduzido a uma simples questão de discernimento das boas maneiras ou das quotas rosa, dos complementos sentimentais ou do politically correct. Na verdade, trata-se da hodierna passagem de época, de um assunto sistémico. Por outras palavras, o tema impõe uma reconfiguração da questão antropológica como tal, e portanto, uma encruzilhada para o destino do humanismo vindouro. O assunto, em todo o caso, com as suas muitas implicações e ramificações, já se inscreve entre os fundamentais da hodierna relação entre o cristianismo e o humanismo: não como um tema entre muitos, mas como uma junção epocal para a orientação geral do ethos colectivo. Os motivos da sua reflexão não devem ser simplesmente recebidos de fora. O cristianismo tem razões e questões próprias para levantar, mesmo a respeito de si próprio, no horizonte deste kairòs, cujo tempo é agora e cuja riqueza já é prometedora, mas ainda desconhecida. A Igreja deve indagá-lo e apreciá-lo como um sopro do Espírito que indica a hora de um especial amadurecimento da semente evangélica, com a qual é necessário empenhar-se, de dentro do próprio cristianismo, a conhecer, pensar, experimentar. Não pode escapar a ninguém o facto que a Igreja colocou-se com resolução neste horizonte, inserindo a questão feminina entre os temas de empenho não ocasional e fragmentário do magistério cristão oficial. Não se trata de um simples encorajamento à nova exuberância de metáforas sentimentais da qualidade cristã. A indicação tem a intenção de provocar um processo de inteligência criativa, de boas práticas e de exemplos concretos do novo nível de integração requerido pela forma eclesial. No entanto, não deveria ser negligenciado o facto que a Igreja, nesta conjuntura cultural tão escorregadia, confusa, e até mesmo contraditória, permanece a única instituição de relevância mundial a ter colocado na ordem do dia um processo de pesquisa sistemática e de esclarecimento propositivo sobre o tema. A consciência cristã é solicitada com autoridade a aceitar lealmente o facto que a instrução intelectualmente honesta da questão implica o reconhecimento das suas omissões e contradições, que já podem ser reconhecidas como questões de verdade e de justiça da coerência evangélica. A Igreja já exprime-se de modo convicto sobre este ponto: um trabalho sério, de reflexão e de transformação do que há deve ser iniciado. E deve ser iniciado agora. «É completamente necessário – já escrevia sem artifício a exortação pós-sinodal Christifideles laici, publicada pouco tempo depois da encíclica Mulieris dignitatem de João Paulo II – passar do reconhecimento teórico da presença activa e responsável da mulher na Igreja à realização prática» (n. 51). Agora o Papa Francisco assume este ponto e relança-o. Na recente exortação apostólica Evangelii gaudium, voltou a repetir a necessidade de reconsiderar com mais rigor, nesta perspectiva, o facto que no evento fundador da Igreja, a Mãe do Senhor inscreve o feminino na própria constituição do seu princípio de graça. «De facto, uma mulher, Maria, é mais importante que os bispos» (n. 105). A função ministerial, também na sua original fisionomia de «poder hierárquico» não se define em razão de um «poder entendido como domínio», mas como «poder para administrar o sacramento da Eucaristia», com todas as implicações deste ministério-guia. «Aqui apresenta-se um grande desafio para os pastores e para os teólogos, que poderiam ajudar a reconhecer melhor o que isto implica em relação ao papel da mulher ali onde se tomam decisões importantes, nos diversos âmbitos da Igreja» (ibid). No seu discurso dirigido a mais de cem mulheres participantes no seminário internacional de estudo promovido pelo Pontifício Conselho para os Leigos, por ocasião do vigésimo quinto aniversário da carta apostólica Mulieris dignitatem, o Papa sintetizou no seu modo directo, ao qual nos estamos a acostumar, a necessidade de uma mudança global de perspectiva, convidando a reflectir de modo profundo sobre o feminino da Igreja («Não é “o” Igreja, mas “a” Igreja), como pista fecunda para a reabilitação de um elevado perfil do feminino na Igreja. A intuição de uma continuidade do princípio marial-generativo da Igreja, revisto como momento estrutural na Igreja, numa fecunda e permanente co-relação com o princípio petrino-ministerial, já tinha sido nitidamente formulada por Hans Urs von Balthasar. O desequilíbrio institucional desta continuidade, a favor de uma concretização do poder hierárquico do ministério masculino na Igreja que não possui um complemento na concretização do peso atribuído à geração feminina da Igreja, parece ser indicado, agora, como o tema de uma reflexão mais profunda. Isto evidentemente implica o ultrapassar a ideia que a Igreja deva limitar-se a instruir como “caso humano” a questão teológica da emancipação feminina, em vista de um simples reconhecimento formal, politicamente correcto, da igual dignidade. Nem se trata simplesmente de igualar o reconhecimento da importância de uma função sentimental e afectiva, subsidiária da autoridade e da racionalidade da liderança masculina. Para não falar da confusão entre “serviço da mulher” e “empregada doméstica”: a redução da complementariedade feminina à servidumbre, ou seja ao trabalho e à condição de serva, sobre o qual o Papa Francisco ironizou de modo sápido (e amargo) na circunstância acabada de recordar. Na dogmática católica o ministério sacerdotal ordenado que preside a instituição é reservado ao homem. E a Igreja Católica permanece de modo firme convencida de não o poder dissociar desta ligação, na sua estreita referência ao essencial perfil sacramental do mandado confiado pelo Senhor, em palavras e gestos inequívocos, segundo as Sagradas Escrituras da tradição apostólica. Naturalmente, como a própria eclesiologia magistral readquiriu de modo definitivo, o ministério eclesial na sua globalidade, ao qual todos os baptizados são chamados a participar, com igual dignidade, segundo o carisma de cada um e a favor da comunidade crente e missionária dos discípulos do Senhor, é necessariamente mais amplo e articulado de vários modos. Um reconhecimento mais adequado da insubstituível contribuição do “génio feminino” à transversalidade desta articulação do ministério eclesial na sua totalidade, não pode portanto deixar de ser pensado na sua co-relação com a especificação – e portanto, neste sentido, também com os limites – de um especial “génio masculino”. Colheu-lhe o sentido de modo lúcido o cardeal Walter Kasper, numa recente intervenção na assembleia plenária dos bispos alemães (A colaboração entre homens e mulheres na Igreja, 18-21 de Fevereiro de 2013), cujo título já faz eco à Carta aos bispos da igreja católica sobre a colaboração do homem e da mulher na Igreja e no mundo (publicada pela Congregação para a Doutrina da fé, presidida pelo cardeal Joseph Ratzinger, em 31 de maio de 2004): «O facto que Maria, a mãe de Deus, seja o modelo da Igreja (...) tem um significado fundamental. Esta é a mais clara relativização pensável de uma Igreja dominada de maneira unívoca por uma hierarquia masculina». Há portanto um motivo para pensar que, se no ministério ordenado há uma qualquer razão fundamental de conveniência com o “génio masculimo” da vicariedade de Cristo, como um rochoso presídio do Povo de Deus através das águas, haja um “génio feminino” da íntima gestação do Corpo do Senhor, segundo a potência do Espírito, que espera um reconhecimento institucional mais explícito, à altura do actual amadurecimento histórico da Igreja? A pergunta exacta é esta: onde procurar o eixo de referência para a elaboração não arbitrária e bem ordenada da ligação entre a especificidade feminina, instituição cristã e ministério eclesial? A resolução do problema, dentro dos limites em que ele é teologicamente praticável e antropologicamente sensato, não poderá contudo ser definida numa chave de pura psicologia das aptidões ou de simples mansionário das funções. Se o cristianismo tem a responsabilidade de mover-se de modo eficaz em contra-tendência: seja no que diz respeito à perigosa inclinação para resolver em termos de competição dos poderes e de indiferença das funções a questão da dignidade da diferença sexual; seja a respeito da ênfase da sua simples remoção, que prepara a sua cumprida inscrição na tipologia dos jogos de rol. A pista de uma mais adequada cooperação na edificação da qualidade humana e cristã da diferença passará portanto – ela própria – através do efectivo envolvimento de ambos no processo que deve traçar o rumo. Não é talvez o tempo de instaurar, de modo sério, o perfil de uma escuta oficial da autoridade feminina na Igreja? Por outras palavras, uma mediação instituída da interrogação e da restituição dos modos onde - na história da tradição eclesial e da fé teologal – o feminino antecipa a assimilação ministerial da Palavra («Façam o que ele mandar», João, 2, 5) e plasma a geratividade comunitária do Espírito («Mulher, eis o teu filho», João, 19, 26) a favor da missão eclesial. Não é talvez esta autoridade da obediência da fé já em si exercida no campo das boas práticas e da sabedoria reflexiva, através das quais as mulheres configuram em muitos modos a dedicação e a inteligência do sim de Maria à gestação que antecipa o regaço da Igreja? As mulheres que acreditam de modo autêntico, não são já agora – e desde sempre – um momento especial da construção da Igreja, no pensamento e nas obras, contribuindo a gerar e regenerar o Corpo do Senhor em modo tal que, se devesse de repente faltar o contributo específico delas, a Igreja de facto não subsistiria e a sua maternidade não seria reconhecível? «Na Igreja dos primeiros tempos as mulheres tinham um papel importante. São as primeiras testemunhas da ressurreição (...) e colaboradoras dos apóstolos (Actos dos apóstolos, 16, 14-40; 18, 2.26; Romanos, 16, 1.3.6.12s)». Porém «é sobretudo a proibição às mulheres de ensinar (1 Timóteo, 2,12) que determinou a história sucessiva» (Kasper). E se a pesquisa que a Igreja hoje nos indica com uma responsabilidade que não é mais possível adiar, fizesse o seu primeiro passo próprio com o ultrapassar esta proibição da “palavra”? Para iniciar, resumindo, seria realmente impensável a mediação permanente de uma específica instituição teológica-eclesial de homens e mulheres que, ao elaborarem uma sensibilidade realmente partilhada sobre o tema, a tornassem disponível de modo exemplar como antecipação e fermento da desejada cooperação – até aqui “tácita” – entre o princípio mariano e o petrino da Igreja?

Monsenhor Pierangelo Sequeri (Milão, 1944) é teólogo, escritor e músico. Sacerdote desde 1968, ensina teologia fundamental na Faculdade Teológica da Itália Setentrional e é doutor musicólogo da Biblioteca Ambrosiana de Milão. Desde 2009 é membro da Comissão Teológica Internacional. Entre os seus livros: Charles de Foucauld. Il vangelo viene da Nazareth (2010), La giustizia di Agápe (2010), L’ombra di Pietro (2006). Director da revista «L’ErbaMusica», elaborou um programa especial de educação musical, chamado musicoterapia orquestral, para crianças e rapazes com dificuldades psíquicas e mentais. É autor de alguns dos mais conhecidos hinos sagrados litúrgicos.

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